Epístola (2Tm 3, 14-4,2)

(Padre Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: Paulo roga a seu discípulo Timóteo a permanecer na tradição, pois é mestra da Verdade, quando recebida das verdadeiras testemunhas da mesma; de modo especial exige fidelidade às Escrituras que servem, como Verdade absoluta para múltiplas aplicações na vida cristã com consequências éticas de valores imutáveis.

A TRADIÇÃO: Porém tu permanece nas coisas que aprendeste e tendes sido assegurado, sabendo de quem as aprendestes (14). Tu vero pérmane in iis quae didicísti et crédita sunt tibi sciens a quo didíceris. PERMANECE em grego usa-se o verbo menö [<3306>=permanere] permanecer, habitar, demorar, guardar, estar firme. É neste sentido de não mudar de pensamento e intenções, que Paulo escreve a Timóteo, para não se deixar enganar pelos falsos profetas, cujas doutrinas rejeita desde o capítulo 2º desta carta. Como discípulo de Paulo, Timóteo deve saber bem quem foi seu verdadeiro mestre: Paulo, que recebeu a doutrina diretamente de Deus por inspiração do próprio Jesus (Gl 1,11-12); doutrina que foi confirmada pelos apóstolos como conforme à tradição (Gl 2, 9). O versículo é tão a favor da tradição que o comentário dos evangélicos tende a dizer que aquela não está ao mesmo nível da Escritura. Porém no ano 67 parte das Escrituras do NT ainda nem estava escrita e são as cartas de Paulo as que entram nas Escrituras como base da Revelação. Parece melhor a interpretação católica que diz ter a Escritura uma base que é a tradição. Estes versículos apelam ao ensino para distinguir falsas de verdadeiras doutrinas e o ensino depende do mestre não de um escrito, ou seja, entramos na transmissão ou tradição do que foi dito e não na leitura do que foi escrito. É a tradição que assegura [tendes sido assegurado]. Como foi Paulo assegurado pela tradição apostólica, segundo o que ele conta em Gl 2, 2 quando expôs sua doutrina [seu evangelho] aos que estavam em estima, para que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão. Não é possível suster uma doutrina como a evangélica da interpretação particular na escolha dos escritos e na leitura dos mesmos, diante do que Paulo fez e nesta carta pede e exorta a Timóteo a repetir. Sair da tradição é encontrar a falsidade do homem e não a verdade do Cristo Jesus. Esta é a tradução RA do versículo, que confirma o que temos interpretado: Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido. De donde deduzimos que há mestres e que essa sua doutrina deve ser transmitida como verdade evangélica. O catecismo CIC diz nos parágrafos seguintes: A Igreja, à qual está confiada a transmissão e a interpretação da Revelação, não tira exclusivamente da Escritura a certeza de todo o revelado. E assim, devem ser respeitados e recebidos [os ensinamentos] com o mesmo espírito de devoção (81). Essa tradição provém dos apóstolos e transmite o que estes receberam do ensino e do exemplo de Jesus e o que aprenderam do Espírito santo. Com efeito, a primeira geração de cristãos não tinha ainda um Novo Testamento escrito e o Novo Testamento mesmo testemunha o processo da tradição viva (81).

FÉ E BÍBLIA: E porque desde menino as Sagradas Escrituras conheceste, as que têm o poder de te fazer sábio para (a) salvação através da fé, a em Cristo Jesus (15). Et quia ab infántia sacras lítteras nosti, quae te possunt instrúere ad salútem, per fidem quae est in Christo Iesu. DESDE MENINO [brefos<1025>=infantia] A palavra grega indica um feto, um recém-nascido ou um infante, um bebê, brotinho, ou seja, menor que dois anos de vida. Brefos foi a palavra que usou Isabel para dizer que a criancinha [brefos] saltou no seu ventre (Lc 1, 41). Esse mesmo nome recebe o nascido em Belém que achareis –diz o anjo-envolto em panos e deitado numa manjedoura (Lc 2, 12). Eram os meninos que traziam a Jesus para que lhes tocasse e que os impediam os discípulos (Lc 18, 15). Consequentemente devemos traduzir desde a mais tenra infância [logicamente por meio da sua mãe, única na família que era judia (At 16, 1)] conheceu as Sagradas Escrituras.

SAGRADAS ESCRITURAS [iera<2413> grammata <1121>=sacras litteras] O PODER [dynamena<1410>quae possunt] do verbo dynamai, ser capaz de, poder realizar, ter o poder de. Em hebraico Escrituras eram TaNaK, acróstico de Torah [Lei], Neviim [profetas] e Ketubim[escritos]. No início do século II constituía um conjunto de 24 livros que os cristãos chamavam de Antigo Testamento. O texto hebraico, ampliado com a tradução e os comentários em aramaico [os Targumim] era a leitura corrente nas sinagogas da atual Palestina; Mas na Diáspora, o texto era o da tradução feita ao grego dois séculos antes da nossa Era, na cidade de Alexandria. Os evangelhos, as cartas paulinas e os escritos primitivos os cristãos usam, como texto inspirado, essa tradução grega que é chamada de Septuaginta ou dos Setenta. E há textos unicamente escritos em grego, como o livro da Sabedoria e os livros dos Macabeus. Na Bíblia grega, temos unicamente dois volumes no lugar dos três da hebraica [TaNaK], que são Lei e Profetas [‘o nomos kai ‘oi profëtai] (Mt 7, 12). Tendo algumas variantes e novos livros, o texto grego é considerado como texto autêntico e, logicamente, o texto inspirado, segundo o canon da Igreja Católica. O texto da Setenta é, pois, a palavra de Deus, máxime que o texto receptus hebraico, o canon judeu, foi manipulado, rejeitando tudo o que fosse influxo grego, ou favorável à causa dos cristãos. Para se ter um exemplo, o livro do Eclesiástico, muito usado pelos cristãos, foi rejeitado como parte do Canon hebraico, que por outra parte é posterior ao uso da Escritura pela Igreja primitiva cristã. Pelo que respeita a Timóteo, grego de pai, embora sua mãe fosse judia, ele não teve outra Escritura que a grega dos Setenta, a única leitura feita na sinagoga de Listra, de onde ele era originário. Com esta recomendação, Paulo não unicamente recomenda a Escritura a Timóteo como as declara Sagradas [‘iera<2413>=sacra] ou Consagradas, que pertencem a Deus. E o que na continuação explicita é que têm como base que elas fornecem a autoridade da Verdade absoluta que unicamente a palavra de Deus pode emprestar. Esta qualidade é a da SABEDORIA, que, segundo o texto, é a de se tornar sábio [sofisai <4679>=instruere] com respeito à SALVAÇÃO [söteria<4991>=salus] POR MEIO DA FÉ em Jesus Cristo. Que quer dizer Paulo? Sem dúvida que nas Escrituras do AT encontramos suficientes razões para ver em Jesus, o Cristo, o Messias da fé. (At 2, 36).

De fato, os evangelistas, especialmente Mateus, frequentemente citam o AT para ver em Jesus cumpridas as palavras dos profetas (332 profecias). De modo que o AT foi inspirado para levar os homens para a fé em Jesus. É Jesus o centro da atuação divina no Universo: É o Jesus Cristo o mesmo ontem, e hoje e eternamente (Hb 13,8) de modo que lhe deu um nome sobre todo nome (Fp 2, 9) para ter a supremacia sobre todo principado e potestade e e potência e senhorio e todo nome que seja nomeado não só neste século mas também no vindouro (Ef 2, 48).

INSPIRADA POR DEUS: Toda Escritura (é) inspirada por Deus, e útil para ensino, para demonstração, para correção, para instrução em justiça(16). Omnis Scriptúra divínitus inspiráta útilis est ad docéndum, ad arguéndum, ad corripiéndum, ad erudiéndum in iustítia. INSPIRADA POR DEUS [theopneustos <2315>=divinitus inspirata] o é não forma parte do texto mas é implicitamente deduzido na frase para ele ter uma compreensão lógica. Podemos também traduzir por toda Escritura inspirada por Deus também é útil, etc. De todas as formas, Paulo admite que as palavras escritas e admitidas como canon pelos doutores, são palavras que têm origem na inspiração divina. É o Rema de Jahveh, ou devar Jahveh. Literalmente, Theopneutos significa respirada por Deus e indica a procedência e as qualidades de Verdade e Confiabilidade nela intrínsecas e adjacentes. Mas quais são as matérias em que a Bíblia deve ser tomada literalmente e não analógica ou circunstancialmente? Porque em matéria de ciência e história sabemos que refletem ideias e opiniões próprias da época e que delas se servem como exemplos ou midrashes para uma conclusão ética e moral? Sabemos que assim como usam uma língua hoje praticamente morta, têm um conceito do mundo que hoje a ciência superou como infantil e errôneo. Em 2005 os bispos da Inglaterra claramente interpretaram a norma de que em matéria de História e de ciência não podemos usá-la como documento infalível. A Bíblia reflete opiniões populares e contém o que eles chamam de traços históricos. Falando da História, temos os seguintes gêneros literários: a parábola sem verdade histórica; o epos histórico [história épica ou poética de uma epopeia] com só um núcleo verdadeiro; a história religiosa, própria para promover a edificação; a história antiga, segundo a opinião do povo e de uma fonte não segura como é a tradição popular, em que o mito e a lenda entram; e finalmente a narração livre, em que o autor escolhe um fato como edificante. A opinião evangélica é que quando a Bíblia fala como História, os fatos são historicamente verdadeiros; e quando fala em profecia, é profeticamente verdadeira, embora não se entenda qual é a verdade em profecia, pois teríamos no Apocalipse animais monstruosos evidentemente imaginários e não reais. É em matéria de fé e costumes que devemos encontrar a verdade divina revelada. O CIC assinala três critérios de interpretação das Escrituras: 1) Prestar uma grande atenção ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura. 2) ler a Escritura na Tradição de toda a Igreja. 3) Estar atentos à analogia da fé (112-114). Não podemos esquecer que o centro da revelação é Cristo e que Ele unifica o AT e o NT. Esta é a revelação fundamental. Como exemplo temos 332 profecias com respeito ao Messias, que se cumprem perfeitamente em Jesus (nascimento em Belém, fuga ao Egito, curas, morte na cruz, etc). A combinação dessas circunstâncias num só homem é absolutamente impressionante. É uma entre 10 elevado a 157 probabilidades. Pedro teve, junto com os dois filhos do Zebedeu, uma revelação do messiado de Jesus e não obstante ele afirma: Temos a palavra profética que nos torna mais seguros a qual fareis bem em seguir como a uma luz que alumia em lugar escuro (2Pd 1,19). ÚTIL [öfelimos<5624>=utilis] Os evangélicos traduzem öfelimos por eficaz. Porém o grego tem o significado de vantajoso, útil mais do que eficaz como querem traduzir os evangélicos (vide RA). A Vulgata realmente traduz de forma correta o termo, útil que também é o termo preferido pelas diversas versões católicas e que encontramos também na TEB. O inglês profitable é um termo duvidoso entre útil e eficaz. Tenhamos em conta que a Escritura é para um evangélico a única fonte de revelação. Para um católico ela é imprescindível, mas a sua interpretação depende da Tradição. Ou seja, esta é a base de quais os livros e como ler os mesmos, para não confundir Verdade com opinião pessoal. Daí que Igreja católica só existe uma e igrejas cristãs ou evangélicas tantas como diversas opiniões suscitaram a leitura da palavra. ENSINO [didaskalia <1319>=ad docendum] ensino, doutrina, instrução, palavra usada por Mateus em 15, 9: este povo em vão me adora ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. Pelo que Paulo também diz que as proibições não toques, não proves, não manuseies, de coisas que perecem pelo uso, são preceitos e doutrinas dos homens (Cl 2, 21-22). De onde deduzimos que o ensino é particularmente aquele que distingue entre o humano e o divino.

DEMONSTRAÇÃO [elegchos <1650>=arguendum] prova, evidência, argumento, refutação. Segundo o que lemos em Hb 11, 1 que a fé é a prova das coisas que se não veem, a Escritura serve para provar as afirmações da fé evangélica. CORREÇÃO [epanörthosis<1882>=ad corripiendum] o grego significa restauração do estado perdido, correção, e é apax no NT, ou seja, para retificar, caso o caminho não seja o verdadeiro.

INSTRUÇÃO [paideia<3809>=ad erudiendum], em crianças, é o método de educar tanto o corpo como o espírito e em adultos, o cultivo do espírito, especialmente pelo domínio das paixões e que podemos definir como educação. E tudo, tendo como base fundamental, a JUSTIÇA [dikaiosynë<1343>=iustitia],ou seja, a retidão e honradez de costumes e que chamamos de moral cristã. Além da fé, ou verdades reveladas, ocultas à razão humana, a Igreja sempre falou da ética ou costumes necessários para os que professam a fé num Deus Pai, que transforma os homens em irmãos. É, pois, nesse sentido que devemos usar a palavra das Escrituras como última e definitiva. O Concílio Vaticano I definiu solenemente que a inspiração da Escritura e implicitamente a inerrância e infalibilidade, se estende às matérias de fé e de costumes e às partes, ao menos, de maior importância.

A PERFEIÇÃO HUMANA: Para que seja perfeito o homem de (o) Deus, para toda obra boa exercitado (17). Ut perféctus sit homo Dei ad omne opus bonum instrúctus. PERFEITO [artios<739>=perfectus] adaptado, ajustado, instalado, completo, perfeito. Talvez seja melhor falar de adaptado para toda obra boa. EXERCITADO [exërtismenos<1822>=instructus] particípio perfeito do verbo exartizö, cujo significado é completar, acabar, finalizar, cumprir, realizar. Uma outra vez aparece este vocábulo em At 21, 5 que fala de havendo completado ali aqueles dias,seguimos nosso caminho. É o homem perfeito de quem Paulo fala em Cl 1, 28 ensinando a todo homem em toda a sabedoria para que apresentemos todo homem perfeito, em Jesus Cristo.

PAULO TESTEMUNHA: Testemunho diante de (o) Deus e de Cristo Jesus o qual virá a julgar vivos e mortos e a sua epifania e o seu reino (1). Testíficor coram Deo et Iesu Christo, qui iudicatúrus est vivos et mórtuos, per advéntum ipsíus et regnum eius. TESTEMUNHO [diamartysomai<1263>=testificor] era a palavra usada para atestar uma verdade no tribunal da justiça. É uma afirmação diante das duas pessoas que eram a representação da Verdade suprema: Deus, nos céus e Cristo, na terra. JULGAR [krineiv<2919>iudicaturus] o verbo está precedido de mellontos <3195> particípio de presente do verbo mellö com o significado de estar a ponto de, por causa de intenção, dever, necessidade, probabilidade, e que pode ser traduzido por um futuro próximo também como a Vulgata traduz: iudicaturus. VIVOS [zöntas<2198>=vivos] é particípio de presente do verbo Zaö que significa viver, ou melhor, respirar, ter alento, estar em vigor. Ao acrescentar MORTOS [vekrous<3498>=mortuos] Paulo reafirma sua declaração na carta aos tessalonicenses 1, 4, 16-17: Dizemos, pois, isto pela palavra do Senhor que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor não precederemos os que dormem…. Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, depois nós, os que ficamos vivos, seremos arrebatados, juntamente com eles nas nuvens, ao encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Escrita a carta 30 anos após o início de sua primeira missão, Paulo ainda acreditava na iminente vinda de Cristo. É uma afirmação indireta e implícita que apela à palavra do Senhor Jesus (1 Ts 4, 15) como juiz final e universal. Os autores modernos falam de uma revelação especial dentre as muitas que Paulo teve (Gl 1, 12 ou 1Cor 15, 51). Da diferença entre os vivos, no meio dos quais Paulo acredita encontrar-se nesse dia, e os mortos é a ressurreição destes últimos e êxtases dos primeiros, arrebatados ao encontro com Cristo. Como no sermão escatológico, estas palavras devem ser tomadas da forma apocalíptica em que é difícil distinguir os símbolos da realidade concreta.

EPIFANIA [epifaneia<2015>=adventum]. Os símbolos do arcanjo, da trombeta, que Paulo usa como epifania na parousia, são comuns a todas as teofanias bíblicas, como Êx 19, 16, ou Mt 24, 31; e Paulo os emprega também em 1Cor 15, 24 para aparecer finalmente em Ap 5, 2 e 19, 17, sem que sejam realidades objetivas; mas uma demonstração de que o poder divino estará presente e será óbvia essa sua presença pelos fatos visíveis a todos os presentes, como uma possante e inusitada e em certo sentido, misteriosa intervenção de Deus, expressada com três fórmulas apocalípticas que em todas as descrições ressaltam: a voz divina, a voz do arcanjo e o som do shofar para a reunião da multidão. Ao incluir-se Paulo entre os vivos no momento dessa intervenção, não implica um fato cronológicamente seguro, pois ele afirma que ninguém sabe o tempo nem a hora (Mt 24, 36), mas se coloca na categoria dos vivos, assim como em 1Cor 6, 14 se coloca na categoria dos mortos. No discurso escatológico de Mateus (cap 24,3-31) dentro dos sinais da destruição de Jerusalém e do final dos tempos, vemos como Jesus usa um estilo e umas imagens tomadas do AT com afirmações universais que admitem uma explicação mais restrita e moderada, especialmente pelo que se refere a sinais astronômicos e catástrofes terrestres. Por outra parte, é geralmente admitido que todo o episódio e a profecia tiveram lugar na destruição de Jerusalém, e unicamente Mateus liga a mesma com o fim do mundo [melhor de uma era] (vede comentário de Manuel de Tuya O.P.). Finalmente, dirá nosso comentador, a parousia do Filho do Homem não exige uma presença física e sensível de Jesus Cristo…mas uma presença moral do mesmo no castigo de Jerusalém donde se verá seu poder;pois o anúncio feito se cumpriu. Os judeus, e Paulo era um deles, viram na destruição de Jerusalém o final de um mundo que confundiram logicamente com o final dos tempos, quando só era o final de um tempo. Nisto, como em todas as dificuldades da Escritura, devemos ter como guia o catecismo CIC. À pergunta de quando ressuscitarão os mortos, o catecismo diz no último dia, no fim dos tempos e que essa ressurreição está intimamente unida à parusia de Cristo. A ressurreição de todos os mortos “dos justos e pecadores” (At 24, 15) precederá ao Juízo final. Cristo virá em sua glória, acompanhado de todos os seus anjos. Como sempre, em toda profecia de futuros eventos os fatos são conhecidos e o profeta vê os mesmos como presentes e não distingue o tempo, que para ele é sempre próximo e atual.

DIFUNDE A PALAVRA: Anuncia a palavra, sede firme, oportuna e inoportunamente, corrige, censura, exorta em toda perseverança e doutrina (2). Praédica verbum, insta opportúne, importúne, árgue, óbsecra, íncrepa in omni patiéntia et doctrína. O versículo anterior é como a razão de porquê a insistência paulina a Timóteo de que deve ser diligente no anúncio do Evangelho que ele qualifica como um dever de anunciar, refutar e exortar e que vamos na continuação a explicar.

ANUNCIA [këryxon<2784>=praedica] overbo kërissö tem o significado de anunciar como o faz um arauto ou mensageiro no sentido de proclamar ou publicar muito mais do que a tradução vernácula de pregar, que hoje tem o sentido restritivo do predicarespanhol.

SEDE FIRME [epistëthi<2186>=insta] o verbo efistëmi significa colocar sobre, estar presente, aparecer na frente de alguém. Do sentido de estar presente, obtemos o sentido de estar firme, presente com a palavra, sem que essa firmeza seja abalada por causas externas.

CORRIGE [elegxon<1651>=argue] como verbo, o vemos tendo um maravilhoso significado de honrar, premiar ou também reprovar e desaprovar, como é o caso de censurar que vemos em Mt 16, 22 quando Pedro se opôs a Jesus e reprovou a predição de sua paixão.

REPREENDE [epitimëson<2008>=obsecra] de epitimaö, com duplo significado: honrar ou repreender. Aqui, seguindo o contexto em que todos os términos são negativos, escolheremos o significado de repreender.

CENSURA: [EXORTA [parakaleson<3870>=increpa] intimar, exigir, admoestar, encorajar, convencer, aconselhar, exortar; como nos conceitos anteriores temos a base negativa de reprimir, agora optamos pela palavra positiva em sua acepção de exortar, pois as duas palavras que indicam o objeto da atividade são do gênero positivo, como PERSEVERANÇA [makrothymia<3225>=patientia] que é a virtude de suportar adversidades e DOUTRINA [didachë < 1322> = doctrina] doutrina, ou o que é ensinado. Evidentemente, esta doutrina é o Evangelho na sua acepção paulina, ou seja, pregado aos gentios.




Evangelho (Lc 18, 1-8)

(Pe Ignácio, dos padres escolápios)

INTRODUÇÃO: O trecho de hoje é ocupado por uma parábola que o próprio Jesus explica, tendo um final um tanto fora do contexto, ao que parece. No tempo em que foi escrito o 3º evangelho, sem dúvida antes do ano 70, os cristãos estavam padecendo perseguição. Primeiramente pelos judeus, a começar pela perseguição do ano 34 [quatro anos após a condena de Jesus no ano 30] com a morte de Estêvão. Logo em 44, no reinado de Herodes Antipas, este manda decapitar Tiago e mete Pedro no cárcere. Paulo foi preso em Jerusalém no ano 58 para ser enviado a Roma no ano 60 onde foi declarado inculpado, após uma prisão domiciliar. Mas a perseguição romana começou com a expulsão dos judeus [entre os quais se encontravam cristãos, sem dúvida] feita sob as ordens de Cláudio (45 dC). Será no tempo de Nero que os cristãos, acusados injustamente de incendiar a urbe, encontrarão como inimiga a justiça romana. Calculam-se mil mártires nesta primeira perseguição. Estas primeiras perseguições eram circunstanciais e não atingiram todo o Império. Após a morte de Nero houve um período de paz de 25anos até o império de Domiciano (81-96). Esta segunda perseguição parece ter sido generalizada. Domiciano mandou matar a todos os descendentes da casa de Davi, parentes do Senhor, como afirma Hegésipo. Durante as perseguições, o clamor dos fiéis pode ser visto pelas palavras do Apocalipse (6, 9): Até quando, -clamarão os imolados por causa da palavra de Deus- ó Senhor, santo e verdadeiro, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra? O último versículo, quando vier o filho do homem achará por ventura, fé na terra? Indica que o texto foi escrito antes do ano setenta, tempo da segunda vinda de Jesus. Mas, voltando à parábola, o começo da mesma assinala a moral da mesma, contrariamente ao que é costumeiro nas outras parábolas de Jesus. A lição é clara: se um juiz irresponsável, que não se importa com a justiça que ele deve respeitar, acaba por fazer justiça porque a viúva era persistente, quanto mais um Deus, justo e santo, atenderá os rogos constantes de seus filhos! A oração, quando autêntica, brota de uma fé viva, a expressa e a alimenta. E a palavra de Jesus alimenta essa confiança na proteção de Deus, que não despreza, melhor, admite, considera e atende nossas preces: Pedi, e vos será dado (Mt 7,7). Sendo a oração tema especial de Lucas, vemos no final um ex-abrupto, que nos introduz através da fé, na vinda segunda de Cristo. O versículo 8 conecta bem com 17, 37, fim do discurso sobre o dia do Filho do Homem. Possivelmente podemos unir ambos os trechos, e considerar que os clamores dos cristãos perseguidos serão ouvidos plenamente por quem não é um juiz prevaricador, mas um Pai que protege seus filhos.

A PARÁBOLA: Dizia-lhes, pois, também uma parábola por ser necessário sempre orar e não esmorecer(1). Dicebat autem et parabolam ad illos quoniam oportet semper orare et non deficere. Como foi dito no parágrafo anterior, a oração é para obter do Pai a proteção e a justiça contra os inimigos do cristianismo que atuavam contra a propagação e o livre exercício do mesmo, como vemos, se iniciou nos tempos de S. Estêvão (ano 34) e que foi uma constante na pregação do apóstolo Paulo (do ano 46 em diante). Aos cristãos ou discípulos do Caminho, nome primitivo da Cristandade, não restava outra alternativa a não ser a oração. E esta parecia demorar em obter seus frutos. Daí a conveniência da parábola que chamamos do juiz iníquo, mas que propriamente deveria ter o título da viúva perseverante. Porque foram essas orações para que chegasse a hora da ira e o momento de dar a recompensa a teus servos e profetas aos santos que veneram teu nome, pequenos e grandes, e de exterminar os que destruíam a terra (Ap 11, 8).

O JUIZ: Dizendo: Havia certo juiz numa cidade, não temente a Deus, nem respeitoso de homem algum (2). Dicens iudex quidam erat in quadam civitate qui Deum non timebat et hominem non verebatur. A palavra juiz é Shefat <08199>em hebraico e em grego Kritës<2939>. Temos também a palavra grega dikaste [daí dicastério] um termo que indica um magistrado, um oficial de justiça, termo mais elaborado do que krites. Os rabinos louvavam junto a coroa da realeza e a coroa do sacerdócio, a coroa da Lei que pode alcançar todo israelita e confere sua força às outras duas coroas. Eram os rabinos que determinavam a Lei e seus doutores – os escribas- tinham a capacidade de atar e desatar, dando uma coisa por proibida e outra por permitida (Ver Mt 16, 19). Os antigos israelitas, no Egito, tinham suas lideranças de tribo, os chamados Anciãos, os que Moisés reuniu em nome de Javé (Êx 3, 16). No deserto, existiam os príncipes das tribos (Nm 7,2) e na Palestina os famosos Juízes, que em nome de Javé protegeram os israelitas até o profeta Samuel, como enviados pelo Senhor (At 13, 20). No livro de Daniel temos dois anciãos que eram juízes a quem a assembleia creu por serem anciãos do povo e juízes (13, 42). Nos tempos de Jesus, existiam tribunais superiores ou sinédrios em cinco circunscrições da Palestina. Entre eles o principal era o grande Sinédrio ou Sanedrim [=assembleia] de Jerusalém constituído por 70 ou 72 membros dos quais alguns eram permanentes por cargo executivo, os chamados grandes sacerdotes ou chefes dos sacerdotes. O archiereus grego significa príncipe ou chefe de sacerdotes. Além do Sumo sacerdote em ofício, neste grupo se incluíam os que já foram tais e os chefes do templo, como eram o chefe da guarda, tesoureiros etc. Parece-me que o archiereus está mal traduzido por Sumo Sacerdote, como vemos nas leituras bíblicas da missa. Nos textos se fala que Jesus será julgado pelos chefes sacerdotais [sic na bíblia de Jerusalém], os anciãos e os escribas (Lc 9, 22). Porém parece que em cada cidade existiam os Dayan <01761>, termo que indica um assessor de um tribunal rabínico ou pessoa encarregada de pronunciar a sentença num julgamento. Enquanto o rabino geralmente decide sobre questões de natureza religiosa, o dayan julga assuntos econômicos e resolve problemas de Direito Civil. Só que em muitos povoados e aldeias ambos os ofícios recaiam sobre a mesma pessoa, especialmente porque a lei civil não se distinguia, na época, da lei religiosa ou Torah, minuciosamente explicada pelas normas da tradição ou Mishná. Seria, pois um destes dayan que impedia que a justiça fosse aplicada no caso da viúva. Mas era um homem que não temia a Deus e não respeitava homem algum. Flávio Josefo ao falar do rei Joaquim, dirá que não respeitava a Deus nem era atento com seus semelhantes. O nosso dayan era, pois, um juiz corrupto de quem não se podia esperar maior justiça da que proporciona a corrupção.

A VIÚVA : Havia, porém, uma viúva naquela cidade e vinha a ele dizendo: Vinga-me de meu rival (3). Vidua autem quaedam erat in civitate illa etveniebat ad eum dicens vindica me de adversario meo. A palavra almanah<0490> em hebraico tinha o mesmo significado que o grego chera <5503>, era logicamente a mulher que tinha perdido por morte o marido. Sai o nome pela primeira vez em Gn 38, 11 quando Tamar recebe o encargo de voltar à casa de seu pai, o dono após a morte do primeiro dono, que era seu marido. Como Javé não faz acepção de pessoas e não aceita suborno, ele é o que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa (Dt 10, 18). Por isso ouve seu clamor mandando que não sejam afligidos, pois caso sejam afligidos, ele escutará seu clamor (Ex 22,21). Ele sustenta o órfão e a viúva e protege o estrangeiro (Sl 146, 9). Pai dos órfãos e justiceiro das viúvas (Sl 68, 6). Deixa os teus órfãos eu os farei viver e que as viúvas confiem em mim (Jr 49, 11). Por isso, no final do AT Javé expressa a sua preocupação para com as viúvas. Eu serei uma testemunha rápida contra os que oprimem o assalariado, a viúva, o órfão e que violam o direito do estrangeiro (Ml 3, 5). Uma viúva tinha certos direitos restringidos, como não poder casar com um sacerdote (Lv 21,14) para não profanar a descendência deste último. A razão da proteção especial divina era porque as viúvas, geralmente idosas, tinham poucos recursos, sendo fáceis presas de pessoas inescrupulosas. A maneira de tratar as viúvas era um indicador da moralidade da época. Por isso, Jó foi acusado por Elifaz de maltratar as viúvas, pois seus problemas só podiam provir de uma conduta pecaminosa (Jó 22,9). A opressão das viúvas tornou-se um exemplo comum de maldade entre os homens (Sl 94, 6). Por isso, viúva era o símbolo de uma cidade abandonada e destruída pela guerra, como resultado de um juízo divino contrário (Is 47, 8). Assim Jesus optou como exemplo de desamparo e injustiça uma viúva, a quem os juízes da época, como eram os legistas fariseus, tiravam os poucos bens (Mt 23, 14). Jesus, de modo especial, já que sua mãe era viúva, tinha um carinho especial para com elas. Uma viúva foi seu modelo de desprendimento (Mc 12, 42) e outra de compaixão, e, sem ser rogado, ressuscitou o filho, para que a viúva de Naim tivesse alguém que a sustentasse, (Lc 7, 12). Ficamos, pois com a ideia de que uma viúva era facilmente maltratada pela justiça humana. Se a isso acrescentamos que o juiz era sem escrúpulos, corrupto ou imoral, o pano está perfeito para a comparação. Uma mulher, no AT, não tinha direitos legais. Seus direitos estavam na mão do pai, ou do esposo, se casada. As viúvas careciam de proteção e de direitos. Daí que os profetas invocassem o Senhor, como protetor das mesmas. Visitar os órfãos e viúvas em suas necessidades é parte da verdadeira religião (Tg 1, 27). VINGA-ME: É assim como devemos traduzir o grego ekdikeo. A justiça particular é chamada vingança e a pública defesa. No tempo de Jesus, a vingança, o olho por olho, era a razão da condena. A viúva pedia sem dúvida uma condena que poderíamos chamar de vingança ou desforra. Geralmente pensamos em termos monetários ou de bens, como sendo a justiça que a viúva pedia. Pessoalmente creio que era mais questão de justiça penal. Por isso o juiz não estava interessado, pois o dinheiro move os corações infelizmente e a compaixão não entra nos tribunais. O adversário, antidikos grego, nada diz à respeito do caso. Unicamente sabemos que era oponente dela.

O VEREDITO: E não quis por um tempo; porém, entre estas coisas, disse para si mesmo: Se, pois a Deus não temo e ao homem não respeito (4), porém, porque esta viúva me causa desgosto, a vingarei para que, por fim, chegando não me afronte(5). Et nolebat per multum tempus post haec autem dixit intra se et si Deum non timeo nec hominem revereor tamen quia molesta est mihi haec vidua vindicabo illam ne in novissimo veniens suggillet me. Durante muito tempo não quis fazer justiça, mas depois pensou e disse para si : Não temo a Deus nem respeito a opinião dos homens, mas esta viúva está me trazendo problemas insuportáveis; que não me aconteça seja esbofeteado no final. A vulgata traduz ypönpiazö<5299> bastante literalmente por suggillo que significa encher de golpes, como um boxeador que recebe uma verdadeira saraivada de pancadas. Metaforicamente significa encher a cara. Em linguagem vulgar, diríamos para que não me encha. Por fim é o eis telos, o in novíssimo [no último] latino que podemos traduzir por finalmente. Ou seja, o juiz a atende por sua importunidade que não o deixa em paz.

CONCLUSÃO: Disse pois o Senhor: Escutai o que o juiz da maldade diz (6). (o) Deus pois, não fará a vingança dos seus escolhidos os que clamam a Ele dia e noite e que têm sofrido pacientemente (os acontecimentos) sobre eles(7)? Ait autem Dominus audite quid iudex iniquitatis dicit Deus autem non faciet vindictam electorum suorum clamantium ad se die ac nocte et patientiam habebit in illis. A observação do Senhor é para esta última reflexão do juiz irresponsável, a quem chama de juiz da iniquidade. Esta é uma das poucas vezes em que Jesus de Nazaré recebe o nome de Senhor, título que ele adquiriu após a ressurreição. A tradução de Javé em grego pelos setenta é Kyrios nome dado a Jesus, o Cristo, reconhecendo sem a menor dúvida uma indiscutível condição divina. No mesmo sentido que o Deus do AT, Jesus é Senhor dos senhores, Senhor dos vivos e mortos, Senhor da glória, Senhor do universo. E dirige sua atenção com um argumento a fortiori ou a minori ad maius: Compara o juiz que deve fazer justiça a uma viúva, com Deus que deve fazer justiça a seus escolhidos. Se ela recorria frequentemente ao juiz, estes últimos clamavam dia e noite, ou seja, sem interrupção, pelos acontecimentos que estavam sofrendo. Na realidade, o grego tem uma sintaxe rara, difícil de interpretar. Terá, pois, Deus que esperar muito para que essa justiça seja feita? A conclusão era que essa justiça será feita em breve. Como indicávamos no início do comentário, a perseguição, especialmente a originada pelos dirigentes judeus, era motivo de aflição na primitiva Igreja e, daí o clamor para que a justiça divina interviesse em seu favor. Isso é uma amostra da antiguidade do evangelho de Lucas. Esperava-se a segunda vinda de Cristo como juiz para resolver a questão.

A ÚLTIMA REFLEXÃO: Digo-vos que fará a vossa vingança em breve. Aliás, chegando o Filho do Homem, acaso encontrará a fé sobre a terra?(8). Dico vobis quia cito faciet vindictam illorum verumtamen Filius hominis veniens putas inveniet fidem in terra. Mas quando vier o Filho do Homem, ainda encontrará fé na terra? A expressão Filho do Homem designa em princípio um membro da comunidade humana, especialmente enquanto ser mortal e fraco. Mas no livro de Daniel se transforma numa figura simbólica que representa o povo dos santos de Deus (cap 7) em sua glória final. Concentrada em seu chefe, a expressão Filho do Homem adquire um valor estritamente individual, glorioso e transcendente. Nos evangelhos aparece setenta vezes, sempre na boca de Jesus, pois sintetiza em sua pessoa, tanto a humanidade pela sua paixão, como a divindade, esta última pela ressurreição e seu poder de triunfo total, julgando seus inimigos. Algumas vezes está no lugar do eu, como substituto em português da expressão a gente. Sem dúvida que aqui o significado é o do Messias triunfante para o último julgamento, talvez em termos locais, restringido a uma determinada etnia, num lugar e de um povo especial: o povo hebreu. A palavra terra que aqui aparece está no lugar de terra prometida, terra [eretz em hebraico e gës em grego] que Javé entregou a seu povo escolhido como promessa dada aos patriarcas (Gn 12, 7). A Palestina era “a Terra” para um judeu, que se considerava expatriado fora dela, como o é, atualmente. A terra era a Eretz que constituía o templo em que Javé morava com seu povo, templo não construído por mãos humanas, mas escolhido por Deus para que seu povo o habitasse em paz, na prosperidade. Junto com o sábado e a Torá, era o tripé sobre o qual se assentava a ordem social do povo escolhido. É, pois, nesta terra especial que Jesus afirma ser duvidosa a fé dos moradores. Como reconhecem os autores modernos, toda esta perícope está relacionada com a parusia; uma parusia que não pode tardar porque os eleitos, os filhos do Reino, estão pedindo justiça diante da repressão da parte de seus inimigos. Esta parusia deu-se no ano 70 com a destruição do templo e a dispersão do povo de Israel. A fé [pistis grega] tem além do significado de convicção profunda de que Jesus tem o poder e a vontade de salvar, no sentido mais amplo possível, um outro matiz: a da entrega incondicional do discípulo à pessoa de Jesus. Esta fé constitui a base do discipulado. Portanto, a pergunta de Jesus pode ser traduzida nestes termos: Será que eu ao vir para julgar a terra, dada por Deus ao povo escolhido, encontrarei discípulos meus habitando nela? A resposta histórica, centrada no ano 70, é não; pois os cristãos tinham fugido e refugiaram-se na Transjordânia.

PISTAS: 1) A interpretação da parábola pode ser localista: uma viúva, uma causa particular de indivíduos que buscam uma solução para seus problemas íntimos. Como se cada cristão escutasse a parábola como dita para sua própria edificação. A intenção da parábola é toda tomada do primeiro versículo: A necessidade de orar sempre. Tudo mais parece simples ornamentação ou explicação. Porém, não é esta a interpretação mais admitida hoje.

2) A pergunta que podemos fazer é por que Jesus toma como exemplo uma viúva, a mais indigente dentro do poder do mundo antigo. É pura casualidade ou a escolha tanto da viúva como do juiz iníquo são escolhas voluntariamente arranjadas para transformar uma parábola em alegoria? Acreditamos que sim. A viúva representa a primitiva comunidade cristã, indefesa e frágil, diante dos dois poderes que a perseguiam: o judeu e o romano. Como temos narrado antes, o primeiro foi o iniciador da perseguição. Imediatamente após a morte de Jesus, os discípulos foram perseguidos. Quatro anos após a paixão, foi morto Estêvão. Saulo, o futuro Paulo, perseguia os cristãos já nos anos seguintes. Estamos, pois, num clima em que os gritos dos perseguidos clamavam justiça exatamente como descreverá o Apocalipse durante a perseguição de Domiciano. (vide supra e Ap 6,9). A resposta a este clamor intenso e perturbador é a da parábola: Deus demorará em fazer justiça, fazendo ouvidos surdos ao clamor de seus eleitos?

3) Existem porém algumas perguntas: por que Deus permite essa injustiça e essas perseguições? Quando o bem derrotará definitivamente o mal? É uma luta demorada e contínua? As respostas podem ser as que Jó encontrou dentro de sua inocência e ignorância: *Só Deus pode dar a resposta. *Porém existem sempre algumas pistas que podemos contemplar. Quando não existe contradição, o espírito humano se relaxa na vida cômoda e perde a pureza das intenções. A perseguição é uma purificação, uma volta ao primitivo espírito evangélico. Por isso é necessária para manter viva a fé, purificar o amor e suscitar, sobretudo a esperança. O mal já foi derrotado na cruz. Ele está vivendo a sua última agonia. Ele não subsistirá como força atuante na outra vida para os que escolheram o bem, mas será a seiva vital para os que o abraçarem como intenção de seu agir. Porém o abismo que separará os bons dos maus impedirá que o mal atue sobre os que gozam da visão divina. Já a luta na terra será contínua até o dia do Senhor, dia do triunfo, da vitória final do bem com a condenação eterna do mal.