Uma aventura divina

Há tempo comentou-se que “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, é a melhor literatura inglesa do século XX. Entre nós, na minha lista de boa literatura é também uma das obras que ocupa um lugar privilegiado. O livro, como se sabe, está publicado em três partes, cada uma delas bem voluminosas e tituladas, respectivamente, “a comunidade do anel”, “as duas torres” e “o retorno do rei”. Frodo tem como missão destruir o anel do poderoso senhor da escuridão que mora na terra de Mordor. No livro fica bem claro que Frodo, ainda que seja o escolhido para essa missão, não está obrigado; ele é livre para realizá-la ou não. A resposta do personagem citado é positiva, ainda que sofra muito, deixe a comodidade da sua terra e parta com poucas coisas. Mas a sua missão salvará o seu povoado, Bolsão, cujos habitantes nem sempre são simpáticos. Muitos deles desconhecerão por completo as façanhas do pequeno hobbit.

Antes de sair do seu povoado, Frodo diz: “tenho que sair de Bolsão, abandonar a comarca, deixar tudo e ir… Eu gostaria de salvar a minha comarca se pudesse, ainda que alguma vez eu chegasse a pensar que os habitantes eram tão estúpidos que um terremoto ou uma invasão de dragões poderia acabar com todos, e seria um bem para eles. Mas agora eu não sinto a mesma coisa. Ao contrario, sinto que enquanto a comarca esteja a salvo, em paz e tranquila, as minhas peregrinações far-se-ão mais suportáveis. Saberei que nalguma parte há algo firme, ainda que eu nunca volte a pisá-lo”.

Mas, o que tem a ver tudo isso com o Batismo do Senhor? Em principio, nada. No entanto, depois de escutar as palavras de Jesus a João e que dizem que “convém que cumpramos a justiça completa” (Mt 3,15), a historinha anterior começa a ser iluminada. A justiça, na Sagrada Escritura, é o cumprimento dos desígnios de Deus em Jesus Cristo. O plano de Deus para o mundo, para a humanidade e para cada ser humano em particular é um plano salvador. É impressionante: ainda que o mundo se posicione contra Deus, que a história mostre e demonstre que os homens desprezaram os planos de Deus e que nós pirracemos o Senhor e não o queiramos, Ele não responde aniquilando-nos, mas amando-nos, buscando-nos e dando-nos o valioso e incalculável presente da salvação, que é a nossa santificação total. O batismo de Jesus foi útil para nós: Jesus nos estava salvado enquanto era batizado. O batismo do Senhor foi uma poderosa epifania, manifestação, do Filho de Deus e o começo da sua vida pública.

E o que tem a ver tudo isso com Frodo e “O Senhor dos anéis”? É simples! Frodo tinha uma missão a cumprir em favor de um povo que ele mesmo julgava que nem sempre era grato e simpático. Deus também. E nós também. Não obstante, eu não gostaria de comparar a Frodo com Jesus, mas conosco. Nós recebemos a missão e às vezes nos parece tão pesada que por um momento poderíamos pensar que é mais fácil que venha um terremoto ou alguns dragões para acabar com tudo. Não nos assustemos, há precedentes. Também os filhos do trovão disseram um dia ao Senhor em contra dum povoado de samaritanos: “Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?” (Lc 9,54). Logicamente, Jesus os colocou no seu lugar e proclamou a salvação que ele veio trazer à terra.

A missão tem as suas dificuldades, incompreensões e ingratidões. Contudo, é tão belo que nós descobrimos a cada momento que vale a pena lutar para destruir o poder da escuridão com a luz de Cristo que nós irradiamos. Para isso, vamos pedir que sobre nós, mais uma vez, desça o Espírito Santo e que evangelizemos no poder do Espírito. No dia de hoje, recordemos também o nosso batismo, demos graças a Deus por essa santificação poderosíssima que aconteceu no nosso ser: que cada dia haja uma nova infusão do Espírito Santo em nossa alma. No dia de hoje, saibamos apreciar a beleza da vida em graça e odiemos cada vez mais o pecado, amando com o amor de Cristo a todas as pessoas, por mais pecadoras que pareçam. Olhemos para nós mesmos e supliquemos a misericórdia de Deus porque nem sempre soubemos corresponder a graça do batismo, nem sempre fomos consequentes com a nossa vocação à santidade e ao apostolado que deriva do Batismo e nem sempre fomos fiéis à missão.

A justiça tem que ser cumprida, ou seja, todos podem ser salvos. Vale a pena arriscar tudo nessa aventura salvífica e emocionante.

Pe. Françoá Costa