Epístola (Cl 3,  1-5. 9,1-11)

(Pe. Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Parênese de Paulo baseado na analogia da vida, cristã com a de Cristo: mortos à vida carnal e seus desejos, vivamos já a futura vida essa que está esperando-nos no mais alto dos céus, da qual a ressurreição de Cristo é penhor e testemunho.

RESSURGIDOS: Se, portanto, tendes ressurgido com Cristo, buscai as coisas do alto onde o Cristo está sentado na direita de (o) Deus (1). Igitur si conresurrexistis Christo quae sursum sunt quaerite ubi Christus est in dextera Dei sedens. TENDES RESSURGIDO do verbo [synegeirö<4891>=conresurgere] a tradução direita é erguer-se junto com. Logicamente Paulo refere-se à ressurreição de Cristo da qual toma como imagem o batismo que a ele nos conforma na morte e na ressurreição, pois após o mesmo, temos em nós uma nova vida conforme a da vida de Jesus atualmente à direita do Pai. Este é o ensino do versículo atual. Se, pois, temos uma vida nova é lógico que busquemos as coisas pertencentes a essa vida nova onde Cristo está como supremo poder delegado do Pai. SENTADO: a palavra lembra o trono próprio dos reis e poderosos governadores do mundo, como o faraó que diz a José: por tua palavra governar-se-á todo meu povo: somente no trono serei eu maior do que tu (Gn 41, 10). O Trono era o assento era disposto em plataformas graduadas e dossel, usado pelos monarcas e outras dignidades, especialmente em atos de cerimônia. Assim falou Betsabeia a Davi pedindo o trono para seu filho Salomão (1Rs 1, 17). Sentar-se no trono era, pois, sinal de realeza, como bem distingue o Faraó ao falar a seu primeiro ministro José, como temos citado anteriormente.  O céu era o trono de Deus (Mt 5, 34). No plural era a terceira classe de anjos que formam o coro celestial. DIREITA [dexia<1188>=dextera] na realidade o lado bom do corpo, onde a força e o poder se demonstrava; e, no caso do trono, a dignidade do herdeiro tinha a primazia como no caso do primogênito do faraó:morrerá todo primogênito, desde o primogênito do faraó que se assenta no seu trono (Êx 11, 5). Como primogênito de toda criatura (Cl 1, 15) foi introduzido na terra dizendo Deus o Pai: adorem-no todos os anjos (Hb 1, 6). É precisamente o objetivo do trono: a veneração ou acatamento dos súditos. O caso de cristo é como vemos no texto aos hebreus adoração. É lógico que a linguagem empregada é analógica e metafórica, usando imagens para descrever realidades que não têm materialidade nem podem ser vistas como tais. O sentido real do versículo é que todo batizado está identificado com Cristo tendo no corpo como um amálgama e logicamente deve viver uma vida nova em que as coisas do alto têm a primazia sobre as terrenais.

AS COISAS DO ALTO: As do alto prestai atenção, não as sobre a terra (2). Quae sursum sunt sapite non quae supra terram. DO ALTO [ta anö<507>=quae sursum] o grego anö significa acima, nas alturas, como advérbio de lugar e anterior, como advérbio de tempo. Paulo invita aqui aos colossenses a pôr seu olhar no alto e não nas coisas terrenas de telhas para baixo como vulgarmente se diz, pois estas últimas além de serem temporárias, são insuficientes e aquelas são eternas e totalmente satisfatórias. Mas, com Cristo estamos mortos a esta vida e a glória, suprema ambição de um heleno está nesta vida terrena, fora do alcance de um cristão.

A MORTE COM CRISTO: Morrestes, pois, e vossa vida está escondida com Cristo em (o) Deus (3). mortui enim estis et vita vestra abscondita est cum Christo in Deo. Mais uma vez Paulo traz à tona a morte de todo cristão no momento do batismo (Cl 2, 12 e Ef 2, 16). Morto às leis mosaicas e especialmente à da circuncisão; morto às concupiscências da carne e dos olhos e a soberba da vida das quais fala João em 1, 2, 16.  A nova vida está escondida com Cristo que disse: aprendei de mim que sou manso e humilde de coração [de pensamento] e encontrareis descanso para vossas almas (Mt 11, 29). De um mestre que foge de ser aclamado rei  (Jo 6, 15) e que impede aos seus discípulos falar sobre seu messiado  (Mt 16, 20)e que impõe silêncio sobre sua transfiguração (Mt 17, 9). De um Deus que ocultou sua glória, assumindo a condição de escravo, esvaziando-se de sua glória (Fp 2, 7)  nascendo como um pobre mortal e vivendo como um simples artesão sem ter título ou reputação alguma (Mc 6, 3), de modo que seus conterrâneos se admiravam de sua sabedoria  (Mt 13, 54). De um mestre que ensinava que a mão esquerda não soubesse o que fazia a direta ao fazer o bem da esmola (Mt 11, 25), que ao orar não buscassem praças públicas, mas o secreto do quarto fechado (Mt 6, 6). Finalmente que dava graças por ver escondidas as coisas do reino aos sábios e entendidos e reveladas aos pequeninos (Mt 11, 25).

MANIFESTAÇÃO DA GLÓRIA: Quando o Cristo se manifestar, vossa vida, então também vós junto com ele vos manifestareis em glória (4). Cum Christus apparuerit vita vestra tunc et vos apparebitis cum ipso in gloria. Até agora Cristo é um desconhecido, especialmente para as autoridades e sábios do mundo (Mt 11, 25). E com ele a vida dos seus seguidores, cópia da vida do Mestre (Mt 10, 24) estará oculta aos favores e honras o mundo; porém o dia da manifestação da glória do Senhor, eles terão sua manifestação, igualmente prometida aos doze de modo especial, pois assentar-se-ão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt 19, 28). Mas também os simples fiéis são convidados ao triunfo final, pois como vencedores, levantarão as cabeças quando a redenção ou libertação estiver perto (Lc 21, 28), ao contrário dos vencidos que terão que se jogar no chão. Sem dúvida, que esta conformidade com Cristo vitorioso está presente na mente de Paulo neste versículo.

MORTE AOS DESEOS CARNAIS: Matai, pois, vossos membros os terrenos: fornicação, impureza, paixão, lascívia, e a avareza que é idolatria (5). Mortificate ergo membra vestra quae sunt super terram forniccis ationem inmunditiam libidinem concupiscentiam malam et avaritiam quae est simulacrorum servitus. Agora vêm consequências dessa premissa de viver com Cristo, cuja primeira conclusão é aspirar às coisas do alto. Começa Paulo com as coisas às quais devemos estar mortos. Devemos  matar ou considerar como mortos os nossos membros com suas aspirações que são perecíveis como todo o terreno: FORNICAÇÃO [porneia<4202>=inmunditia] em grego é todo ato de relação sexual cometido com uma mulher que não seja a própria e legítima esposa. Um illicit sexual inertcorse como dizem os de língua inglesa. Se distingue do adultério propriamente dito que tem uma palavra própria Moichea [<3430>= adulterium] reservando-se a porneia para a prostituição, pois a meretriz era a pornë [<4204>=meretrix] derivada do verbo pernëmi [= vender] sem saída no NT e sem número de Sprong. A mulher do prostíbulo era denominada de Quastuosa. Junto a estas existiam as sacerdotisas de diferentes templos como as bacantes, um dos templos sendo o dedicado a Ísis, deusa egípcia. Meretrizes eram as mulheres solteiras que exerciam a prostituição como amateurs e em cujo caso não tinha necessariamente que haver dinheiro no meio. Temos o caso de Messalina, imperatriz romana que ingressava periodicamente no templo/prostíbulo sob o pseudônimo de Licisca. Metaforicamente é o culto aos ídolos como foi o caso de Roma, a grande Babilônia, que de a beber a todas as nações do vinho da fúria de sua prostituição (Ap 14,8) ou a prática e comer carnes sacrificadas aos ídolos como o caso de Jezabel que seduzia os cristãos a praticarem a prostituição e comerem coisas sacrificadas aos ídolos (Ap 2, 20). No caso, não estamos numa fala metafórica e a palavra tem o significado real de união ilícita com uma mulher. Dois são os casos em que a palavra porneia tem sido a cruz dos intérpretes: 1) Mt 19, 9: quem repudiar sua mulher, se não por causa de porneia [ei më epi porneia] e casar com outra, comete adultério. 2)Atos 15, 29: Pareceu bem…que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, bem como de sangue, de carne, de animais sufocados e da porneia [kai porneias]. Que significa porneia em ambos os casos? Evidentemente que não podemos confundir com moichea [adultério]. Que é uma relação não lícita entre um homem e uma mulher. Que no caso de Mateus essa relação é inicialmente proveniente do homem, que a repudia. Que evidentemente não é um matrimônio válido. Portanto, teremos que ver entre os ritos ou costumes judaicos que classe de matrimônios eram considerados inválidos ou ilícitos. A tradução da RA de porneia de relação ilícita. A TEB fala de união ilegal e a católica de concubinato. A CEI traduz também como concubinato. Mais literal, Colunga fala de fornicação.Na nota explicaremos melhor o significado de porneia pelo que diz respeito ao matrimônio. [akatharsia <167>=inmumditia] propriamente não limpo ou sujeira que no plano moral será luxúria, lascívia ou concupiscência, como em Rm 6, 19: assim como oferecestes os vossos membros para a escravidão da impureza que não a legal, mas a substancial da vida dissoluta. PAIXÃO [pathos <3806>=libido] um sentimento que atinge a mente, emoção ou paixão que no NT sempre é uma depravação ou vileza, um desejo ruim. Distingue-se de epithimia porque este é um desejo ativo e o pathos é um sentimento passivo constituindo ambos um vício ou uma desordem interna, como diz Apóstolo Paulo em Rm 1, 26: entregou Deus a paixões infames porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro contrário à natureza. LASCÍVIA [epithimia <1939>=concupiscentia] Já temos visto a diferença com pathos. Um desejo que no NT quase sempre é por coisas proibidas, Em Marcos 4, 19 o evangelista fala da ambição das riquezas e os demais desejos que em Lc 22, 15, em palavras de Jesus, se traduzem em epithimia epithimasen [=com desejo tenho desejado] comer esta páscoa convosco. Mas neste versículo esse desejo está determinado pelo adjetivo Kakos [<2556>=malus] que o transforma em desejo maligno, que é lascívia. AVAREZA [pleonexia<4124>=avaritia] cobiça ou avareza que também tem um sinônimo como filargyria< 5365>=cupiditas [literalmente amor à prata] que aqui Paulo diz ser uma idolatria em 1 Tm 6, 10 declara ser a raiz de todo mal.

A MENTIRA: Não mintais uns aos outros, despidos do velho homem com suas práticas (9). Nolite mentiri invicem expoliantes vos veterem hominem cum actibus eius. Paulo retoma sua alegoria do velho e novo homem, separados pelo batismo. Além dos vícios do primeiro com respeito à carne, temos o pior que atinge o espírito: a mentira que se torna hipocrisia e dobrez quando do exercício da religião. Se alguma coisa Jesus combateu foi a hipocrisia da elite religiosa de seu tempo: Ai de vós escribas e fariseus hipócritas foi a maldição que encabeçava as sete diatribes contra os mesmos de Mt 23,13 até 23-29. A hipocrisia é um pecado duplo: uma mentira e uma simulação, que indica falsidade e disfarce para a própria exaltação de virtudes inexistentes ou dissimulação dos defeitos reais.  As práticas que saem do interior, assim deformado pela mentira, são as que sujam o homem e impedem ver a verdade que todos pretendemos como caminho real de nossas vidas.

IMAGEM DO CRIADOR: E revestidos do novo, o renovado em pleno conhecimento, segundo imagem de quem o criou (10). et induentes novum eum qui renovatur in agnitionem secundum imaginem eius qui creavit eum. O cristão é um novo homem que tem conhecido o verdadeiro Senhor que o criou. Fala-se muito de um Deus-Amor, mas também devemos anunciar um Deus-verdade, que ama o pecador, este arrependido, mas que não deixa sem castigo o pecado cometido. Pois é também um Deus que fala do dia da ira e do justo juízo que retribuirá a cada um, segundo o seu procedimento (Rm 2, 5-6). Ira e indignação aos que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça (Rm 2, 8).

SEM DISTINÇÃO DE PESSOAS: Onde não há heleno e judeu, circuncisão e prepúcio, bárbaro, e cita, escravo, livre, mas todas as coisas e em tudo Cristo (11). Ubi non est gentilis et Iudaeus circumcisio et praeputium barbarus et Scytha servus et liber sed omnia et in omnibus Christus. Paulo termina com uma conclusão muito cara a ele por ser o apóstolo dos gentios: entre judeus e gentios não existe distinção. Paulo enumera uma série de distensões que separavam os homens de seu tempo entre felizardos e amaldiçoados, entre eleitos e rejeitados. Vamos explicar alguns dos termos hoje menos compreensíveis. BÁRBARO [barbaros<915>=barbarus] era aquele que falava e se comportava rudimente; também que tinha como língua uma não compreendida pelo grego falado. Os gregos, especialmente após a guerra contra os persas, de uma pessoa ignorante do grego e que se distinguia por sua conduta incivilizada. CÍTIA [skytës<4658>=Scytha] A Cítia era o sul da Rússia moderna. Os seus habitantes eram vistos como os mais incivilizados entre os considerados bárbaros pelos gregos. Uma outra divisão que a fé cristã tem anulado é a existente entre escravos e livres. A igualdade será o desideratum do novo mundo que tem como base Cristo em tudo. Será sua cruz a insígnia da vitória final e o símbolo que avaliza o perdão e magnifica o amor.

NOTA: a PORNEIA grega merece uma aclaração nos dos textos anteriormente citados no comentário do versículo 5. PRIMEIRO GRUPO DE TEXTOS: Mas vejamos os dois textos de difícil interpretação. Mt 5,31 e 19, 9. Ambos respondem aos costumes da época, que Jesus repudia: No 1° (Mt 5,31-32) Jesus se põe contrário ao que “foi dito: Qualquer que repudia sua mulher dê-lhe libelo de repúdio”. Precisamente esse libelo garantia que a mulher estava disponível e, portanto, não cometia adultério ao casar de novo; e assim o novo marido não estava sujeito à impureza (Lv 18,20). A questão era qual era a causa suficiente para dar o libelo [guet] de modo que o primeiro marido não fosse causa de fazer com que a mulher adulterasse. Aqui, como no segundo texto, aparece a palavra porneia, que logo explicamos. O texto grego diz “parektós lógou porneías”. O logou porneia, comparado com o hebraico de Dt 24,1 parece uma tradução literal. Podemos traduzir o parektós como “exceto no caso de”. Logos é palavra, razão, mandato; portanto a tradução seria: fora do caso de uma conduta sexualmente perversa. Nesse caso, o esposo poderia dar o libelo de divórcio. Esta é a interpretação que Jesus dá ao texto de Dt 24, 1. Desse texto se serviam os escribas e fariseus para conceder o divórcio. O motivo para tal divórcio legal foi, pois, explicado por Jesus como tendo unicamente uma razão de conduta sexual imprópria por parte da mulher.  No 2°texto (Mt 19,3-9) temos no grego as mesmas razões, sendo que parektós logou porneias, é substituído por “me epi porneia” (não sobre (a) fornicação). Ambos os textos querem dizer: quando se despede uma mulher que se comportou ou era na realidade  prostituta, não se comete adultério ao dar o libelo de repúdio. As traduções modernas de porneia em ambos os casos (Mt 5 e 19) segundo as diversas bíblias são: concubinato (E), impudícia (I), concubinato (CEI), fornicatio (Vul), fornicação (Jerus), relações sexuais ilícitas (RA). e fornication (J K).

INTERPRETAÇÃO: Era costume entre os orientais o matrimônio entre parentes que era considerado matrimônio de porneia. O texto base que servia de referência  é o texto Massorético de Dt 24, 1. Ele emprega as palavras “tserwath dabar”que podem ser traduzidas literalmente por “palavra de nudez”. O texto dos setenta traduz por “áskhemon pragma” que poderíamos traduzir por conduta indecorosa. As diversas traduções das bíblias modernas são: Propter aliquam foeditatem da Vulgata, (alguma coisa torpe), algo indecente (E), qualcose di sconveniente (I), qualche coisa di vergonhoso (CEI), coisa indecente (RA), algo inconveniente (Jerus), alguma coisa indecente (Lei, do Rabino Meir) e finalmente some uncleannes in her (J. K). Vejamos as interpretações: O termo hebraico  zenuth é traduzido ao grego por porneía e por fornicatio ao latim. Existiam os matrimônios chamados de fornicação (matrimônios zenuth) É o caso dos matrimônios assim chamados porque eram considerados inválidos segundo a lei e as uniões eram como as que se mantinham com uma prostituta.  Por isso eram chamados de matrimônios de fornicação. Alguns deles eram nulos pela lei natural, como o efetuado entre irmãos. Eram, pois, verdadeiros concubinatos, ou incestos nalguns dos casos. Dos três casos de Zenuth admitidos pelos legistas, somente o zenuth por erro ou inadvertência é o que admite a anulação. O shem zenuth ,ou zenuth por malícia, e o derek zenuth ou por via de fornicação, eram inválidos em raiz. Os rabinos chamavam-nos derek zenuth ou caminho de fornicação pelo modo incorreto de realizar-se. Parece que esta é a solução mais correta. Poderia haver alguns casos em que o repúdio era lícito segundo a antiga lei?

RESPOSTA: Que coisa transforma uma mulher casada em prostituta, e o matrimônio pode ser chamado de Zenuth, para poder assim repudiá-la? 1° Não querer ter filhos. É o caso de Onan (Gn 38,1-11), mas do ponto de vista feminino. A conduta dessa mulher é como a das prostitutas. De fato, atualmente na lei canônica essa determinação invalida o matrimônio.2° Vemos um outro caso em que um homem correto e cumpridor da lei (justo) está resolvido a dar libelo de repúdio a sua esposada: é o caso de José quando descobre que Maria está grávida. Não pode provar o adultério, mas sabe perfeitamente que ele não é o pai da criatura e que, segundo a lei, seria um ato de impureza contínua seguir com sua prometida esposa. ( ver Lv 18,20). 3° Uma terceira causa seria ter uma outra mulher como concubina ou amante. Possivelmente, admitida a poligamia, essa união era legal; mas diante da restituição da origem do matrimônio de Jesus, outras esposas eram simplesmente prostitutas. Cremos que esta é a resposta mais apropriada aos textos do escriba que redatou o evangelho de Mateus. Era o caso de uma união com uma segunda mulher, que constitui um matrimönio Zanuth ou de Porneia.

SEGUNDO GRUPO DE TEXTOS: Atos 15, 29: Pareceu bem…que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, bem como de sangue, de carne, de animais sufocados e da porneia [kai porneias]. São as proibições da chamada lei de Noé. Além disso temos a proibição da porneia. Pelo que temos visto anteriormente, a porneia está ligada a uma relação ilícita com uma mulher. Cremos que nem a prostituição sagrada com mulheres sacerdotisas, nem as relações com mulheres que os romanos chamavam de quastuosas, entram dentro desta proibição, por serem óbvias demais. Não era necessária essa proibição. Fica assim o caso de poligamia que a nova lei cristã de um com uma, proibia. Que não tivessem duas mulheres, ou mais, como era frequente no Oriente, entre os que contavam com meios suficientes. Ou seja, proibiam-se as concubinas.

Evangelho (Lc 12, 13-21)

A COBIÇA

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: No grande parêntese da viagem para Jerusalém, Lucas aproveita a ocasião para agrupar diversos ensinamentos de Jesus, à maneira como Mateus fez no sermão da montanha. No trecho de hoje temos uma lição do ponto de vista evangélico, isto é, de Jesus mesmo, sobre a cobiça com respeito às riquezas. Temos dois exemplos: o caso de uma herança e a pequena parábola do rico agricultor. Os dois trechos não têm paralelos nos outros dois sinóticos.

MESTRE: Disse-lhe, então, um da multidão: Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança (13). Ait autem quidam ei de turba magister dic fratri meo ut dividat mecum hereditatem. Um (ouvinte) dentre o povo, lhe disse: Mestre! Esta era a palavra  que estava em uso na época para designar os juristas, hoje diríamos advogados, porque a Torá era a única lei que admitia o direito civil judaico. O caso apresentado pelo demandante era clássico: Uma herança em que o irmão maior tinha direito a dois terços ou uma porção dupla da que era repartida entre os outros irmãos. O caso estava declarado em Dt 21, 17. Reconhecerá como primogênito o filho da mulher da qual ele não gosta, dando-lhe porção dupla de tudo quanto possuir, pois ele é a primazia de sua virilidade e o direito de primogenitura lhe pertence. Aparentemente este era o caso; e o primogênito não queria dividir com o outro irmão a herança paterna.  A questão da herança não era uma coisa trivial. Temos em Nm 27, 1-11 o caso de herdeiros que não sendo do sexo masculino, é resolvido com todo detalhe. A questão, pois, parecia de importância.

HOMEM: Ele, pois, lhe disse: homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós?(14). At ille dixit ei homo quis me constituit iudicem aut divisorem super vos. Lucas usa a mesma palavra em 5,20 e 22,58. É uma palavra que indica distanciamento, como de alguém com quem não queremos amizade, ou não temos as mesmas ideias e que fere, em certo sentido, nossos sentimentos. É também uma expressão de surpresa que nos coloca num plano defensivo. JUIZ: Na realidade, o que pedia o demandante era que Jesus se constituísse em verdadeiro juiz de um caso contencioso, como se fosse um simples jurista, ou um repartidor entre os dois irmãos. Não era esse o verdadeiro ofício de Jesus que o subordinaria às riquezas como se estas fossem o leit motive de sua  obra salvífica. Eram os mestres rabínicos os que deviam resolver semelhantes casos. Daí a sua direta e intransigente rejeição. Em Êx 2, 14 os israelitas reclamam de Moisés quando este mata o egípcio para salvar o hebreu maltratado: Quem te constituiu nosso chefe e nosso juiz? Eram estas as palavras que Jesus usa em sua defesa para rejeitar o caso como um simples jurista.

AS RIQUEZAS VISTAS DESDE O EVANGELHO: Então lhes disse: vede e guardai-vos de toda avareza, porque não em qualquer abundância está a vida daquele que possui bens (15). Dixitque ad illos videte et cavete ab omni avaritia quia non in abundantia cuiusquam vita eius est ex his quae possidet. Sabemos que Lucas não é muito favorável às grandes fortunas. É mais fácil um camelo [máximo animal conhecido] entrar pelo olho de uma agulha [mínima abertura ou passagem] do que um rico entrar no reino de Deus (18, 25). O parágrafo se inicia com uma advertência séria: Vede! [ou cuidado!] Deveis estar em guarda de modo a evitar toda forma de cobiça ou ambição [pleonexias] de ser ricos. Pois a verdadeira vida não depende da abundância [periseuo] dos bens materiais [yparchonta]. Na realidade, Jesus usa em presente de infinitivo o verbo periseuö que significa exceder. A tradução seria: porque na realidade a vida de alguém não consiste em ter excesso de posses. É lógico que busquemos uma tradução mais literária para transmitir o verdadeiro pensamento de Jesus. Por isso podemos optar por: A vida não consiste em acumular riquezas. E na continuação Jesus explica o porquê desta afirmação que já Paulo descrevia como sendo a cobiça uma forma de idolatria (Cl 3,5).

A PARÁBOLA: Disse-lhes, pois uma parábola dizendo, de um homem rico, o campo produziu em abundância (16). Dixit autem similitudinem ad illos dicens hominis cuiusdam divitis uberes fructus ager adtulit. Segundo os comentaristas é uma explicação prática de 9, 25 : Que aproveita ao homem ganhar o mundo se vier a perder-se  ou causar dano a si mesmo? Na Escrituras não é a primeira vez que aparecem semelhantes reflexões. No Eclesiástico ou SIRÁCIDA, 11, 18-19 encontramos: Há quem se enriquece por avareza; esta será a sua recompensa: Quando ele disser: ”Encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, não sabendo quando virá aquele dia, deixará tudo a outros e morrerá. O livro dos Provérbios tem uma reflexão semelhante: Não te glories do dia de amanhã, porque não sabes o que trará à luz (27,1). O RICO: Era, segundo Jesus, um homem qualquer, porém rico, cuja terra ou melhor diríamos em português cujas terras produziram uma colheita copiosa.

A REFLEXÃO: E cogitava entre si dizendo: Que farei porque não tenho onde estocar os meus frutos? (17). Et cogitabat intra se dicens quid faciam quod non habeo quo congregem fructus meos. E disse: isto farei destruirei os meus celeiros reconstrui-los-ei maiores e ai recolherei todos os meus produtos e meus bens (18). Et dixit hoc faciam destruam horrea mea et maiora faciam et illuc congregabo omnia quae nata sunt mihi et bona mea. E direi à minha alma: alma, tens muitos bens depositados para muitos anos; descansa, come, bebe, desfruta (19). Et dicam animae meae anima habes multa bona posita in annos plurimos requiesce comede bibe epulare. Esta colheita abundante e generosa foi a ocasião de uma reflexão: Que farei, pois não tenho onde estocar semelhante riqueza? Ele só pensou em si mesmo, para viver uma vida de descanso e prazer. Como diz o apóstolo em 1Cor 15, 32 comamos e bebamos que amanhã morreremos. E com a finalidade que também propõe o livro do Sirácida, encontrei descanso; agora comerei de meus bens (11, 19), pensa em aumentar a capacidade de seus celeiros para ter uma vida fácil, sem preocupações,  para descansar, comer, beber e gozar. Uma solução mais fácil seria repartir o que não coubesse nos celeiros com os mais necessitados, ou vender a preço mais acessível o excedente. Seria uma maneira de ajudar a quem não tem, e cumprir com o que Tobias recomendava a seu filho: Dá esmola  de tudo que te sobrar e não sejas avaro na esmola (4, 16).

A MORAL: Porém disse-lhe Deus: Insensato, esta noite demandarão a tua alma de ti; as que tens preparado para quem serão? (20). Dixit autem illi Deus stulte hac nocte animam tuam repetunt a te quae autem parasti cuius erunt. Assim [será] o que entesoura para si mesmo e não [é] rico para Deus (21). Sic est qui sibi thesaurizat et non est in Deum dives. Segundo o último versículo de hoje, existem duas maneiras de ser rico: para si mesmo ou para [diante de] Deus(21). A primeira maneira é uma verdadeira idolatria (Cl 3, 5) quando atinge os limites da avareza. E será uma insensatez, sem miolos, pensar que as riquezas vão trazer a verdadeira felicidade como diz Jesus no trecho de hoje (20). A segunda maneira de ser rico tem duas opções que não são diametralmente opostas: a) A perfeita: enriquecer o coração optando pela pobreza em cuja escolha teremos outros desejos que não a ambição e desejos insensatos e funestos, que afundam os homens na ruína e perdição (1 Tm 6, 9).  Por isso Jesus aconselha para o jovem rico: Uma coisa te falta ainda. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me (Lc 18, 22). Neste caso descobrimos a verdadeira felicidade que é ser discípulo de Cristo. b) A segunda é fazer amigos com as riquezas de modo que no dia em que elas faltem e sejam inúteis eles vos recebam nas tendas eternas (Lc 16, 9). Neste caso o dinheiro compra a verdadeira felicidade que é imorredoura. Desde os tempos de Tobias sabemos que a esmola era um dever de todo judeu justo ( 4, 7-11 e 16-17). O Sirácida o dirá com palavras muito próximas às de Jesus em Lc 19, e compara a esmola com o sacrifício de louvor (35,2). Além dos pobres era o próprio Jesus e o colégio apostólico que foi favorecido pelas posses de suas discípulas. Sabemos que eles tinham uma caixa comum e que dela participavam os pobres (Jo 12, 5-6). Quando Zaqueu disse que a metade de seus bens seria dada aos pobres, Jesus exclamou: Hoje a salvação entrou nesta casa (Lc 19, 8). Quando as multidões perguntam a João que devemos fazer? Ele respondeu: Quem tiver duas túnicas reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo (Lc 3, 10). Do evangelho deduzimos que o reparte deve ser generoso, até a metade dos bens, quando o outro nada tem. Sem dúvida que existe muita ostentação desnecessária na vida. Por isso é bom recordar as palavras de Tobias: o supérfluo pertence aos pobres, e a advertência dos Papas nos últimos tempos: Toda propriedade tem uma hipoteca social.

PISTAS: 1) Aparentemente o caso do homem que interpela Jesus era um caso de justiça. Mas Jesus recusa ser juiz. A justiça, considerada do ponto de vista humano, é falha e deixa muito a desejar. No litígio, os homens enfrentam uma guerra que mata não só os corpos, mas a amizade e o amor. Por isso Jesus dirá: Assume uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás no caminho, para não te acontecer que teu adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e assim, sejas lançado na prisão (Mt 5, 25). Porém a caridade não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade (1 Cor 13, 5-6). De fato, todas as revoluções em nome da justiça,  da igualdade e da liberdade têm sido extremamente cruentas e abundantes em mortes humanas. Muitas buscam a desforra e a vingança, Por isso todas as encíclicas sociais terminam com a mesma advertência: a justiça deve ser temperada pela caridade que é a que tem a última palavra nas relações sociais.

2) Talvez não tenhamos em conta que num mundo tão injusto como o romano de escravos e cidadãos diversamente classistas, Jesus nada disse a respeito. Porém, a ênfase evangélica está na justiça divina para a qual Lucas deixa a definitiva sentença, como Ai de vós ricos, porque já tendes a vossa consolação (Lc 6,24).

3) O problema da desigualdade, por não dizer péssima distribuição das riquezas, tem como solução uma voluntária redistribuição das mesmas, de modo que os mais ricos enriqueçam os mais pobres com as riquezas que para eles sobram e para estes faltam. A chamada esmola deve ser considerada como uma necessidade voluntária de distribuição das riquezas. Assim se conseguem dois objetivos altamente prioritários e necessários: Paliar uma injustiça presente e conseguir amigos eternos. (vide nota).

4) Mais do que condenar os ricos devemos pregar a pobreza voluntária, desterrando a ambição como programa humano e oferecendo a simplicidade e austeridade de vida como objetivo evangélico e ideal social.


NOTA: Eis uma página que deve ser lida como atual por todos. É da homilia de S. Basílio Magno, De caritate: “ Imita a terra, ó homem! À semelhança dela produze fruto, não te reveles inferior a uma coisa inanimada. Ela nutre frutos não para seu consumo, mas para teu serviço. Tu, no entanto, todo fruto de beneficência que produzisses, colherias para ti mesmo, porque o prêmio das boas obras reverteria a ti. Como o trigo que cai na terra redunda em lucro para o semeador, assim o pão dado ao faminto, grande proveito te trará no futuro. Seja, portanto, o final de tua lavoura o início da sementeira celeste: Semeai, está escrito, para vós mesmos na justiça. Mesmo contra a vontade, terás de deixar aqui teu dinheiro. Pelo contrário, enviarás ao Senhor a glória conseguida pelas tuas obras. Ali, na presença do Juiz de todos, o povo em peso te proclamará o provedor, o generoso doador e te cobrirá com todos os nomes significantes de bondade e de benignidade.Com efeito, não vês como aqueles que, nos teatros, nos estádios, nos circos, aqueles que combateram contra as feras, cujo aspecto nos horroriza, por uma breve fama e pelos aplausos vibrantes do povo, malbaratam riquezas? Tu, porém, tão parco em gastar, donde conseguirás tamanha glória? Deus te aprovará, louvar-te-ão os anjos, todo homem criado desde o princípio do mundo te proclamará feliz. Glória eterna, coroa de justiça, reino dos céus, tudo isto premia as coisas corruptíveis que bem usaste. Nada te cause cuidado daqueles bens, objeto de esperança, pelo pouco caso dado às coisas temporais. Ânimo então, e reparte de diversos modos as riquezas, sendo liberal e magnânimo nos gastos com os indigentes. De ti dirão: Distribuiu, deu aos pobres, sua justiça permanecerá para sempre. Como deverias ser grato ao benéfico doador que teve considerações por ti. Não te alegras, não te regozijas por não teres que ir bater à porta dos outros, mas que eles venham à tua? Agora, no entanto, és rabugento, com dificuldade consegue alguém te falar: evitas encontros, não te aconteça teres de abrir mão nem que seja um pouquinho. Conheces só uma frase: “Não tenho nem dou; também sou pobre”. És pobre na verdade, indigente de todo bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de fé em Deus, pobre de esperança eterna”. ( 2a leitura terça feira 17a semana)