A ressurreição do filho da viúva de Naim

Lc 7,11-17

Caros irmãos e irmãs,

Para este domingo o relato evangélico nos apresenta o episódio da ressurreição do filho de uma viúva, em paralelismo com o da primeira leitura (cf. 1Rs 17,17-24), que nos narra a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, sendo este, um dos milagres atribuídos a Elias, que  ressalta fundamentalmente  o Senhor como a única fonte da vida e da fertilidade.

Segundo os relatos bíblicos, ao longo da sua vida Jesus operou três ressurreições: a da filha de Jairo (cf. Mc 5, 35-42); a de  Lázaro, quatro dias após seu óbito (cf. Jo 11,43-44) e este, do filho da viúva de Naim.  Em todos estes três momentos Jesus devolve à vida, cada um deles, pela força da sua Palavra: “Menina, Eu te ordeno, levanta-te!” (Mc 5, 41); No relato deste domingo, Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” (Lc 7, 14) e no na ressurreição de Lázaro Jesus diz: “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11, 43).

Tanto na primeira leitura como no evangelho, encontramos uma mulher viúva que perde o único filho e um homem de Deus que lhe restitui a vida.  Ao mesmo tempo em que encontramos semelhanças nas duas leituras, encontramos também diferenças.  Elias é um profeta e, para conseguir o milagre, precisa invocar, em oração, o Deus da vida, enquanto Jesus é mais do que um profeta.  Ele é o próprio Senhor da vida.

Inicialmente, o texto nos mostra Jesus caminhando em direção a uma cidade chamada Naim.  Trata-se de uma pequena aldeia da Galileia, localizada a cerca de oito horas de Cafarnaum, não muito distante de Nazaré. Jesus está na companhia dos seus discípulos  e de uma numerosa multidão (v. 11).  Eles testemunham o fato.  Quando Jesus se aproxima da cidade, ele encontra a procissão de um funeral levando o corpo de um homem no esquife. Na Palestina, os enterros eram feitos na parte da tarde, do mesmo dia da morte e fora dos muros da cidade. Os mortos eram sepultados em um esquife aberto e cobria-se o corpo apenas com um lençol de linho.

Jesus está nas proximidades de Naim e é precisamente neste momento que está sendo feito o funeral, quando o jovem é levado à sepultura, identificado apenas como o filho único de uma mulher viúva.  O olhar de Jesus fixa imediatamente na direção da mãe que chora. Diz o evangelista São Lucas: “Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela” (v. 13).  Chama a nossa atenção o título “Senhor”, usado pelo Evangelista.  No Antigo Testamento, este título era reservado unicamente a Deus e aqui São Lucas aplica a Jesus. No original grego a palavra “Kyrios”, traduzida como “Senhor”, para fazer uma referência a Cristo, quer ressaltar que Jesus, o Deus da vida, veio para estar entre os homens e a todos libertar do poder da morte.

O texto também nos diz que Jesus sentiu compaixão para com ela (v. 13). Este “compadecer-se” de Jesus indica o sentimento de amor de Deus para com a humanidade.  É o sentimento de Cristo como a capacidade de sofrer conosco, de estar próximo dos nossos sofrimentos e fazê-los seus.  Jesus sabia bem o que significava ser viúva naquele tempo, quando as mães que ficavam sozinhas dependiam da ajuda e da caridade de outros.   E a morte do filho significava a perda do único meio de sustento da mulher.

O jovem morto é seu filho e ela está perto dele. O amor de uma mãe pelos filhos é compreensível em qualquer cultura. O cortejo conduz um jovem morto para a sepultura e o seu enterro tem, no seu âmbito, a dor de uma mãe que chora a morte do seu filho.  É a dor que se manifesta nas lágrimas, na tristeza e no desespero.  O séquito caminha a passos lentos em direção ao túmulo.

Na primeira leitura vemos que diante do filho morto, a mãe perde todas as esperanças, sente-se derrotada, escarnecida pela morte.  Em Naim, quando Jesus encontra a mulher a chorar no portão da cidade, ele se compadece. É notável que a compaixão não é pelo morto, mas pela mãe, que foi deixada para trás. Que ficou sozinha e desamparada em seu pranto.

O texto nos diz que Jesus viu a viúva: “Ao vê-la” (v. 13), ele sentiu compaixão e disse: “Não chores!” Jesus certamente a reconheceu, pois era costume naquela época um traje especial para as viúvas, apropriado à sua condição social (cf. Gn 38, 14-19).  Elas vestiam-se de saco, usava um manto, não se penteavam e nem ungiam o rosto (cf. Jt 10, 3-4). A atitude de Jesus surge de um sentimento natural como homem, mas também como o Senhor da vida (cf. At 3, 15). Ninguém lhe pede nada. Não se exige a fé.  É algo espontâneo que brota da própria misericórdia do Senhor que tem compaixão dos que sofrem.

Jesus compreende o sentimento daquela mãe, sem o marido e agora também sem o filho.  Entende o significado das suas lágrimas e se comove.  Ele dirige àquela mãe uma palavra de consolo “Não chores!” (v. 13).   Ao dizer “Não chores”, usa o verbo no presente do imperativo para indicar que ela deve parar de chorar porque não vai existir mais motivo para esse lamento e essa angústia. Jesus está perto. Ela não está sozinha.  É uma palavra de consolação.

Em seguida Jesus toca no esquife, onde está o cadáver (v. 14). Conforme está escrito no Antigo Testamento, este gesto provocava uma grande impureza (cf. Nm 19, 6), mas Jesus não se mostra preocupado com estas tradições dos antigos. A morte, para ele, não tem nada de impuro. Se a morte é um nascimento, se marca a entrada para o mundo de Deus, não pode ser causa de impureza. A grande novidade que ele trouxe para nós é esta: a morte não é o fim; a sua ressurreição transformou a morte em um novo nascimento.

As palavras pronunciadas por Jesus ao morto são estas: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te” (v. 14).  O resultado dessas palavras é descrito no v. 15: “E o morto sentou-se e começou a falar”.  Jesus entrega, então, o filho, à sua mãe.

Com esta ação, Jesus é apresentado como o Senhor que tem poder e autoridade sobre a vida e a morte e o povo reconhece a grandeza de Jesus, mas as pessoas que testemunharam o fato não louvam a Deus porque o jovem voltou à vida, mas porque o Senhor suscitou um profeta,  enviou alguém para dar uma resposta ao sofrimento da humanidade.  No evangelho temos uma ressurreição onde a vida é restituída.  A misericórdia de Deus dá a vida ao homem e o faz vencer a morte.

Perante estes gestos de misericórdia do Senhor, saibamos também nós reconhecer a chegada Deus misericordioso a nos tocar.  Que ele possa nos despertar do sono da morte, das dificuldades, do desânimo, para nos conceder novamente a vida. Que ele nos ajude a vencer também o pecado, o erro. Que ele nos faça também levantar para uma vida nova.
Dirijamo-nos também à Virgem Maria, ao seu coração imaculado, coração de mãe, que partilhou ao máximo a compaixão de Deus, especialmente na paixão e na morte de Jesus.  Confiemos no auxílio da Virgem de Nazaré, para que, com a sua intercessão, possamos revigorar a nossa fé e a nossa esperança em Jesus, especialmente nos momentos de provações e de dificuldades. Assim seja.

D. Anselmo Chagas de Paiva, OSB
Mosteiro de São Bento/RJ