Solenidade de Cristo, Rei do Universo- Jo 18,33-37

Caros irmãos e irmãs

Celebramos neste último domingo do tempo comum a solenidade de Cristo Rei do Universo. A Palavra de Deus que nos é proposta para este encerramento do ano litúrgico nos convida a tomar consciência da realeza de Jesus. Deixa claro, no entanto, que essa realeza não pode ser entendida à maneira dos reis deste mundo: é uma realeza que se concretiza de acordo com a vontade de Deus.

O texto evangélico nos apresenta uma cena do processo de Jesus diante de Pilatos, o governador romano da Judeia, que desempenhou o seu ofício entre os anos 26 e 36. O doloroso interrogatório começa com uma pergunta de Pilatos: “Tu és o Rei dos judeus?” (v. 33).  Esta pergunta revela qual era a acusação apresentada pelas autoridades judaicas contra Jesus, que responde a esta pergunta de Pilatos dizendo: “Tu o dizes, eu sou Rei”.  E acrescenta: “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (v. 37). Com esta resposta, Jesus se apresenta como o Messias que Israel esperava e confirma a sua identidade de rei (v. 36).

Jesus reforçou essa resposta, citando e aplicando a si mesmo aquilo que o profeta Daniel havia dito do Filho do homem que vem entre as nuvens do céu e recebe o reino que nunca passará, como consta na primeira leitura: “Eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença. Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá” (Dn 7,13-14). Uma visão grandiosa na qual Cristo aparece dentro da história e acima dela, temporal e eterno.  São Palavras que preveem um rei que domina de mar a mar até aos confins da terra, com um poder absoluto, que nunca será destruído.  Esta visão do profeta Daniel é esclarecida e realiza-se em Cristo, o verdadeiro Messias.

No texto evangélico, observa-se ainda que Pilatos não consegue entender que um rei renuncie ao poder e à força e fundamente a sua realeza no amor e na doação da própria vida. Jesus confirma a sua realeza e define o sentido e o conteúdo do seu reinado: “Dar testemunho da verdade” (v. 37). Para o Evangelista São João, a “verdade” é a realidade de Deus. Essa “verdade” manifesta-se nos gestos de Jesus, nas suas palavras, nas suas atitudes e, de forma especial, no seu amor vivido até ao extremo do dom da vida. Essa verdade opõe-se à mentira, que é o egoísmo e o pecado, ou seja, tudo aquilo que empalidece a vida do homem e o impede de ser feliz.

Os reis deste mundo apoiam-se na força das armas e impõem aos outros o seu domínio e a sua autoridade; a realeza desses reis baseia-se no poder e na ambição, podendo gerar injustiça e sofrimento. Mas, Jesus é um rei diferente, é prisioneiro, indefeso e abandonado pelo povo. Ele não se impõe pela força, mas veio ao mundo para amar a todos e a todos servir, em total conformidade com a vontade do Pai.  A realeza de Jesus procede de Deus. Na narração da Paixão, pode-se observar como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam num reino político, instaurado mesmo com o uso da força (cf. Jo 18,10-11).

O drama que se desenrola no palácio de Pilatos é o drama da humanidade que procura onde está a verdade. Jesus disse inicialmente: “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade” (v.37). A verdade só pode ser encontrada em Jesus, pois só ele é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).

Mas o desenrolar deste interrogatório entre Jesus e Pilatos chega a uma conclusão dolorosa e humilhante. Jesus foi preso e é condenado ao suplício da cruz, onde encontramos o centro desse percurso de revelação da realeza de Jesus Cristo, que se concretiza no mistério da sua morte e ressurreição. Jesus entregou-se livremente à sua paixão em total obediência à vontade do Pai.

No momento em que Jesus foi pregado na cruz, os sacerdotes e os escribas zombavam e diziam: “Salva-te a ti mesmo, desce da Cruz!” (Mc 15,30). Outros diziam: “Salva-te a ti mesmo!”.  Se Jesus tivesse descido da Cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo; ao contrário, ele não pode salvar-se a si mesmo precisamente para poder salvar os outros, porque entregou a sua vida por nós, por cada um de nós.

E quem compreendeu este reinado de Cristo foi um dos malfeitores que estava também pregado na cruz, conhecido como o “bom ladrão”, que tradição o identificou como São Dimas.  Ele suplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!” (Lc 23, 42).  Este bom ladrão soube aproveitar o momento e ganhou o reino dos céus.

E foi oferecendo-se a si mesmo no sacrifício de expiação que Jesus se torna o Rei do Universo, como ele mesmo declarará ao aparecer aos Apóstolos depois da ressurreição: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra” (Mt 28, 18).  Seu poder é o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada. Cristo veio para “dar testemunho da verdade” (Jo 18, 37), como declarou diante de Pilatos. Escolher Cristo nos assegura aquela paz e alegria que só ele pode dar.

Cristo é a verdade. E esta verdade é Cristo. A verdade de Cristo verificou-se na vida dos santos de todos os séculos. Os santos constituem o grande vestígio de luz na história, que assegura: Esta é a vida, este é o caminho, esta é a verdade.  Assim aconteceu com São Paulo, com São Bento, com São Francisco de Assis e muitos outros santos. Eles ouviram no coração a voz de Cristo. Compreenderam que Cristo os chamava para uma missão. Tal é a consequência deste primeiro encontro com a voz de Cristo.

E que possamos pedir como o bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!”.  Também nós devemos dizer todos os dias, como repetimos na oração do Pai Nosso: “Venha a nós o vosso reino”.  E que possamos seguir Jesus, nosso Rei, e dar testemunho dele com toda a nossa existência.

Peçamos também a intercessão da Virgem de Nazaré, a humilde serva do Senhor, que no momento da anunciação, ouviu do Anjo Gabriel, que o seu Filho herdaria o trono de Davi e o seu reinado não teria fim (cf. Lc 1,32-33). Ela acreditou nestas palavras antes mesmo de dá-lo ao mundo. Que ela, coroada como a Rainha do céu e da terra, interceda por cada um de nós, para que o amor de Deus possa reinar também em nossos corações e que saibamos seguir Jesus, nosso Rei, como ela fez, e dar testemunho dele ao mundo com toda a nossa existência. Assim seja.

Anselmo Chagas de Paiva, OSB

Mosteiro de São Bento/RJ