O diálogo de Jesus com Pedro

 

Jo 21, 1-19

 

Meus caros irmãos e irmãs,

 
O Evangelho deste domingo nos apresenta uma nova aparição de Jesus ressuscitado.  Fundamentar a fé dos discípulos é o objetivo de tais aparições.  Mas hoje começa também a despontar o tema do amor, em concreto, do amor a Jesus.  Fé e amor, crer e amar são duas dimensões de uma mesma e única realidade: a vida com Cristo por meio do Espírito Santo.

 
Com as palavras de Pedro “Eu vou pescar”.  E com o assentimento dos demais: “Nós vamos contigo” (v. 3), indica que após a morte e ressurreição de Jesus Cristo, a vida retomou para eles ao seu ritmo anterior. Deveriam voltar à antiga profissão de pescadores, retomando os barcos e as redes, mesmo se a vida já não era como antes.

 
A pesca é feita durante a noite.  Eles buscaram na noite, e nada pescaram.  A noite é sinônimo de trevas, de escuridão, de ausência de luz.  Para os israelitas o mar simboliza lugar de escravidão e sofrimento, o símbolo de todas as forças inimigas do homem.  Jesus já havia dito aos discípulos que “eles seriam pescadores de homens”.  A missão deles seria a de enfrentar as ondas do mar para pescar os homens, para os tirar das águas salgadas e os livrar de todas as situações negativas que os impedem de viver.

 
Jesus aparece pela manhã, dissipando a escuridão. Ele mesmo já teria dito: “Eu estou no mundo, sou a luz do mundo” (Jo 9,4-5).  Normalmente, os peixes caem na rede durante a noite, quando é escuro, e não de manhã, quando a água já é transparente. Contudo, o resultado da ação dos discípulos, durante a noite, sem Jesus, é um fracasso, o que faz lembrar uma outra frase dita por Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).

 
O amanhecer coincide com a presença de Jesus. Jesus não está com eles no barco. Ele não acompanha os discípulos na pesca; a sua ação no mundo é exercida por meio dos discípulos.  Concentrados no seu esforço inútil, os discípulos nem reconhecem Jesus quando ele se apresenta. O grupo está desorientado e decepcionado pelo insucesso, posto em evidência pela pergunta de Jesus: “Tendes alguma coisa de comer?” (v. 5). Mas Jesus dá a eles as indicações: “Lançai a rede… e haveis de encontrar!” (v.6).  Apesar do momento inoportuno, por estar de manhã, momento em que os peixes retornam ao leito do mar, os discípulos confiaram nas palavras de Jesus e o resultado foi uma pesca milagrosamente abundante, a tal ponto que mal conseguiam arrastar a rede, devido à grande quantidade de peixes pescados (cf. v. 6).

 
O êxito da missão não se deve ao esforço humano, mas sim à presença viva e a Palavra do Senhor ressuscitado.   É, então, graças a um sinal que os discípulos reconhecem o Ressuscitado. Jesus Cristo não tem mais necessidade de dizer quem Ele é.  Eles sabem que Ele é o Senhor.   Os discípulos fazem, nesse dia, a experiência da prodigalidade do amor de Deus: não conseguem arrastar as redes, dada a quantidade de peixe. Fazem também a experiência da universalidade da salvação: havia 153 grandes peixes, número que evoca, segundo São Jerônimo, todas as espécies de peixes enumerados na época. Também a este número pode ser dada uma outra interpretação simbólica. O número 153 é resultante de 50 x 3 + 3.  Para os israelitas o número 50 indicava todo o povo; o número 3 significava a perfeição, a plenitude.  O sentido deste detalhe curioso está no fato de que a comunidade cristã levará em frente de modo pleno e total a sua missão de salvação.  Toda a humanidade é chamada a se libertar das águas impetuosas do mar através dos discípulos de Cristo, mas eles só poderão agir, tendo como guia a voz do Cristo Ressuscitado.

 
Os discípulos de Emaús reconhecem Jesus apenas na fração do pão. Os primeiros cristãos chamavam à Eucaristia a “fração do pão”. Mas Jesus oferece peixe. Sabemos que este se tornou bem cedo o símbolo de Cristo. Em grego, as primeiras letras da expressão “Jesus, Filho de Deus, Salvador” formam a palavra “peixe”, em grego: “ichtus”. Desde então, oferecendo-lhes peixe, Jesus ressuscitado diz aos discípulos que é verdadeiramente com Ele, o Filho de Deus, o único Salvador de todos os homens, que estarão doravante em comunhão, cada vez que partirem o pão eucarístico.

 
Em seguida Jesus come com os apóstolos o peixe assado nas brasas e, logo temos o diálogo entre Jesus e Pedro. Três perguntas: “Tu me amas?”; três respostas: “Tu sabes que te amo”. Após as respostas, Jesus confia a Pedro o pastoreio do seu rebanho, que só pode ser confiado a quem ama Jesus com o maior amor possível. Por isto diz a Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas!”. Com estas palavras, Jesus confere de fato a Pedro a tarefa de supremo e universal pastor do rebanho de Cristo. Confere a ele esse primado que lhe havia prometido quando disse: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 18-19).

 
O que mais comove nesta significativa página do Evangelho é que Jesus permanece fiel à promessa feita a Pedro, apesar da infidelidade de Pedro, que não havia cumprido a promessa feita a Jesus de não o trair jamais, ainda à custa da sua própria vida (cf. Mt 26,35).

 
No diálogo entre Jesus e Pedro, revela-se um jogo de verbos muito significativo. Em grego o verbo “philéo” expressa o amor de amizade, terno, mas não totalizante enquanto o verbo “agapáo” significa o amor sem reservas, total e incondicionado. Jesus pergunta a Pedro pela primeira vez: “Simão, filho de Jonas, tu me amas? Jesus usa o verbo “agapáo”, que quer dizer, com um amor total e incondicionado (cf. Jo 21,15). Antes da experiência da traição o Apóstolo teria certamente respondido: “Amo” “agapô”, ou seja, incondicionalmente”. Agora, que conheceu a amarga tristeza da infidelidade, o drama da própria debilidade, diz apenas: “Senhor, tu sabes que sou deveras teu amigo”, ou seja, “Tu sabes que te amo com o meu pobre amor humano”. Cristo insiste: “Simão, filho de Jonas, tu me amas com este amor total que eu quero?”. E Pedro repete a resposta do seu humilde amor humano: “Kyrie, philéo”, que em outras palavras seria: “Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo”.

 
Pela terceira vez Jesus pergunta a Simão, porém agora mudando o verbo para “philéo”. Simão Pedro compreende que para Jesus é suficiente o seu pobre amor, o único de que é capaz, e contudo sente-se entristecido porque o Senhor teve que lhe falar daquele modo. Por isso, responde: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo! (philéo)”.  Na verdade, Jesus se adaptou a Pedro, e não Pedro a Jesus! É precisamente esta adaptação divina que dá esperança ao discípulo, que conheceu o sofrimento da infidelidade. Surge daqui a confiança que o torna capaz do seguimento até ao fim, por isto conclui dizendo a Pedro: “Segue-me!” (Jo 21,19).

 
Podemos ainda destacar no texto evangélico deste domingo dois verbos: “pescar” e “apascentar”.  Trata-se de duas operações que aparecem sucessivas no relato apresentado. A missão de Pedro é apascentar aqueles que pescou, ou seja, deve nutrir com a doutrina e os sacramentos aqueles que se converteram ao Evangelho.  E como Pedro, todos os discípulos são chamados a “apascentar” as ovelhas e os cordeiros de Cristo, sendo, naturalmente, os primeiros e os mais generosos nesta doação de si mesmos.

 
O diálogo entre Jesus e Pedro deve ser ainda trasladado à vida de cada um de nós. Ao interrogar Pedro: “Tu me amas?”, Jesus interroga também cada um de nós.  E qual é a nossa resposta?  Hoje ele também nos convida a amá-lo, ele que em sua paixão e morte, demonstrou a prova de seu amor por cada um de nós. Que saibamos corresponder com generosidade a este seu amor.

 
E possamos acolher com alegria o mandato que o Cristo mesmo hoje nos faz: “Lançai a rede…” (v. 6). Este mandato de Jesus foi docilmente acolhido pelos santos que no mundo foram anunciadores da Ressurreição do Senhor e deram um testemunho válido de vida, mediante sinais do perdão e do amor fraterno, que é o testemunho mais próximo que nós também podemos dar, de que Jesus está vivo e ressuscitou para estar conosco.  Assim seja.

 
D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Diretor da Faculdade de São Bento/RJ