EPÍSTOLA (AP 1, 5-8)

 

(Padre Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Nestes versículos da introdução do Apocalipse, João escreve um canto à realeza e poder de Cristo. Evoca a expressão bíblica de ele é o que é, própria de Jahveh. Cristo é  a testemunha fiel das promessas, agora feitas realidade nos últimos tempos. É o primogênito por sua ressurreição e constituído o chefe sacerdotal, por ser aquele que com seu sangue purificou dos pecados os seus discípulos que com ele oferecem o sacrifício de louvor em suas vidas, como representantes da criação inteira. Só falta o triunfo final de quem é o poder que já domina o mundo por meio de seus planos, ainda ocultos.

TESTEMUNHA E PRÍNCIPE: E da parte de Jesus Cristo, a testemunha [martys<3144>=testis], a fiel [pistos<4103>=fidelis], o primogênito [prötotokos<4416>=primogenitus] dos mortos e o príncipe [archön <758>=princeps] dos reis da terra a quem nos amou e nos lavou [lousanti<3068>=lavit] dos pecados em seu sangue (5). Et ab Iesu Christo qui est testis fidelis primogenitus mortuorum et princeps regum terrae qui dilexit nos et lavit nos a peccatis nostris in sanguine suo. TESTEMUNHA: A Palavra Martys [ou martir] significa testemunha, como em Mt 18,16: se não te ouve, toma contigo uma ou mais testemunhas. No Apocalipse Jesus é a testemunha fiel [pistos]. Minha testemunha é o título dado a Antipas, em Pérgamo, que foi queimado dentro de um boi de bronze no tempo de Domiciano, por não querer reconhecer o título de Kyrios [Senhor] dado ao imperador, numa cidade que, por seu culto ao mesmo, será chamada de sede de Satanás (Ap 2, 13). O título de testemunha fiel é repetido em 3, 14 e ainda acrescenta veraz. Nos clássicos, testemunha é também a palavra de quem atesta ou testifica o fato. Testemunha é aqui o próprio Cristo como princípio da criação de Deus em oposição ao primogênito dos mortos. Pois diz João em 1, 18: Também é o Amém como o imutável, que completa a política de Deus de modo perfeito. Em Jesus encontramos a máxima certeza de que quanto fala é a verdade que ouviu do Pai (Jo 8, 40). É, pois, uma testemunha constituída desde a eternidade, como quem estava presente no mais íntimo [no seio] da vida e atuação divina para manifestar publicamente seus planos (Jo 1, 18). E diante do tribunal de Pilatos confirmará seu testemunho, afirmando que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade. De modo que todo aquele que é da verdade [busca ou pretende a mesma] ouve a sua voz (Jo 18, 37). Por outra parte, não só é suficiente que seja testemunha [martyr], mas que seja veraz, ou seja, que não altere o que viu e ouviu. E daí a palavra pistos que significa fiel, exato. Neste livro encontramos fiel unido a veraz 3 vezes (19, 11; 21, 5 e 22, 6). Ele em si mesmo é fiel e veraz ou verdadeiro, como atributo intrínseco à sua natureza e como qualidade essencial de sua palavra (21, 5 e 22, 6) por ser verídica e oposta à mentira. PRIMOGÊNITO DOS MORTOS: significa muito mais do que ser o primeiro ressuscitado; mas como todo primogênito, a ele se deve uma relação especial de quem são as promessas e ao que todos os irmãos devem reverenciar, como o representante vivo do Pai, ou como diz Paulo, o primeiro concebido [prototokos] entre muitos irmãos (Rm 5, 29) que em Cl 1, 18 explicará como o princípio, primogênito dentre os mortos [archë, prototokos ek tön vekrön] para ser em tudo ele o que tem a preeminência [pröteuön]. Princípio de uma nova era em que todos devem se assimilar a Cristo, o novo homem (Gl 6, 15) que restitui a semelhança com Deus (Cl 3, 10), perdida no velho Adão, pois foi criado como espírito que dá vida (1 Cor 15, 14); o qual é Cristo e do qual devemos nos revestir como de um homem novo (Ef 4, 23). Os antigos rabinos falavam de Jahveh como do primogênito do mundo e do primogênito como sendo um título messiânico. Jahveh disse: Como eu fiz Jacó um primogênito assim farei o rei Messias um primogênito (Sl 89, 28). PRÍNCIPE: Nesse mesmo salmo lemos a continuação que o fará o altíssimo [ypsëlon] entre os reis da terra. Agora temos a palavra archön que significa líder, comandante, soberano. Na realidade, antes que termine o livro do Apocalipse, Jesus tomará o domínio sobre todo reino na terra. Será o rei dos reis. A palavra príncipe significa primeiro, principal, chefe, cabeça. Por isso dEle deriva todo poder, como Ele afirmou em Mt 28, 18: A mim foi dado todo poder no céu e na terra. Por isso será chamado rei dos reis e senhor dos senhores (1 Tm 6, 15).  DEle recebem os outros senhores sua autoridade e por Ele seus poderes são limitados e sua fúria restringida, seus desígnios estão contidos e a Ele devem dar contas. LAVOU: O verbo Louö  é lavar como em Jo 13, 10 e usa-se como lavagem de todo o corpo em oposição a niptö que é usado para lavar partes do corpo como mãos, pés, etc. Na realidade para lavar objetos usa-se o verbo plunö <4150> que sai uma única vez em Ap 7, 14: são os que lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro. Usando o verbo louö prece que o pecado é uma pessoa como comenta Paulo e não uma noção abstrata, como podemos ver em: Por um homem entrou o pecado no mundo e pelo pecado a morte   (Rm 5, 12). Para que o corpo do pecado seja destruído a fim de que já não sejamos escravos do pecado (Rm 6, 6). EM SEU SANGUE: O lavado é uma limpeza de impurezas. Aqui  a impureza é o pecado e só com o sangue de Cristo ele é totalmente lavado. Temos o texto de Ap 7, 14 em que os perseguidos como mártires recebem os vestidos brancos, sinal de pureza e as palmas, sinal dos vencedores, segundo a linguagem simbólica do livro. As vestes brancas eram as dos sacerdotes que ministravam no santuário. No NT vemos o aspecto do anjo no sepulcro, ao rolar a pedra, como o do relâmpago e sua vestimenta branca como neve (Mt 28, 3) indicando sua procedência do reino da luz e junto ao trono do Altíssimo. Os dois anjos que anunciaram a subida de Jesus, estavam vestidos de branco (At 1, 10). Os 24 anciãos perto do trono divino com coroas de ouro na cabeça, estavam vestidos de branco (Ap 4, 4)  e branco  era o cavalo vencedor do capítulo 6, 2 e sobre cavalos brancos, como ginetes vestidos de linho fino branco, era o exército celeste (Ap 19, 14).

SACERDOTES PARA O LOUVOR: E nos fez reis e sacerdotes para Deus e Pai dele. A ele a glória [doxa<1391>=gloria] e o poder [kratos<2904>=imperium] pelos séculos [aiönas<165>=saecula] dos séculos. Amém [amën<281>=amen] (6). Et fecit nostrum regnum sacerdotes Deo et Patri suo ipsi gloria et imperium in saecula saeculorum amen. REIS E SACERDOTES: Depois de absolver-nos e limpar-nos de nossos pecados, Jesus nos  constituiu numa classe especial, que antigamente estava formada por reis que eram os sacerdotes principais do deus nacional, como foi Melquisedec, rei de Salém, (Gn 14, 18), citado em Hebreus como protótipo de Jesus Cristo (5, 6; 10 e 6, 20). Sendo nós cristãos da família de Jesus pelo batismo, a lógica impele a encontrarmos dentro da classe sacerdotal e real como era o antecessor comum, à semelhança do que aconteceu com a tribo de Levi e a classe sacerdotal de Aarão que lhes pertencia em propriedade (Êx 29, 9) perpetuamente por todas as suas gerações (Êx 40, 15). A Igreja é a continuação do antigo Israel a quem Jahveh consagrou como reino de sacerdotes e povo santo (Êx 19, 6) para seu culto e, enquanto tal, para exercer o sacerdócio em nome de todos os povos da terra. Isaías 62, 12 confirma o título de povo santo como nome que pertence aos resgatados do Senhor. Por isso, Pedro em sua primeira carta 2, 9 afirma:  Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus. Este sacerdócio é exercido individualmente por cada um dos membros da Igreja como culto racional, apresentado o corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Rm 12, 1). Precisamente o novo Adão foi feito rei segundo Lucas 1, 33:  Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. E sacerdote como lemos em Hb 4, 14: Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Como Jesus, que veio fazer a vontade do Pai, todos temos uma hóstia a oferecer a Deus, dependente completamente de nossa vontade; é oferecer a nossa vida como um ato de conformidade, não com o mundo, mas com a vontade boa, agradável e perfeita de Deus. Esse é o nosso sacrifício, distinto do ministerial, oferecido pelo sacerdote ordenado em nome de todo o povo, que é o sangue e o corpo de Cristo, realizado em seu nome [isto é meu corpo, este é o meu sangue] sob seu  mandato: Fazei isto em minha memória (1 Cor 11, 24). Assim lemos em Hebreus 13, 15:  Por meio de Jesus, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome. GLÓRIA: Doxa em grego tem vários significados: honra, reputação, honorabilidade, todas correspondente ao modo de pensar humano. Mas a doxa bíblica, tradução grega da palavra Kabod<03519> é própria de Deus que se manifesta como majestade, glória e resplendor. Deus é chamado de Rei da majestade [melek ha-Kabod] em Sl 24, 7-8-9, que a Vulgata traduz por rex gloriae. A glória de Jahveh [doxa kyriou] é a manifestação gloriosa com a qual Deus aparecia aos antigos, como em Êxodo 24, 16 em que a glória de Jahveh apareceu sobre o Sinai em forma de relâmpagos e trovões. Em Lc 2, 9 a glória [claridade] do Senhor brilhou ao redor de Zacarias e o anjo. Logicamente aqui significa a honra devida a Jesus Cristo como Filho de Deus. PODER: A palavra é Kratos, que significa força, poder, vigor, energia, domínio. Lemos em Lc 1, 51: Usou de força [potentiam] com seu braço. E no canto do Cordeiro: A ele o louvor, a honra, e a glória e o domínio [potestas] pelos séculos dos séculos (Ap 5, 13). PELOS SÉCULOS: Eis tous aiönas  [in saecula]. E em outras ocasiões eis tous aiönas tön aiönön [in saecula saecularum], a palavra chave é Aiön, que está relacionado com aiei [sempre]; em latim aevum [tempo longo, idade, vida, século, perpetuidade] daí a tradução in saecula ou in saecula seculorum. No AT sai pela primeira vez em grego eis ton aiöna [leolan em hebraico] em Gn 6, 3 com o significado para sempre. No NT temos Jo 6, 51: quem comer deste pão viverá eternamente [eis ton aiona, in aeternum]. O plural indica o conjunto dos tempos ou idades e significa sempre, como será o reinado de Cristo: eis tous aiönas [para os séculos] ou in aeternum da Vulgata. A combinação dupla [eis tous aiönas tön aiönön] parece ser a preferida no NT  após Gl 1, 5, especialmente no Apocalipse em que sai 14 vezes e sempre traduzida como per saecula saeculorum ou pelos séculos dos séculos. A esta fórmula neotestamentária une-se frequentemente o AMÉM, com o significado de assim é, como parte de uma pequena oração, em geral de louvor, à qual nós, os orantes, admitimos dar nosso consentimento. Exemplo: no Apocalipse neste trecho e em 7, 12 como parte de um canto de louvor ao Cordeiro por parte dos escolhidos. De modo semelhante este meio versículo de hoje é um pequeno hino de louvor a esse Jesus, cujo sacerdócio ministerial nos salvou por meio de seu sangue, como acaba de declarar no versículo anterior.

TRIUNFO CELESTE: Eis que vem no meio das nuvens [nefelön<3507>=nubibus] e o verá todo olho  e todos os que o traspassaram [exekentësan<1574>=pupugerunt] e choraram [kopsontai <2875>=plangent] por ele: Todas  as tribos [fylai<5443>=tribus] da terra. Sim, amém. (7). Ecce venit cum nubibus et videbit eum omnis oculus et qui eum pupugerunt et plangent se super eum omnes tribus terrae etiam amen. NUVENS: A palavra Nefelë tem o sentido comum geográfico de nuvem; mas na bíblia, é aquela nuvem sobre a qual Jahveh precedia aos israelitas na sua marcha no deserto e que Paulo dizia estar pairando sobre eles, protegendo-os (1 Cor 10, 1). Essa nuvem era chamada de Shekinah. Em hebraico é Anan com o significado primitivo de cubrir. Shekinah é de origem caldeia, significando lugar de repouso e não encontrada nas escrituras, mas usada pelos judeus tardios para denominar o símbolo da presença de Deus no Tabernáculo ou tenda do testemunho [mishcam] (Êx 13, 21). Era, pois, o símbolo da presença de Deus com seu povo. Já no livro de Daniel aparece uma figura de homem nas nuvens do céu que era tipo do Messias (Dn 7, 13) para receber o Reino e Senhorio eterno; e seu reino não terá fim (Dn 7, 14). Esta visão escatológica [final] e ao mesmo tempo apocalíptica [em termos de imagem] será a que Jesus empregará em seu sermão diante de Jerusalém (Mt 24, 30), quando chora sua ruína,  e perante o Sumo Pontífice no Sinédrio (Mt 26, 64). Já sabemos que é um estilo na base de imagens que não são reais, mas simbólicas e metafóricas. Seu triunfo já se cumpriu e continuará até o fim dos tempos históricos. Porém, há o relato de At 1, 9-11 em que os anjos dizem que ele virá como o viram os apóstolos, testemunhas de sua Ascensão. Ambas as interpretações podem ser verdadeiras se temos em conta que o triunfo de Jesus tem pontos álgidos na História, como é a destruição do templo ou a destruição do muro de Berlim em nossa época. Uma interpretação talvez com base em que os exércitos eram considerados como nuvem em batalha, diz que a nuvem de Cristo é a multidão de seus crentes. Eles formam sua nuvem de glória, sua Shekinah. TRASPASSARAM: Todo olho o verá, significa que não será um segredo, mas fato patente. Sua vida não foi conhecida; em grande parte da mesma, viveu ocultamente em Nazaré; e mesmo no curto tempo de sua vida pública, ele não foi reconhecido por todos. Agora, nos últimos tempos, será reconhecido. Esse reconhecimento deu-se em tempos dos romanos, quando em 313 o edito de Milão reconheceu a legalidade do cristianismo, que deixou de ser perseguido como inimigo do povo romano, representado precisamente pelo soldado que o traspassou na cruz por meio da lança, soldado que pertencia as suas legiões. Aqui, como no momento da cruz, temos uma alusão à profecia de Zacarias 12, 10: Olharão para aquele que traspassaram pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito. Quando? Só temos certeza que um dia o povo de Israel, como nação, terá que exclamar: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 29, 39) e que Paulo diz será o que precede o fim, visto que, aparentemente, Israel será o último a reconhecer e entrar para formar parte do reino de Jesus (Rm 11, 25-26). TODAS AS TRIBOS DA TERRA: A salvação, que tem como base principal o reconhecimento de Jesus na cruz [in hoc ligno regnat] como Senhor, é um admitir como diz o poeta que “todos nele pusemos nossas mãos”. É um arrependimento que veio profetizado por Mt 24, 30: Então o sinal do Filho do Homem aparecerá no céu, e então todas as tribos da terra lamentarão e verão o filho do Homem vindo nas nuvens do céu com poder e grande glória. AMÉM: é a palavra final de uma oração ou um louvor, que diz sim, assim se cumprirá.

PRINCÍPIO E FIM: Eu sou o alfa e o ômega o princípio e o fim – diz o Senhor – o que é e o que era e o que virá, o Todo-poderoso (8). Ego sum Alpha et Omega principium et finis dicit Dominus Deus qui est et qui erat et qui venturus est Omnipotens ALFA é a primeira  letra do alfabeto grego e Ömega a última de modo que dizer eu sou o alfa e o ömega é o mesmo que o princípio e o fim [ë archë kai to telos] ou o primeiro e o último [o prötos kai o eschatos] de 22, 13. Isaías 41, 4 é a chave no AT: Quem fez e executou tudo isso? Aquele que desde o princípio tem chamado as gerações à existência, eu, o Senhor, o primeiro [rishon<07223>] e também com os últimos [acharon<0314>]. João acaba de terminar sua introdução. Agora Jesus se apresenta como tomando a palavra diretamente. Como temos visto em Isaías, o conceito não é novo e é o próprio Jahveh que pessoalmente o usa. Serão estas as palavras do Pai ou é Jesus, o Filho, quem as pronuncia? Esta segunda hipótese parece a única admissível. O livro se intitula A Revelação de Jesus Cristo (Ap 1, 1). Em Ap 22, 13 claramente o Alfa e Omega, o Princípio e Fim, são títulos que Jesus reclama para si mesmo. Se ele é o início e o fim, ele tem autoridade sobre todas as coisas no intervalo. Isto significa que ele tem um plano para a História e que tem o domínio para dirigir os eventos humanos a um fim que é Ele mesmo. Não existe nem o acaso nem uma causa evolutiva fora do que podemos chamar o triunfo de Cristo: até que todos os inimigos sejam postos embaixo de seus pés (1 Cor 15, 25). O QUE É: estas são as palavras do vidente perante a revelação formal de Cristo. Ao unir o tempo passado e futuro com o presente, indica-se uma estabilidade e imutabilidade do ser e das potencias do mesmo: uma presença inalterável e contínua como eram os preceitos de Jahveh segundo o salmo 111, 8: imutáveis pelos séculos dos séculos, fundamentados no direito e na verdade. Do Messias, o profeta Miqueias disse que reinará em Israel e cujas origens são desde os tempos antigos desde os dias da eternidade (5, 2). E em Hebreus: Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre (13, 8). TODO-PODEROSO: É a tradução do Pantokratör grego que tudo pode, ou controla sob seu domínio e que aparece em Sb 7, 25 e Eclo 42, 17 com esse nome, pois ambos os livros têm como língua origem o grego. Os intérpretes modernos dizem que é a tradução grega do hebraico Jahveh Sabaoth [Deus dos exércitos] ou El Shadday [Deus da montanha, ou Deus destruidor]. Este nome [Pantocratör] aparece 10 vezes no  NT das quais nove em Apocalipse e a outra em 2 Cor 6, 18. Precisamente neste último livro o poder de Cristo prevalece diante do poder do maligno, representado principalmente pelo poder dos outros Kyrios, como eram os imperadores de Roma. Sabemos como na Idade Média o Pantokrator era a figura majestosa de Cristo no trono, abençoando o mundo com a mão direita, e tendo na esquerda o livro dos evangelhos. Seus dedos abertos representam as letra IC, X e C do chamado Cristograma por JesuC XristoC no meio da amêndoa mística ou mandorla [vesica piscis] que significava ventre do peixe, sendo o IXTHYS o símbolo de I esus X ristos T heou Y ios S oter [Jesus Cristo, Deus  Filho, Salvador].

 EVANGELHO (Jo 18, 33-37)

 CRISTO REI

Lugares Paralelos:

(Mt 27, 11-14; 1 Tm 6, 13; Dn 2, 44; Jo 6, 15 )

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)


INTRODUÇÃO: Os sinóticos tratam do Reino a ser fundado e difundido. João tem como objetivo a divindade de Jesus, mas não abandona a terra e, dentro dela, Jesus tem um papel único: ser rei de um reino especial. O último dia de Jesus está dedicado ao REI, tanto na acusação perante Pilatos como na sentença e causa da mesma, na cruz. O evangelista se apoia no julgamento oficial de Pilatos para declarar por boca da verdade [eu vim para dar testemunha da verdade] que Jesus era o Rei esperado pelos judeus e que por defender sua causa, ele, não a multidão ou os soldados que formam seu exército, morre como condenado. Mas vejamos os detalhes.

    A PERGUNTA: Entrou, pois, de novo, Pilatos no pretório e chamou Jesus e disse-lhe: És tu o Rei dos Judeus? (33). Introivit ergo iterum in praetorium Pilatus et vocavit Iesum et dixit ei tu es rex Iudaeorum. O diálogo agora está entre duas únicas personagens:  Pilatos e Jesus. PILATOS: Segundo a tradição, Pontius Pilatos pertencia ao clã dos Pontii. Seu segundo nome, derivado de pilum [javalina ou dardo], significa armado de dardo. O pilum era uma haste de madeira de 2,0m de comprimento que terminava no seu último terço numa ponta metálica branda, de modo que com o impacto se curvava e não podia ser usada de novo pelo inimigo que o recebia. O pilum foi abandonado no século XVI. Pilatos foi nomeado prefeito de Judeia através da influência de Sejano (Lúcio Aélio), administrador-chefe de Tibério e prefeito de sua guarda pessoal. Sejano conseguiu o consulado e logrou que Tibério se refugiasse em Capri, ilha perto de Nápoles, para assim ser dono do poder. Acusado de ter matado Druso, o único filho de Tibério e de intentar um golpe de Estado, Sejano foi decapitado no ano 31 e seu corpo arrastado pelas ruas de Roma, onde se tornara odiado. Após a destituição de Arquelau, filho de Herodes, o Grande, a região compreendida pela Judeia, Samaria e Idumeia foi diretamente governada por Roma através de representantes diretos do imperador, por praetores legati, [epítropoi <2012> em grego] ou praefecti [de eparchia <1885> [província], eparchos, o presidente desse território] funcionários com atribuições variáveis. Em geral, eram administradores dos bens públicos ou finanças, como membros da classe dos equestres [équites]. Mas em tempos de Augusto, além da administração, tinham verdadeira exousia ou autoridade, tanto militar como judicial, até o jus gladii, ou direito de morte; mas estavam sujeitos à autoridade do seu chefe superior que era o legatus da província principal, neste caso da Síria, administrada por um procônsul da ordem senatorial. O legado da Síria dispunha de três legiões (36 mil homens) e o procurador da Judeia só de forças auxiliares (praticamente policiais), geralmente de origem samaritana ou síria. Parece que essas forças de Pilatos eram duas coortes. Cada coorte equivalia a um batalhão de 420 homens comandado por um tribuno militar, mas seu número foi reduzido a 360 homens no tempo do império. Pilatos comandava as duas: uma em Cesareia, porto de mar; e a outra em Jerusalém. Nos evangelhos, Pilatos é chamado de hëguemön <2232> (Lc 3, 1), traduzido ao latim por praeses, ou procurator e nas línguas romances por governador ou presidente. Sem dúvida que o latim é mais preciso do que o grego, pois os evangelhos são, neste ponto, bastante imprecisos. Nos Atos temos uma maior precisão, ao falar de Paulo Sérgio como anthypatos (latim proconsul) de Creta, e da Judeia como eparkheia (província) da qual era hëguemon Festo. A palavra hëguemön é usada indistintamente para todo poder superior numa região em que o governador tivesse poder judicial representado pela BEMA ou tribuna judicial, de modo que sentar-se no tribunal era a frase comum para indicar que se estava presidindo um julgamento, como no caso de Pilatos com Jesus (Mt 27, 19 e Jo 19, 13).  NOTA: Não posso deixar de apontar uma péssima tradução da bíblia de Jerusalém portuguesa  que diz em Jo 19, 13: Pilatos trouxe Jesus para fora, fê-lo sentar-se no tribunal, no lugar chamado pavimento,em hebraico Gábata. Quem realmente se sentou no tribunal [bema] foi Pilatos, pois o bema, que podemos traduzir por rostrum em latim, significava o estrado. A autoridade de Pilatos era o chamado Imperium, ou suprema, dentro da região que governava, porque os judeus tinham certa autoridade no tribunal do grande conselho ou sinédrio. O nome técnico latino para o ofício de Pilatos era o de procurator. Dele sabemos que governava sem se importar muito com os privilégios dos judeus ao quais profundamente desprezava: primeiro introduzindo as insígnias imperiais em Jerusalém, logo tomando dinheiro do Korban do templo para construir um aqueduto; e finalmente, com a matança dos galileus no templo, fato narrado pelo evangelista (Lc 13, 1). A lenda diz que estava casada com Pórcia, filha de Tibério e que, chamado a Roma, foi desterrado às Gálias onde terminou sua vida suicidando-se. A história diz que, devido à matança dos samaritanos no monte Garizim, foi deposto pelo legado da Síria, Vitélio, e chamado a Roma. Seu mandato durou 10 anos, de 26 a 36. NOTA: Korban [plural korbanoth] nome geral significando sacrifício, era a palavra com que se designavam os sacrifícios de animais ritualmente mortos e usualmente assados e comidos pelo oferente e os sacerdotes, sendo uma parte queimada no altar. Korbanot podiam ser outras oferendas como farinha, azeite, etc para o templo. O propósito dos sacrifícios era venerar, pedir favores ou perdão a Deus.   PRETÓRIO: Em grego praitörion <4232> de praetor, o antigo magistrado com autoridade judicial e que era responsável pelos jogos de Roma e, na ausência do cônsul (suprema autoridade), exercia poder amplo no governo da mesma. Como em 242 AC os peregrini (estrangeiros) eram muitos, ao praetor urbanus (pretor da urbe) foi acrescentado um praetor peregrinus (pretor dos estrangeiros). Este número foi aumentado com as conquistas de Sicília, Cerdanha, Espanha, etc., de modo que o número dos praetores peregrini no século I AC era de oito. Dentre eles, dois exerciam autoridade sobre matéria civil e os outros seis para casos particulares como extorsão, suborno, desfalques, traição, assalto, assassinato e falsificação. Após um ano de serviço, eles se tornavam governadores provinciais. Foi o caso de Pilatos? Ao ser nomeado praetor, o magistrado publicava um edito que seria sua norma de serviço ou conduta. Estes editos serviam para a adaptação da lei romana às novas condições e princípios de convivência entre os diversos povos do Império. Nos últimos anos do mesmo só o praetor urbanus permaneceu, com o único poder de organizar os jogos públicos. Como vemos, Roma foi declarada com toda razão como o império da lei, baseado na justiça, mesmo que esta justiça fosse só a instrumentalizada pelos agentes puramente legais. Na Judeia, o hegemones [governador] romano recebeu o nome de praetor até o ano 42 e desde esse ano seu título era procurator [que toma cuidado de]. Geralmente os ricos romanos tinham procuradores que sempre eram homens livres. Quando Augusto organizou o império, no início de nossa era, usou de procuradores para administrar seus grandes domínios tanto privados como públicos. Nas províncias, diretamente sob seus domínios, Augusto não podia empregar questores [da classe senatorial com menos de 32 anos e encarregados de cobrar os impostos] porque nenhum senador se prestaria a servir sob alguém que praticamente era seu igual. Assim nomeou procuradores como responsáveis pelas taxas. Os procuradores que serviam nas províncias senatoriais receberam poderes judiciais, coisa que se converteu em lei com Cláudio em 53. Nesse reinado, os procuradores se transformaram em governadores com poder total, como aconteceu na Judeia totalmente anexada no ano 41 quando o procurador era o governador unicamente responsável ao imperador. Desde o tempo de Tibério pertenciam aos equestres. Tácito chama Pôncio Pilatos de procurator, que de fato era um prefeito, como era o título do presidente do Egito, província do imperador.  Dentre os prefeitos, temos o praefectus civitatium, ou seja, o designado pelo governador de uma província para governar parte dela. O exemplo mais famoso é o prefeito da Judeia entre 26 e 36: Pôncio Pilatos. Voltando, porém, ao PRETÓRIO, este era, em tempos antigos, a tenda do comandante, como chefe de um acampamento romano. Depois passou a designar o palácio do governador de uma província. Esses palácios foram em muitos casos edificados pelos antigos reis ou príncipes das mesmas. No casso de Pilatos, o pretório ocupava o palácio de Herodes, o Grande, em Cesareia. Mas quando se trasladava durante as festas a Jerusalém, ocupava o palácio de Herodes (ano 23 AC) perto da colina ocidental, atualmente perto da porta de Jafa. Também poderia ser a torre Antônia (ano 35 AC), bastião asmoneu que o mesmo rei utilizou como castelo e como palácio durante 12 anos. Estava situada na colina oriental, encostado ao norte do recinto do templo, sendo ao mesmo tempo quartel da coorte. Umas escavações mostraram um pátio de lousas que corresponde ao lithóstrotos [literalmente pavimento de pedras] de Jo 19, 13. Desde o século XII os cruzados viram, nesta torre, o palácio onde Jesus foi julgado por Pilatos e a tradição chegou assim aos nossos dias. OS EQUESTRES: Os membros da ordem equestre (equites), pertencentes a uma categoria de cidadãos romanos que, por suas riquezas, estava em inferioridade à dos senadores (optimates) e superior à dos plebeus (populares). Entre os habitantes de Roma de categoria inferior aos últimos, plebeus sem patrimônio, podemos contar os estrangeiros livres, mas sem cidadania (peregrini), os libertos e os escravos. Na antiga Roma os equestres eram da classe senatorial e eram chamados equites equo publico [cavaleiros de cavalo público] porque as montarias eram pagas com erário público. Mas desde o século IV AC os que não eram senadores foram enrolados na cavalaria de tal modo que tinham de pagar suas montarias e eram chamados de equites equo privato [cavaleiros de cavalo particular]. Como no século I a cavalaria era formada por estrangeiros, os equestres foram empregados em postos de responsabilidade: no exército, como oficiais; e, na vida civil, como publicanos ou administradores dos impostos, das minas, pedreiras e propriedades do Estado. Assim formaram uma classe especial, diferente dos optimates e dos populares. Augusto (+14) organizou a ordem equestre como uma classe militar, removendo-a assim da arena política. As qualificações para ser membro da mesma eram: nascimento livre, riquezas, boa saúde e boa conduta. Na carreira equestre era obrigatório ocupar um número de postos subordinados antes de alcançar os mais desejados, sempre sob a dependência da designação do imperador. Na vida civil os equestres tinham opção a cargos elevados como funcionários civis, especialmente na administração das províncias. Os equestres tinham também cargos militares no Egito e nas províncias de classe inferior, como era o caso de Pilatos. O TRIBUNAL:  O espaço do foro romano para os debates públicos e tribunal de causas, estava formado em forma de proa de um barco. Era o rostrum, a plataforma da qual se serviam os oradores  e advogados para falar em público. Na realidade, rostrum era a proa em forma de esporão dos barcos de guerra, que terminava em aríete ou carneiro. Seu plural, rostra é o nome da plataforma no Forum romano, da qual os oradores se dirigiam ao povo; e desta plataforma muitos e famosos oradores da história romana pronunciaram seus discursos. Inicialmente foi construída uma plataforma [suggestum, tribuna, ou púlpito] formando parte do Comitium [área na frente da Cúria onde os oradores examinavam as causas e o povo se reunia para as curiatas reuniões das 36 partes em que se dividia Roma]. Tipicamente essa plataforma era chamada tribunal, mas depois da vitória de Duílio em Milae [perto da Sicília] em 260 aC sobre os cartagineses, seis proas de bronze de barcos inimigos foram colocadas na fronte do tribunal. Como rostra é o nome plural de proa com esse nome foi conhecido o tribunal ao fundo do Forum. Esse estrado era a tribuna, cópia da Bema grega, a plataforma do tribunal de justiça. CADEIRA CURUL: Em latim era a sella curulis [sella é assento, (silla em espanhol) e curulis de carro, o carro triunfal]. Era a cadeira dobrável que os magistrados levavam no carro para assentar-se quando se apresentavam em público. Somente três cargos tinham o direito à cadeira curul: os cônsules, os tribunos e os pretores, que também tinham o jus imaginum [direito a ter estátuas], que entre os gregos só tinham os vencedores dos 100 m olímpicos e os mortos por um raio [o instrumento de Júpiter (Zeus)], pois se considerava escolhido pelo Deus supremo. Mais tarde se tornou o trono dos magistrados que possuíam o impérium, que além dos citados eram o magister equitum e o edil curul, junto com o flamen dialis [o pontífice máximo de Júpiter]. A cadeira curul estava construída ou forrada de marfim com patas curvadas formando um ampliado X. Não possuía respaldo e seus braços eram relativamente baixos. Júlio César assentava-se numa curul de ouro, como correspondia a um ditador vitalício. Podemos afirmar que a curul era o substitutivo do trono dos reis orientais. Os romanos, amantes do direito e de suas normas, jamais condenariam um réu sem os formalismos pertinentes: a curul, o rescrito e o título que devia pendurar do pescoço do condenado e da cruz em última instância. Não faltava  ao magistrado Pilatos a toga praetexta o amplo manto com bordas roxas próprio dos magistrados e sem o qual eles não podiam se apresentar em público ou realizar suas funções.  Como equivalente ao trono temos uma descrição de Paulo que alguns intérpretes ligam com o bema ou assento curul em  1 Cor  3, 12-15. É desta forma que Pilatos, o procurador, julgou Jesus, segundo Mt 27, 19 e Jo 19, 13, segundo vemos neste primeiro versículo. ÉS TU O REI DOS JUDEUS?: Aqui começa o interrogatório, sempre necessário, dando pé a uma defesa do acusado. Além desta acusação Pilatos tinha mais outras; algumas de ordem religiosa, pelas quais Jesus foi condenado segundo a lei dos judeus (Jo  18, 7) por se dizer filho de Deus. Lucas nos diz que também o acusaram de impedir que se pagassem os impostos ao César. E de sublevar o povo (Lc 23, 2 e 23, 5). Mas a acusação principal era de que Jesus se intitulava rei dos judeus (Mt 27, 11; Mc 15, 2 e 12; Lc 23, 2 e Jo 18, 33). De fato, a acusação só aparece na pergunta de Pilatos, pois vemos que João diz: se não fosse malfeitor, não O entregaríamos a ti. (Jo 18, 30). A palavra malfeitor kakopoios <2555> é traduzida por malefactor, com propriedade, pela Vulgata. Mateus fala de bandidos, lëstai <3027>[latrones latino], términos que vemos em Marcos. Lucas fala de  kakourgoi <2557> [latrones latino e malfeitores na B J].  Voltando às acusações, a principal e pela qual Jesus foi condenado é por dizer de si ser Cristo Rei (Lc 23, 2) Christon <5547> basilea <935> einai. Por isso, na tabuinha da cruz estava escrito rex iudeorum [rei dos judeus]. A pergunta de Pilatos reponde à acusação de lesa maiestas, da lex Iulia de maiestate. A qual afirma que é um crime próximo ao sacrilégio o que é chamado de majestade. E entre os artigos em que entra este cabeçalho está o de formar juntas ou reuniões ou convocar homens à sedição [quove coetus conventusve fiat hominesve ad seditionem convocentur ]. Esta era precisamente a acusação inicial dos membros do Sinédrio (Lc 23, 2) seguida pela de impedir os impostos a César.

RESPONDE JESUS: Respondeu-lhe Jesus: De ti dizes isto, ou outros te disseram sobre mim? (34). Et respondit Iesus a temet ipso hoc dicis an alii tibi dixerunt de me. Segundo os três sinóticos, a resposta de Jesus à pergunta de Pilatos de se era o rei dos judeus, é um simples tu (o) dizes, que  deve ser entendido em sentido afirmativo, a respeito de ser Ele, Jesus, o rei dos judeus. Porém em João, Jesus responde com uma pergunta e essa pergunta de Pilatos. É uma clara advertência ao juiz que tinha na sua frente: Se ele –Pilatos- tinha chegado a essa conclusão na base de suas informações, políticas e policiais próprias; neste caso, o acusado aceitava o julgamento correspondente, pois implicava numa certeza objetiva.  Mas, se Pilatos aceitava as acusações de outros –o Sinédrio, composto por inimigos- Pilatos devia pensar que a verdade estava camuflada e pervertida por interesses ocultos e partidários.

 RESPOSTA DO JUIZ: Respondeu Pilatos: Por acaso sou eu judeu? A nação, a tua e os chefes sacerdotais te entregaram a mim. Que fizeste? (35). Respondit Pilatus numquid ego Iudaeus sum gens tua et pontifices tradiderunt te mihi quid fecisti. Pilatos responde que ele não tinha procurado Jesus, porque não era judeu para se imiscuir em problemas de crenças que não lhe interessavam. Mas se o povo e os principais dirigentes acusavam Jesus, não podia ser totalmente gratuita essa imputação. Devia existir uma causa e, portanto, pergunta: que fizeste? Ou o mesmo que dizer de que te acusam e por que te imputam.

  JESUS SE DEFENDE: Respondeu Jesus: O Reino, o meu, não é deste mundo; se deste mundo fosse o Reino, o meu, os subalternos meus não teriam lutado para que não fosse entregue aos judeus? Agora, portanto, o Reino, o meu, não é daqui (36). Respondit Iesus regnum meum non est de mundo hoc si ex hoc mundo esset regnum meum ministri mei decertarent ut non traderer Iudaeis nunc autem meum regnum non est hinc. Com essa resposta, Jesus se defende e afirma estas três coisas: 1º) Que Ele é rei, pois três vezes declara que tem um reino próprio. 2º) Que esse reino não é como os reinos geográficos, territoriais, em que o poder impera sobre os súditos de modo que estes estão a serviço do rei para defendê-lo. 3º) Que se essa luta não se deu, é que seu reino não vai contra ninguém, nem pretende dominar;  e, portanto, Pilatos não deve se preocupar com a realeza de seu imputado. Vejamos em que consiste, pois, o reinado melhor do que o reino de Jesus, o Cristo. O REINO: O tema do reino é essencial nos sinópticos. Constitui a base para uma maioria de parábolas que se iniciam com o reino de Deus é semelhante, como em Mt 13, 20 na parábola do joio ou da mostarda (Mt 13, 24-34). As palavras de Jesus são um anúncio desse reino como são as do anúncio dos apóstolos (Mt 10, 7). A vinda do Reino forma parte de nossa oração diária (Mt 6, 10) e das ambições dos discípulos (Mt 18, 1). Para entrar nele é preciso nascer de novo (Jo 3, 3). É um reino basicamente presente na atuação da pessoa de Jesus (Mt 12, 28) com a Igreja, como fundamental mediadora em relação a Deus (Mt 16, 29). O reino exige uma santidade especial (Mt 5,20) e tem uma dimensão transcendente a consumar-se na perfeição, unicamente no além (Mt 25, 34 e Lc 2, 16). Por isso dirá Jesus que meu reino não é deste mundo: nem pela sua origem, nem pela sua constituição. A origem dos reinos deste mundo era, segundo Daniel, maléfica (bestas nascidas do abismo em 7, 3). Porém o quinto reino, tinha uma origem celestial, divina, pois estava representado por um Filho de Homem descendo das nuvens do céu (Dn 7, 13+), nuvens sobre as quais se assentava o próprio Deus. A principal diferença com os reinos comuns da terra consiste em que os súditos são servidos e as autoridades são servidores ou diáconos (Mt 20, 25-26). Pilatos mal podia adivinhar que aquele homem na sua frente ia morrer para que todos os que nele cressem tivessem vida, o que constituía o melhor ato de amor para os que seriam, não seus servos, mas seus amigos (Jo 15, 13 e 15).

DIÁLOGO FINAL: Por isso lhe disse Pilatos: logo tu és rei? Respondeu Jesus: tu dizes; porque Eu sou rei. Eu para isso tenho nascido e para isso tenho vindo ao mundo: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve minha voz (37). Dixit itaque ei Pilatus ergo rex es tu respondit Iesus tu dicis quia rex sum ego ego in hoc natus sum et ad hoc veni in mundum ut testimonium perhibeam veritati omnis qui est ex veritate audit meam vocem. O TESTEMUNHO: Em que sentido Jesus é o rei do seu novo e singular reino? Ele é o mártir que serve de testemunha a uma verdade absoluta e total, a ALETHEIA divina. Por isso é descrito como a luz divina que ilumina todo homem (Jo 1, 9), como o olho ilumina a quem não quer ficar cego (Jo 9, 39). João, o Batista, também foi uma testemunha que veio dar testemunho da luz, embora ele não fosse essa luz (Jo 1, 8). Jesus era a luz para que os cegos até então (Jo 9, 39) recobrassem a faculdade de caminhar sem tropeçar (Jo 8, 12 e 12, 35) e recebessem o poder de se tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12). Jesus, em si mesmo, é a lente com a qual o Pai olha os homens e o espelho em que os homens devem se olhar para encontrar a verdade de suas vidas e com a verdade o caminho e viver como vidas verdadeiras (Jo 14, 6). Como verdade última convém recordar especialmente a boa nova que ele revela a Nicodemos: “Tanto amou Deus o mundo que entregou seu Filho único a fim de que todo aquele que crer tenha nele a vida eterna” (3, 16). É para demonstrar esse amor de Deus que o Verbo, como canta Paulo, rebaixou-se a si mesmo (como se fosse um escravo) e (assim rebaixado) foi obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2,8). Pilatos ia ser o instrumento legal de semelhante morte testemunhal. A VERDADE BÍBLICA: ALETHEIA. A verdade na bíblia é sinônimo de fidelidade (Dt 32, 4). O EMET hebraico com que é designada, provém de uma raiz que significa inspirar confiança, aplicada sobretudo a Deus, indicando fidelidade às suas promessas por parte de Jahveh. Unida a HESED, indica que junto com a ternura determina as qualidades divinas com as quais Jahveh cuida da vida dos seus adoradores (Êx 34, 6+). No Novo Testamento ALETHEIA (verdade em grego) significa também reta conduta por parte do homem, o qual é sinônimo de justiça. Paulo fala de chegar ao conhecimento da verdade, ou seja, da palavra de Deus como evangelho, não como filosofia humana, frente às fábulas dos doutores que são pregadores de mentiras (I Tm 2, 4). Devemos, portanto, rejeitar as fábulas profanas (I Tm 4, 7) tanto quanto as judaicas (Tt 1, 7), indicando com isso a facilidade com que o homem erra ao querer ser dono da verdade. Para ele a Igreja é coluna da verdade (I Tm 3, 15) que em definitivo, não é outra senão sua mensagem sobre Cristo morto e ressuscitado e, portanto, tem a Cristo como verdade salvífica. Em João, a verdade procede do Pai como palavra que Cristo veio proclamar (8, 40). Se a lei chegou por Moisés, a verdade apareceu em Jesus, pois o revelador é o revelado revestido com a gratuidade do amor que o Pai nos tem (amor e verdade de que o Filho é revestido em 1, 14). Jesus promete enviar o Espírito da verdade para que seus discípulos sempre compreendam plenamente suas palavras (Jo 14, 17 e 26) como memória exata do evangelho por ele ensinado. O discípulo deve andar sempre na verdade, isto é, se deixar guiar pela verdade de Cristo. Seguramente Pilatos não era daqueles que buscavam a verdade, porque sua resposta foi uma interrogação completamente incrédula: que coisa é a verdade?

PISTAS: 1) O ano litúrgico termina com o anúncio de uma nova escatologia: Jerusalém, a cidade santa, o templo, lugar de residência de Jahveh com seu povo, não mais são necessários. Serão destruídos como inúteis; mais, como contrários aos desígnios divinos. O profeta que o anunciou é Jesus que chora sobre esse duplo sino decretado pelo Pai, que ao mesmo tempo constitui sua dor e seu triunfo como Filho do Homem, isto é, como Senhor do novo Reino, o definitivo. As qualidades deste reino tão pessoal que não o distinguem da pessoa que o representa, estão definidas no evangelho de hoje. A forma de representá-lo é também um juízo: O poder mais importante na época, representado por Pilatos com o imperium interroga o poder futuro, representado na pessoa de Jesus. Este declara ser verdadeiro rei de um reino completamente diferente ao conhecido até então no mundo. Esse reino tem como base e fundamento a verdade, não o lucro ou a conveniência, ou o bem-estar; é por essa verdade que ele, suprema autoridade do mesmo, sofrerá a morte, padecendo-a como mártir da mesma.

2) A escatologia evangélica não é a última em termos absolutos, mas é um fim relativo: significa a ruptura da aliança mosaica, da qual estavam excluídos os povos gentílicos, ao mesmo tempo que era uma verdadeira escravidão para os judeus com suas leis rituais e de pureza (Gl 5, 1). Cristo nos liberou dessa escravidão e iniciou uma nova Aliança com Deus, o Pai, em que a fidelidade divina se transforma em ternura para aqueles que ama como filhos e não como escravos (Gl 4, 7).

3) Geralmente no 1o Domingo do Advento a Igreja manifesta a vinda definitiva do Senhor Jesus como juiz de vivos e mortos. Vivemos tempos que, segundo Teresa de Ávila, podem ser definidos como “recios” (fortes) em que o destino do homem individual e coletivo não entra como projeto de vida. O importante é o presente, porque a vida é breve, e como tal queremos aproveitá-la ao máximo. Falta a vigilância, produto de que não somos donos de nossa existência e devemos dar conta, como servos, do que fizemos quando o Senhor estava ausente. Sua presença é para pedir contas da administração dos bens recebidos em encomenda. Quid hoc ad aeternitatem [que implicação tem isto com a eternidade] era a pergunta que transformou a vida de Francisco Xavier e será também o motivo de nossa metamorfose.

4) Que significa o Reino para nós? Porque muitos dizem que esta festa está fora de lugar.  Caso pensemos num reino tipo histórico, sem dúvida; mas o reino de Cristo é diferente. Regis ad exemplum totus componitur orbis [ao exemplo do rei todo o orbe é ordenado] e o exemplo de Jesus, o nosso rei, é um exemplo de serviço, de diaconia. Ele escolheu a cruz e com ela a humilhação para salvar o que estava perdido. Não existe outra moeda com a qual possamos salvar este mundo, aparentemente tão injusto e tão inumano.