UM APELO À VIGILÂNCIA

Mt 24,37-44

 

Caros irmãos e irmãs,

Neste domingo a Igreja começa um novo ano litúrgico, ou seja, um novo caminho de fé do povo de Deus. Os quatro domingos que precedem o nascimento de Jesus são chamados domingos do Advento. Trata-se de um tempo de penitência e vigilância, visando preparar o nosso coração para ser uma manjedoura de Jesus.  Mas é também um tempo de espera, de preparação e de chegada. Esperar alguém requer uma cuidadosa e alegre preparação, mas também requer vigilância. É o “tempo de Deus” proporcionado aos homens, para que as obras e os dias se abram à dimensão do Eterno.

A palavra Advento pode traduzir-se com “presença”, “chegada” e “vinda”. Na linguagem do mundo antigo, era um termo técnico utilizado para indicar a chegada de um funcionário, a visita do rei ou do imperador a uma província. No entanto, podia indicar também a vinda da divindade, que sai do seu esconderijo para se manifestar com poder. Os cristãos adotaram a palavra “Advento” para expressar a sua relação com Jesus Cristo: Jesus é o Rei, que entrou nesta pobre “província” denominada terra para visitar todos; na festa do seu advento faz participar quantos nele acreditam. Substancialmente, com a palavra “Adventus” desejava-se dizer: Deus está aqui, não se retirou do mundo, não nos deixou sozinhos. Portanto, o significado da expressão “Advento” inclui também o de “visitatio” que quer dizer “visita”; neste caso, trata-se de uma visita de Deus: Ele entra na nossa vida e quer dirigir-se a nós (cf. BENTO PP XVI, Celebração das Vésperas, 28 de novembro de 2009).

Advento é, portanto, o tempo da expectativa da chegada de Cristo no Natal. E a página do Evangelho deste domingo nos introduz em um dos temas mais sugestivos desse tempo: a visita do Senhor à humanidade. A primeira visita, como sabemos, ocorreu pela encarnação, o nascimento de Jesus na gruta de Belém; a segunda acontece no presente: o Senhor nos visita continuamente, todos os dias; por fim, teremos a terceira, a última visita, que professamos todas as vezes que recitamos a oração do Credo: “Virá de novo na glória para julgar os vivos e os mortos”. 

O texto evangélico nos fala desta sua última visita, que acontecerá no final dos tempos e nos diz onde o nosso caminho nos conduzirá e ressalta a atitude interior que devemos ter para esperar o Senhor que vem. As imagens tocantes apresentadas nos levam a pensar se Deus não estaria sendo injusto “um tomado e outro deixado”.  As pessoas parecem estar fazendo a mesma coisa. Inicialmente encontramos no texto a imagem das duas mulheres que estão a moer e dos dois homens que estão a trabalhar no campo, apresentam-se como uma grande interrogação para a consciência cristã. Primeiramente, porque o texto sagrado nos mostra que o juízo de Deus tem em si uma certa dimensão de surpresa. Só Deus conhece os pensamentos mais íntimos; o que externamente não aparece.  Podemos enganar os outros, mas não a Deus. Certamente o Evangelho não nos quer assustar, mas abrir o nosso horizonte à dimensão ulterior, maior.

A parábola ainda toma como termo de comparação o ladrão que pode chegar em horário inesperado.  Uma comparação que aparece também em outros escritos do Novo Testamento (cf. 1Ts 5,2-4; 2Pd 3,10). O texto visa mostrar que o discípulo de Jesus deve ser como o dono de uma casa, sempre vigilante para impedir a entrada de ladrões em sua residência.  E como ele não sabe a hora exata em que o ladrão virá, deverá sempre estar em estado de alerta (v. 43). O homem preocupado demais em viver e se satisfazer com o presente, esquece muitas vezes a dimensão futura da vida. A vinda do Cristo é certa, mas o momento exato dessa vinda é incerto, por isso a atitude do cristão é a espera e a vigilância.

Enquanto o evangelho insiste nesta vigilância incansável, e uma prontidão constante em face à vinda do Senhor, a história e a experiência cotidiana nos ensinam que o Senhor não tem pressa para vir, mas chegará de modo inesperado, como o dilúvio nos dias de Noé (v. 37).  Os conterrâneos de Noé viviam despreocupados, mas o julgamento divino os surpreendeu. O texto evangélico começa com uma comparação de caráter geral: “Como foi nos dias de Noé, assim… a parusia do Filho do Homem” (v. 17). O mesmo texto também faz uma outra comparação com a descrição mais pormenorizada do procedimento despreocupado dos habitantes de Sodoma (v. 39).

A intenção do evangelista São Mateus é despertar a comunidade cristã para a vinda do Senhor e a convida a abrir os olhos para descobrir o agir de Deus no cotidiano da vida: “Trabalhando no campo”, “moendo no moinho”.  Dessa forma, estando vigilantes, não serão surpreendidos e serão capazes de descobrir os apelos que Deus nos faz a cada dia, e saber responder estes apelos com prontidão e alegria.

Os acontecimentos são postos para exigir a vigilância que cada um deve ter, até mesmo nas horas tardias da madrugada em que os ladrões podem atacar. O que se pretende lembrar é que cada um deve estar com as suas contas acertadas com Deus na hora em que Ele vier. A questão fundamental é, portanto, esta: o crente ideal é aquele que está sempre atento, preparado para acolher o Senhor que vem.  Desta perspectiva vem também um convite à sobriedade, a não sermos dominados pelos prazeres deste mundo, pelas realidades materiais, mas antes a governá-las. Se, ao contrário, nos deixarmos condicionar e dominar por elas, não podemos perceber que há algo muito mais importante: o nosso encontro final com o Senhor. 

A vigilância está unida à ideia de estar acordado, atento e pronto para agir. Trata-se de um esforço pessoal em “caminhar na luz do Senhor”, como nos recorda o Profeta Isaías na primeira leitura (cf. Is 2,5), ou como lembra São Paulo na segunda leitura (cf. Rm 13,11-14), com a nossa coragem de deixar as obras das trevas e praticar as obras de luz.  

A coroa do Advento, feita com ramos verdes, enfeitada com fitas coloridas e quatro velas que, progressivamente, vão sendo acesas, retoma o costume judaico de celebrar a vinda da luz na humanidade dispersa pelos quatro pontos cardeais.  Nos quatro domingos do Advento as velas acesas nos convidam a uma atitude crescente de vigilância e de abertura ao Senhor que sempre vem, marcam o ritmo de espera deste tempo: “É preciso estar sempre acordados e com as nossas lâmpadas acesas!”.

Em cada celebração, neste tempo que antecede o Natal, somos convidados a proclamar profeticamente que o Senhor está chegando como o Salvador.  Estejamos vigilantes! Escutemos o convite do Evangelho e preparemos com empenho para reviver com fé o mistério do nascimento do Redentor, o Deus da Paz. A Virgem Maria, Mãe fiel e solícita, nos ajude a fazer deste tempo do Advento e de todo o novo ano litúrgico uma verdadeira e constante conversão. Que a vinda do Senhor nos encontre devidamente preparados e vigilantes, na expectativa da sua chegada, Ele que vem para habitar entre nós.  Assim seja. 

 

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ