EPÍSTOLA (1Ts 1, 5c-10)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

APELO DE PAULO: Tendes conhecido de que modo nos comportamos entre vós por vossa causa (5). Scitis quales fuerimus vobis propter vos. A partir do início deste versículo, Paulo explica como aconteceu a entrada dos tessalonicenses no cristianismo: a pregação de Paulo foi acompanhada de milagres [en dynamei] de dons do Espírito [en Pneumati] e tudo com profunda entrega [plërosofia pollë]. É agora que Paulo apela a seu comportamento entre os Tessalonicenses e a resposta destes últimos diante das verdades do evangelho. Quase com as mesmas palavras descreve Paulo seu ministério apostólico em Corinto: Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus (1 Cor 2, 5). E é para que através da fé os corações dos tessalonicenses, como escreve aos de Colossos, sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo (Cl 2,2).

OS IMITADORES: Assim vos tornastes nossos imitadores e do Senhor, recebendo a palavra em grande aflição, no meio do gozo do Espírito de Deus (6). Et vos imitatores nostri facti estis et Domini excipientes verbum in tribulatione multa cum gaudio Spiritus Sancti. Nas condições narradas no versículo anterior, os tessalonicenses tornaram-se IMITADORES [mimëtai<3402>=imitatores] de mimëtës como modelo e exemplo, como também pede aos de Corinto: Peço-vos, portanto, que sigam o meu exemplo (1 Cor 4,16). Porque Paulo lhes escrevia, dizendo: Até esta presente hora, sofremos fome e sede, e estamos nus, e recebemos bofetadas, e não temos pousada certa. E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos. Somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos; Somos blasfemados, e rogamos; até o presente temos chegado a ser como o lixo deste mundo, e como a escória de todos (1 Cor 4, 11-13). Também o Senhor esteve sujeito a uma  rejeição violenta, como ele afirmou: Desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele (Mt 11, 12). E dá a razão: porque receberam a palavra com GRANDE AFLIÇÃO [thlipsei <2347> pollë<4183>=tribulatione multa]: Thlipsis é a palavra grega que significa opressão, aflição, tribulação e perseguição, como em At 11, 19. Como tribulação Paulo fala aos romanos dizendo: Alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração (Rm 12, 12). Como dificuldade, em plural dificuldades, lemos 2 Cor 8, 13: Não digo que vão fazer bem a outros, a ponto de passarem dificuldades, a respeito da esmola dada para os outros fiéis em necessidade. Porém, sendo as tribulações externas, o interior está cheio do GOZO [chara<5479>=gaudium] do Espírito SANTO [agios<40>=sanctus]. Chara grego é gozo como em Mt 28, 8 em que as mulheres, saindo pressurosamente do sepulcro, com temor e grande alegria [chara], correram a anunciá-lo aos seus discípulos. Paulo descreve em Rm 14, 17 a realidade interna do Reino: o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. E Jesus descreve este gozo em Mt 25, 21: E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor. Agios uma coisa pertencente à divindade e consequentemente sagrada ou divina: Se alguém destroi o templo de Deus, também Deus o destruirá. De fato, o templo de Deus é santo [agios] e vocês são esse templo (1 Cor 3,17). PNEUMA: Dentre os espíritos, temos o ESPÍRITO HUMANO, como afirma Paulo: Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou (1 Cor 5, 3). Os ESPÍRITOS MALIGNOS ou impuros: estava na sinagoga deles um homem com um espírito imundo, o qual exclamou (Mc 1, 23). Finalmente, o que chamamos de ESPÍRITO SANTO e que aparece primeiro em Mt 3, 11: Eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas sandálias não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo. Esse Espírito nos foi dado como amor de Deus: o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5). Também dos dons carismáticos que não implicam necessariamente justificação. Finalmente do próprio Espírito Santo que habita dentro do homem, justificado pelo batismo, e que o Batista viu repousar em forma de pomba sobre Jesus (Jo 1, 32). Espírito que repousa ou habita interiormente em todo batizado, como rogavam em At 8, 15: Quando estes chegaram, oraram pelos crentes da Samaria para que recebessem o Espírito Santo.

MODELO: De modo que vos tornastes exemplos a todos os crentes na Macedônia e na Acaia(7). Ita ut facti sitis forma omnibus credentibus in Macedonia et in Achaia. EXEMPLOS [typoi<5179>=forma] A palavra typos significa MARCA, como em  Jo 20, 25: se eu não vir o sinal [typon] dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei. IMAGEM ou estátua como em At 7, 43: Antes tomastes o tabernáculo de Moloc,e a estrela do vosso deus Refam, Figuras que vós fizestes para as adorar. MODELO como em At 7, 44: O tabernáculo do testemunho, como ordenara aquele que disse a Moisés que o fizesse segundo o modelo que tinha visto. Moralmente é um EXEMPLO ou paradigma como Fl 3,17: Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. MACEDÔNIA: província romana, estabelecida oficialmente em 146 aC depois que o general romano Quinto Cecílio Metelo derrotara Andrisco de Macedônia. Era então o resto do império macedônico que teve seu esplendor com Alexandre, o Magno. Salônica ou Tessalônica era a capital da região. Hoje ocupa o nordeste da Grécia atual. Ela foi também a cuna de Aristóteles. ACAIA: seu território corresponde com o Peloponeso, onde estava o golfo de Corinto, o monte Patras, a cidade de Esparta e a região de Arcádia ao norte desta última. Foi conquistada por Roma no ano 146 aC numa campanha militar conduzida por Lucio Mummio que terminou com a destruição de Corinto. Esta cidade era próspera nos tempos de Paulo, assim como Tessalônica. Falar de Macedônia e Acaia era praticamente falar de toda a Grécia continental em tempos do apóstolo.

LABOR DOS TESSALONICENSES: Por meio de vós há ressonado a palavra de(o) Deus não só na Macedônia e Acaia, mas também em todo lugar vossa fé, a dirigida a Deus, há ressonado de modo que não há necessidade de nós termos que falar alguma coisa (8). A vobis enim diffamatus est sermo Domini non solum in Macedonia et in Achaia sed in omni loco fides vestra quae est ad Deum profecta est ita ut non sit nobis necesse quicquam loqui. POR MEIO DE VÓS: Talvez por meio de Priscila e Áquila que chegaram de Roma, seguindo a expulsão dos judeus por Claudio, segundo lemos em At 18, 2, Paulo soube em Corinto das notícias de Macedônia, vindas de Roma, quando o casal se juntou a Paulo para falar de Jesus na sinagoga (At 18,2). EM TODO LUGAR: Sem dúvida que é um ditirambo; mas pelo menos em Roma, capital que acolhia toda novidade religiosa, a fama dos tessalonicenses como cristãos tinha chegado aos fiéis da capital do império. Após a entrada em Filipos, abortada pelos judeus, Tessalônica foi o lugar propriamente grego em que Paulo teve oportunidade durante um tempo de pregar e converter grande número de gregos (At 17, 4). Essa fé é descrita como DIRIGIDA A DEUS: como se disséssemos, de uma fé em ídolos, agora encontramos a fé no único e verdadeiro Deus; pois o número de conversos entre os pagãos de Tessalônica foi grande, segundo o livro dos Atos (cap 17). Essa fé é tão conhecida que Paulo diz que não tem necessidade dele contar como foi a conversão dos tessalonicenses quando chegar a uma outra cidade e especialmente em Roma. Ou também que ele não teve necessidade  de pregar o evangelho porque os próprios tessalonicenses o faziam de modo perfeito. A primeira conclusão parece mais conforme com o que Paulo escreve no versículo seguinte.

FINAL: Pois eles mesmos anunciam, no tocante a nós, que classe de entrada tivemos junto a vós e como os volvestes a(o) Deus desde os ídolos para servirdes o Deus vivo e verdadeiro (9). E para aguardardes o seu Filho dos céus, a quem levantou dentre os mortos, Jesus que nos livra da ira vindoura (10). Ipsi enim de nobis adnuntiant qualem introitum habuerimus ad vos et quomodo conversi estis ad Deum a simulacris servire Deo vivo et vero. Et expectare Filium eius de caelis quem suscitavit ex mortuis Iesum qui eripuit nos ab ira ventura; A acolhida de Paulo em Tessalônica foi muito comentada como vimos no versículo anterior, por ser uma cristianização em massa de gregos e pelo longo espaço de pregação de Paulo na sinagoga contra os judeus, que aparentemente não podiam o contradizer. Dessa pregação, Paulo resume os principais resultados: mudança do paganismo idolátrico ao monoteísmo estrito que Paulo declara ser o Deus VIVO [zön<2198>vivus]. Este atributo oposto ao morto como era todo ídolo, que em figura de homem principalmente, não podia nem ver, nem ouvir, nem andar (Ap 9, 29). O primeiro que usa a palavra vivo para o Deus monoteísta é Caifás: Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus (Mt 26, 63). VERDADEIRO:      [alëthinos<228>=verus] com o significado de verdadeiro ou real. VERDADEIRO, como em Jo 3, 33: Aceitar o seu testemunho é reconhecer que Deus é verdadeiro. Ou REAL, como em Jo 17, 3: A vida eterna consiste em conhecerem-te como único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste. No AT temos Jahveh Elohim que poderíamos traduzir por o existente dos deuses ou o Deus vivo de Caifás. Assim temos um Deus que é real e amante da verdade. Mas essa fé tem uma esperança que é motivo da nova vida do cristão; pois nos movemos pelo desejo, que é esperança de um bem, neste caso supremo: a liberdade da IRA [orgë<3709>=ira] VINDOURA [erchomenë <2064> =ventura]. IRA: Frequentemente encontramos no NT a ira de Deus. Qual o significado? Em Jo 3, 36 encontramos a resposta inicial: Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. A fé é a primeira causa de salvação. Se não dobrarmos a soberba mental diante da loucura do amor divino, nos espera a ira de Deus, como diz Dante nas portas do inferno, abertas pelo amor desprezado. Ira que recai sobre os filhos da desobediência (Ef 5, 6) ou da rebelião [os anjos rebeldes?](Cl 3, 6). Ira que também se manifesta diante da impiedade e da injustiça ante os homens necessitados: Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça (Rm 1, 18). VINDOURA: Muitos pensam que esta ira é a do juízo final na Parousia, em cujo caso o verbo ruomai <4506> deveria estar no futuro [livrará] e não no particípio de presente [livra]. No caso, com o presente que nos livra, Paulo expressa uma proposição dogmática, dando a Jesus o titulo de Redentor. Mas se traduzimos no futuro, a visão paulina se traslada ao juízo final, com Jesus como juiz supremo do universo. No primeiro caso, temos o juízo particular de cada pessoa, juízo que Paulo admite em Fl 1, 25: Tenho o desejo de partir e de estar com Cristo, o que seria incomparavelmente melhor. No segundo caso, o da Parousia, é para ouvir: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo (Mt 25, 34). Em ambos os casos serão recebidos como triunfadores, podendo a eles se referir as palavras de Jesus: levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima (Lc 21, 28). E não como vencidos, pisoteados pelo inimigo, como diz o Salmo 7, 5: Calque o inimigo aos pés a minha vida sobre a terra, e reduza a pó a minha glória.

EVANGELHO (Mt 22, 34-40)

Lugares paralelos:  Mc 12,28-31 e Lc 10, 25-28

O DEVER PRIMÁRIO DO HOMEM

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Os três sinóticos trazem o episódio do legista ou escriba tentando por Jesus à prova por meio de uma pergunta: Qual é o mandamento principal da lei? Embora Lucas difira um pouco, [que devo fazer para obter a vida eterna? – será a questão proposta pelo fariseu]  a pergunta é a mesma em essência. Dos três evangelistas podemos deduzir que a resposta de Jesus foi ad hominem, especialmente se seguimos Lucas,  isto é, perguntando por sua vez: Que recitas [lês em voz alta, será a melhor tradução de anagignoskeis = discernir ou ler] por meio da lei? (Lc 10, 26). E imediatamente o legista, ou escriba recitou o Shemá: Ouve, Israel! O Senhor é teu Deus. O Senhor é único. E amarás o Senhor, teu  Deus, com todo o teu coração, com toda tua alma, e com toda tua força (Dt 6,4-5).  Marcos acrescenta com toda a tua mente. Segundo Mateus e Marcos, parece que houve um intento de fazer um pulso com Jesus para ver sua qualidade como rabi, ou mestre. Jesus acabava de dar uma reposta magistral aos saduceus (Mt 22, 23-33) sobre a ressurreição dos mortos e, agora, era questão de saber sua altura teológica sobre uma questão na qual eles mesmos estavam divididos: Qual é o principal dos mandamentos da Lei? A pergunta é também atual, não só por sua materialidade, mas também porque na resposta encontraremos a base para realizar com perfeição todos os demais mandatos. O amor a Deus deve ser também a razão de que amemos ao próximo, ou cumpramos com perfeição os mandamentos da segunda tábua. É falso afirmar que amar uma pessoa por amor a Deus e não por amor a ela mesma, seria bastante estranho e o próprio Jesus não  terminaria de o entender. (J A P).

OS FARISEUS: Mas os fariseus, tendo ouvido que tinha silenciado os saduceus, reuniram-se sobre isso (34). Pharisaei autem audientes quod silentium inposuisset Sadducaeis convenerunt in unum. NOME: Da palavra parisaya [plural farisim, já que p e f eram sons confundíveis em hebraico] significa separados. Aparecem como grupo à parte nos tempos de Hircano [c. de 135 aC], separados do resto do povo que não guardava a lei e que, portanto,  poderia ser considerado como ímpio.  Mas foi no reinado de Alexandra (76-67 aC) que começam a ter influência como o grupo mais respeitado do judaísmo e, portanto, como líderes do mesmo. IDEOLOGIA: O que era peculiar ao farisaísmo era que procurava, mediante a obediência à Torah [Lei], representar o verdadeiro povo de Deus que se preparava para a vinda do Messias. Os pontos de vista eram os preceitos legais, observados com toda escrupulosidade, tanto os que se referiam à purificação como as datas sagradas e as ações rituais. A tradição era tão obrigatória como a lei escrita, de modo que Rabi Shammai podia afirmar que tinha duas Torah: a Torah escrita e a Torah oral. Nisso se diferenciavam dos saduceus que só consideravam como lei o Pentateuco e conseguiam persuadir os ricos, enquanto os fariseus tinham a seu lado a multidão. Praticamente, toda a vida veio a ser regulada por uma série de disposições individuais. Como atos de purificação, adotaram os ritos severos que eram próprios dos sacerdotes antes dos atos litúrgicos. Afirmavam que havia 613 preceitos dos quais eram negativos tanto quantos dias tem o ano (365) e o resto (248) eram positivos. Os escribas davam preferência aos mandatos transmitidos por via oral (Mt 15, 2). Adotaram os conceitos persas e helenísticos da ressurreição e do julgamento depois da morte e da existência de seres supra-humanos como anjos e demônios que os saduceus rejeitavam (At 23, 8). Em política, contra os zelotes, renunciavam a todo ato de violência. Aguardavam o Messias que os saduceus não esperavam. No NT são nomeados 75 vezes. Três dos evangelistas tratam dos fariseus como inimigos de Jesus, com a exceção de Nicodemos, por sua hipocrisia (Mt 23, 15) e por sua cegueira em compreender o verdadeiro messiado, não aceitando Jesus por suas implicações teológicas ( Lc 5, 21 e Jo 7, 48) e iniciando a perseguição dos primeiros discípulos, como foi o caso de Saulo, antes de sua conversão. Lucas parece que opta por um termo médio. Há fariseus que aceitam Jesus (At 5, 34 e 23, 9) e outros mais intransigentes que o rejeitam como Saulo. NÚMERO: Eram aproximadamente 6 mil no tempo de Jesus. Dividiam-se em grupos não menores de 12 e não maiores de 20, segundo o que estava prescrito sobre o banquete pascal. Tinham como costume celebrar, cada sábado, um banquete na casa de um dos que formavam o grupo. O banquete era preparado antes das 6 horas da tarde da sexta feira e se celebrava depois dessa hora. Sua principal ocupação era o estudo da lei, de modo que desprezavam o povo comum, chamado de ham-haaretz ou povo da terra, aos quais jamais convidariam para seus banquetes. Não obstante, um deles, Simão, convidou Jesus a um desses banquetes como lemos em Lucas 7, 36. O SILÊNCIO: Como lemos em Mt 22, 23-33 a pergunta dos saduceus foi sobre a ressurreição dos mortos, que Jesus resolveu mostrando a inépcia dos interrogadores. As ideias que tinham dos ressuscitados eram exageradamente materiais e humanas e como tal não correspondiam com a realidade. O CONSELHO: Foi uma reunião informal, e o assunto era Jesus: como demonstrar que era um incompetente como Rabi. O grego usa a frase epi auto, temos traduzido como se fosse uma frase neutra [sobre isso], mas pode ser do gênero masculino [sobre ele] ou seja sobre Jesus. A Vulgata traduz in unum, que creio não corresponde exatamente ao texto grego, que, por outra parte é traduzido por entorno a El, nos comentários em espanhol de Tuya O.P. Outras traduções: insieme, together, em grupo, não me parece mais prováveis.

OS MANDAMENTOS: Então interrogou um deles, jurista, tentando-lhe e dizendo (35): Mestre, que mandato (é) grande na Lei? (36). Et interrogavit eum unus ex eis legis doctor temptans eum. Magister quod est mandatum magnum in lege. JURISTA: A palavra NOMIKÓS significa um experto na Lei, que hoje diríamos jurista. Mestre é o mesmo vocábulo usado anteriormente na pergunta do tributo em Mt 22, 17, com a intenção de logo ironizar sobre a idoneidade de Jesus como versado na Lei, o qual ridicularizava em extremo sua liderança. A pergunta, em grego, que tem comparativos e superlativos, adoece de uma falta de sintaxe, mas indica uma tradução literal de uma língua semítica que carece dos mesmos. Seria: qual é o maior dos mandatos na Lei. Nas versões mais literais se introduz o artigo definido para ficar como qual é o grande mandamento na Lei, ou the great commandment. Corretamente, Marcos fala do principal [prötë] de todos (12, 28). Em Lucas, a pergunta é: o que devo fazer para obter a vida eterna? (10, 25). Os judeus distinguiam entre Torah [Lei] e mandatos [Mizvoth em hebraico e Entolai em grego]. Um dito farisaico afirmava que O Santo [Há Kadosh] só revelou a recompensa a dois preceitos. O mais importante: Honra os teus pais (Êx 20,22) e o menor de todos: Deixa livre a mãe quando pegares os filhotes dos passarinhos (Dt 22,7). Dos 613 mandatos, 365 eram negativos e 248 positivos. Os legistas davam preferência aos mandatos transmitidos por via oral {as tradições dos anciãos de que fala Jesus (Mt 15,2)} sobre os escritos como lei de Moisés (Mt 15,3). Não se discutia se as leis cerimoniais, como referidas ao culto, eram superiores aos preceitos morais referidos aos homens, nem se discutia entre preceitos grandes e pequenos (Mt 23, 23 e Mt 5,19). Era importante saber qual deles era o [megalé] grande (sic) na Lei, ou seja, um superlativo, segundo as normas das línguas semitas: Qual era o maior dos mandamentos prescritos por Moisés? Na resposta, Jesus fala de prótë [principal ou primeiro em excelência]. Os próprios fariseus falavam do Sábado, já que diziam que quem guarda o sábado guarda toda a lei. Outros diziam que era a observância das três refeições ou banquetes nas três festas principais como era tradição entre os anciãos e que sempre se celebravam no Sábado da correspondente semana. Outros falavam do sacrifício diário do cordeiro no templo.

A RESPOSTA: Jesus, pois, lhe disse: Amarás (o) Senhor, o teu Deus de todo o teu coração, e em toda a tua alma e em toda a tua mente (37). Ait illi Iesus diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo et in tota anima tua et in tota mente tua. Segundo Mateus e Marcos, Jesus dá uma resposta direta. É a resposta do Shemá.  Mas a leitura de Lucas é a mais provável: Jesus pergunta, em termos socráticos, por sua vez: Que está escrito na lei, como  recitas a mesma (Lc 10, 26)? Ou seja, qual é o dever iniludível e diário, como oração e como adoração de um judeu religioso? Sem dúvida, Jesus está perguntando pelo SHEMÁ, a recitação da lei, feita duas vezes por dia, por todo judeu maior de idade. Essa lei era a que estava dentro das filaterias, as caixinhas amarradas na fronte. O Shemá constituía a confissão de fé fundamental de Israel. Consta o Shemá de três lugares da Escritura: A primeira parte (Dt 6,4-9) consiste na profissão de fé no Deus do céu e da terra, manifestando a total consagração do homem a ele. A esta declaração de fé a chamavam tomar sobre si o jugo da soberania celestial. Nela se faz do amor de Deus o rasgo fundamental da piedade judaica que por amor a Deus é capaz de sacrifício e renúncia. Do versículo 8 [as atarás a tua mão como um sinal e serão como um frontal entre os teus olhos] os mestres da lei fabricaram os filatérios na fronte e na mão esquerda. É provável que também Jesus usasse os mesmos, especialmente para orar, particularmente, de manhã cedo. Dizem do rabi Aquiba que, torturado e penteadas suas carnes com ganchos de ferro, afirmou: Agora conheço o que significa com toda tua alma e pronunciou a palavra único várias vezes até que saiu dele a alma com esta palavra. A segunda parte (Dt 11,13-21) é uma exortação a cumprir os mandatos do Senhor. A terceira parte (Nm 15,37-41) é o mandato de tecer um manto com faixas e borlas para servir de recordação dos mandatos. São os tsitsit ou franjas do manto chamado Talit. Comparado este texto de Mateus com o grego da Setenta temos as seguintes diferenças: no lugar de dianoia [pensamento como causa, ou seja, mente] está dunamis [força, capacidade]  e no lugar do ex preposição de procedência, temos, em Mateus, para o segundo e o terceiro agentes [alma e entendimento] o en geralmente traduzido por em, mas que pode ter o significado de lebab<03824> [o ser interior], nephesh<05315>  [alento ou espírito de vida], maod<03966> [poder, força]. E implicam um pleonasmo contínuo para indicar que todo o ser humano, em potencial, deve ser usado no amor a Deus.

O SEGUNDO: Este é primeiro e grande mandato (38). Mas (o) segundo é semelhante a ele: amarás teu próximo como a ti mesmo (39). Hoc est maximum et primum mandatum. Secundum autem simile est huic diliges proximum tuum sicut te ipsum. Semelhante em motivo e objeto: o amor ao próximo que Lucas explicará com uma parábola quem é o tal próximo. Ou seja, todo necessitado, todo aquele que necessita de misericórdia de modo especial.  O próximo, que em grego é traduzido por Plësios [vizinho, contíguo], tem em hebraico a palavra Rea como expressão do mesmo com outras conotações. Segundo o comentário bíblico moderno do rabino Meir Matziliah, as palavras que designam companheiro, próximo e irmão são réa – amith- ben- am- ah. Ah é irmão e era usado para todo israelita. Em Lv 19, 17-18 saem esses quatro termos ah (irmão) amith (companheiro), bem (filho) am (povo) e rea (próximo) A citação será: Não odiarás o teu irmão [ah 0251] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith 05997] e por causa dele não levarás sobre ti pecado(17). Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos [ben 01121] do teu povo [am 05971]; mas amarás o teu próximo [rea 07453] como a ti mesmo. O texto do Levítico (19, 18) frequentemente citado de amarás o próximo como a ti mesmo é um texto negativo de não fazer o mal, pois começa com não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos de teu povo, mas amarás o teu amigo [rea em hebraico significa companheiro, irmão] como a ti mesmo. A Vulgata traduz rea como amicum e o grego como plesion, este como próximo, ou vizinho. A Nova Vulgata usa o proximum. Vemos que é um texto negativo impedindo atos de vingança ou de rancor. Mas Jesus, ao citar o mandato, dizendo que é semelhante ao primeiro, o transforma em amor positivo, amplamente descrito em Lucas como se demonstra com a parábola do bom samaritano. O próximo é todo aquele que necessita de nossa ajuda sem distinção de qualquer  classe. Ele deve ser amado como nos amamos a nós mesmos. E como mandato positivo, ele obriga sempre. Os dois mandatos são semelhantes, porque têm a mesma motivação: o amor.

A LEI E OS PROFETAS: Destes dois mandamentos toda a lei e os profetas estão pendurados (40). In his duobus mandatis universa lex pendet et prophetae. Esta frase, que temos  sublinhado, para um judeu significava a Sagrada Escritura, a Revelação. Com esta afirmação,  Jesus declara que toda a obra divina feita para o povo de Israel  teve como motor o amor e que o amor que Deus espera dos homens é uma resposta ao amor anteriormente recebido pelos mesmos. Por isso, a lei explica o modo de amar a Deus como sendo total: em todo teu coração [kardia], e em toda tua alma [psyché] e em toda tua mente [dianoia]. A vulgata traduz o En grego por ex toto corde  e por in tota anima e in tota mente. É uma tradução do Becol hebraico original, que a Setenta traduz com a preposição EX ou EK e que tem o significado como desde ou tendo como origem. Exatamente como trazem Marcos e Lucas o becol é traduzido por Ex [desde] como faz a Vulgata: ex toto corde tuo et ex tota anima tua et ex tota fortitudine tua. A Fortitudo [força] foi trocada por Mateus por Dianoia [mens latina e entendimento português]. Com isso, ele conseguia entrar no mundo tripartido dos Pitagóricos que dividiam o ser humano em corpo, alma e razão, e do qual temos uma reminiscência em Paulo, aos Tessalonicenses, falando do espírito, alma e corpo (5, 23). A ideia, como vemos, é que Deus é o Senhor absoluto e a ele devemos tudo o que temos. Foi tendo em mente esse relacionamento Senhor/súdito, esse Senhor que tirou Israel da terra do Egito, que a vida humana se torna uma dívida e que Jesus dirá: Devolvei a César [o senhor temporal] o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21). É agora que Jesus explica em que consiste esse tributo a Deus: Não era propriamente dar dois dracmas – o dobro que anualmente se dava como capitatio ao César – mas era um tributo total. A reposta de Maria, eis a escrava do Senhor:  faça-se em mim a tua palavra, é a única correspondente a toda criatura que quer cumprir com esse mandamento as responsabilidades de uma vida, que só a Deus pertence. Deus deve ocupar o primeiro lugar em nossos planos [mente], em nossos desejos [coração] e em nossas atividades [corpo]. Devemos cumprir em nossas vidas o que rezamos em nossas orações: Faça-se em mim a tua vontade como ela é suprema no céu. Este é o nosso Shemá Cristão.

CONCLUSÕES: O mandato supremo não é negativo, mas positivo. Indica que fazer o bem é muito mais importante que evitar o mal. 1o) Esse bem que desejamos realizar se traduz no amor que estamos obrigados a dar. 2o) Que se nossa vontade total (mente, alma e forças) está dirigida, todo o pensamento, todo o ser e toda nossa força estarão implicados e facilmente o mal será evitado. 3o) Que o amor não deve ser unicamente o fim como mandato mas o motivo e a razão de toda conduta. Exclusivo e total em nossa vida, qualquer deficiência ou insuficiência devem ser consideradas como pecado; ao grande mandamento corresponde logicamente o grande pecado. Em Deus, o amor é misericórdia devido à pequenez e debilidade do homem. No próximo e para o próximo o amor é benevolência e bondade, além de equidade e justiça. O budismo se fecha em si mesmo. Judaísmo e Islã se fecham na comunidade, e debatem o mal com o mal. Só o cristianismo rejeita o mal, mas acolhe o pecador como próximo e assim transforma a regra da caridade em norma universal.

PISTAS: 1) Jesus não responde unicamente à pergunta de qual é o mandato mais importante, mas dá uma visão total da vida, como estando sujeita a um dever fundamental: nascemos, vivemos e realmente crescemos para amar. Todo outro caminho está equivocado. E esse amor tem como objeto o outro. O Outro que é Deus  e o outro que é o homem com quem convivemos. Se nessa relação com o outro existisse uma outra razão fora do amor, podemos afirmar que essa relação seja dinheiro, poder, sexo, ou prazer, estaria errada e seria a base do pecado.

2) A Deus o amamos mais do que a nós mesmos: com tudo que é nosso, sem medida, que é a verdadeira medida do amor a Deus. Ao próximo como a nós mesmos. Estas são as únicas diferenças entre um e outro amor. O primeiro é total e absoluto. O segundo é relativo, mas não oposto ao maior amor com o qual amamos: aquele com o qual amamos e estimamos nossa própria vida, saúde e bem-estar.

3) Nesse amor encontramos a medida exata de nossa autêntica realidade. Qualquer outra regra de conduta é falsa e não oferece a razão verdadeira ou causa formal de nossa existência. Nascemos para amar porque somos, por causa de Deus e de nossos pais, produtos do amor.

4) Todos os dias, e, especialmente nos momentos de reflexão, devemos pensar: como podemos amar melhor as pessoas com as quais convivemos. Amar é uma entrega de pequenos sacrifícios e de insignificantes renúncias. Porém somadas, constituem o grande holocausto em que se consome uma existência que produz a grande convivência de confiança, paz, liberdade e felicidade de todos.