II DOMINGO DA QUARESMA – C – A transfiguração de Jesus

Lc 9,28-36

 

Caros irmãos e irmãs,

 

Chegamos ao segundo domingo de Quaresma e a liturgia da Palavra nos convida a meditar acerca das sugestivas narrações da Transfiguração de Jesus. No alto do Monte Tabor, na presença dos Apóstolos Pedro, Tiago e João, testemunhas privilegiadas deste importante acontecimento, Jesus é revestido, também exteriormente, da glória de Filho de Deus que lhe pertence.  O Senhor Jesus, que pouco antes tinha prenunciado a sua morte e ressurreição (Lc 9,22), oferece aos discípulos uma antecipação da sua glória.

 

O quadro evangélico tem como fundo de cena o céu escuro ainda pela madrugada, quando Jesus se transfigurou diante dos olhos dos três apóstolos.  Seu rosto se tornou brilhante como o sol, e suas vestes ficaram brancas e brilhantes (v. 29).  Uma nuvem luminosa, sinal bíblico da presença de Deus, os envolveu.  E apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus.  E também na Transfiguração, como no batismo, ressoa da nuvem a voz do Pai celeste que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” (v. 35).

 

Este é o convite que o próprio Deus nos faz: “Escutai o que ele diz” (v. 35).  Devemos escutá-lo porque só ele pode nos conduzir à Vida. Só ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68).  Nós somos chamados a escutá-lo, mas também a fazer tudo o que ele nos disser (cf. Jo 2,5).  Escutando a sua palavra e praticando os seus ensinamentos seremos verdadeiramente discípulos de Cristo.

 

Mas a transfiguração de Jesus não deixa de apontar também para a nossa própria transfiguração.  Como nos exorta São Paulo: “O Senhor Jesus Cristo transformará o nosso corpo perecível, tornando-o conforme ao Seu corpo glorioso” (Fl 3, 21). Estas palavras do Apóstolo, enfatizadas na segunda leitura deste domingo, nos recordam que a nossa pátria verdadeira está no céu e que Jesus transfigurará o nosso corpo mortal num corpo glorioso como o seu.  Como de fato, Jesus quis dar um sinal e uma profecia da sua Ressurreição gloriosa, da qual também nós somos chamados a participar.

 

O evangelista São Lucas ressalta como este fato extraordinário se verifica precisamente num contexto de oração. Enquanto rezava, o rosto de Jesus mudou de aspecto (cf. Lc 9, 29). Antes de tudo, a primazia da oração, sem a qual todo o compromisso do apóstolo e da caridade se reduz a ativismo. Na Quaresma aprendemos a reservar o justo tempo à oração, bem como à esmola, o jejum e outras práticas quaresmais, consideradas pela tradição cristã como armas para combater o mal e os vícios.

 

Os Evangelhos deixam transparecer um hábito de Jesus, de transcorrer em oração uma parte da noite. O Evangelista São Marcos faz referência a uma destas noites, depois da multiplicação dos pães, e escreve: “Jesus obrigou logo os seus discípulos a subirem para o barco e a irem à frente, outro lado, rumo a Betsaida, enquanto Ele próprio despedia a multidão. Depois de os ter despedido, foi ao monte para orar. Já era noite, o barco estava no meio do mar e Ele sozinho em terra” (Mc 6, 45-47).

 

Por diversas vezes e, sobretudo, nos momentos mais urgentes e complexos, a oração de Jesus tornava-se mais prolongada e intensa. Na iminência da escolha dos doze Apóstolos, por exemplo, São Lucas sublinha a duração da oração preparatória de Jesus: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer a oração e passou toda a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos” (Lc 6, 12-13). Assim também deve ser a nossa oração, sinal da nossa amizade com Deus, a nossa intimidade com Ele. A oração deve ser entendida também como tempo para estar com o Senhor.

 

Somos chamados a ser testemunhas de oração, precisamente porque o nosso mundo se encontra muitas vezes fechado ao horizonte divino e à esperança que contém o encontro com Deus. Na amizade profunda com Jesus e vivendo nele e com Ele a relação filial com o Pai, através da nossa oração fiel e constante, podemos abrir janelas para o Céu de Deus. Aliás, ao percorrer o caminho da oração, sem uma consideração humana, podemos ajudar outros a percorrê-lo: também é verdade que na oração cristã se abrem veredas.

 

Também na nossa oração temos que aprender, cada vez mais, a entrar nesta história de salvação, cujo ápice é Jesus, renovar diante de Deus a nossa decisão pessoal para nos abrirmos à sua vontade, pedir-lhe a força de conformar a nossa vontade com a sua, em toda a nossa vida, em obediência ao seu desígnio de amor por nós.

 

Sobressaem na oração três elementos: a fé em um Deus pessoal, vivo; a fé em sua presença efetiva; o diálogo entre o homem e Deus.  Um diálogo pessoal, íntimo, profundo.  Quem reza sabe que se encontra diante da Sabedoria Suprema, diante daquele que nos conhece.  Assim, quem reza tem fé na presença ativa de Deus.  É a fé viva da oração.  Onde cessa a oração, cessa também a fé viva; e onde cessa a fé, cessa a oração.  A oração é este diálogo, este colóquio com o Senhor.

 

A necessidade da oração se faz sentir diversas vezes na Sagrada Escritura:  São Paulo dizia: “Orai sem cessar” (1Ts 5,17). E o mesmo Apóstolo ressalta: “É preciso embriagar-se com o Espírito Santo, falando uns aos outros com salmos e hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração, sempre e por tudo dando graças a Deus, o Pai, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5,18-20). E o próprio Jesus nos lembra: “Vigiai e orai para não entrardes em tentação; pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14,38).

 

Orar é uma necessidade vital. Se não nos deixarmos levar pelo Espírito, cairemos de novo na escravidão do pecado (Gl 5,16-25).  São João Crisóstomo afirmava:  “Nada se compara em valor à oração;  ela torna possível o que é impossível, fácil o que é difícil.  É impossível que caia em pecado o homem que reza”.  E Santo Afonso Maria de Ligório dizia: “Quem reza certamente se salva;  quem não reza certamente se condena”.

 

Neste domingo a primeira leitura nos apresenta a figura de Abraão, o modelo do crente que soube escutar a voz do Senhor. Diante do chamado do Senhor, ele deixou a própria terra, sustentado apenas pela fé e pela obediência.  Como Abraão, também nós somos convidados a escutar e confiar nos desígnios de Deus.  E nesta primeira Leitura temos a narração da aliança estabelecida por Deus com Abraão, que responde “esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18); por este motivo, ele torna-se pai na fé de todos os crentes, porque acreditou no Senhor.

 

O tempo da Quaresma nos é oferecido, precisamente, como uma ocasião para nos colocarmos mais na escuta da Palavra de Deus que se fez carne. Possamos aproveitar para aprofundar o nosso silêncio interior, tornando-nos mais atentos ao que Jesus quer dizer a cada um de nós. E a exemplo de Cristo, que se colocava frequentemente em oração, sejamos também nós convidados a viver o itinerário quaresmal em espírito de oração e de penitência, a fim de nos preparar desde agora para receber a luz divina que resplandecerá na Páscoa.

 

E Maria, a Virgem santa de Nazaré, que como Abraão esperou contra toda a esperança, nos ajude a reconhecer em Jesus o Filho de Deus e o Senhor da nossa vida.  E que esta quaresma possa constituir para cada um de nós um momento privilegiado de graça e possa trazer abundantes frutos de bem.   Assim seja.

 

  1. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ