Prudência

Ao escutar o Evangelho de hoje, pode-se perguntar: e “porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz” (Lc 16,8) se o Senhor nos mandou ser “prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10,16)? Ao citar essa passagem, outra pergunta se impõe à nossa consideração: por que as serpentes servem como modelo de prudência? Quiçá porque, como se diz, elas não se expõem para atacar. Já no livro do Gênesis se dizia que “a serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado” (Gn 3,1). Neste capítulo também se pode ver a maneira espertalhona que a serpente, símbolo do diabo nesse caso, teve para levar os nossos primeiros pais ao pecado que nos trouxe a ruína espiritual.

Mas, cuidado, prudência e astúcia são duas realidades distintas, ainda que, à primeira vista, poderíamos confundi-las. A astúcia, na verdade, é uma falsa prudência, porque está penetrada de simulação e interesse. A prudência, ao contrário, é uma virtude que – segundo a maneira de pensar de Santo Tomás de Aquino – nos dá uma visão clara das coisas, fazendo com que valorizemos mais a verdade que nelas há que as nossas tendências apetitivas. Um exemplo das mais variadas manifestações da virtude da prudência é – como dizia um santo – não expor-se como católico quando está de moda ser católico e, ao contrário, manifestar-se católico quando todos se acovardam. Pensemos, por um momento, em qual dessas duas situações nos encontramos.

A prudência é uma virtude cardeal, ou seja, uma das quatro virtudes ao redor das quais giram os demais valores que constroem uma vida humana na verdade e na bondade e com uma unidade sem fissuras. Somente a pessoa prudente pode ser ao mesmo tempo forte, temperada e justa. Isso é assim porque a prudência nos ajuda a aplicar o conhecimento do bem que temos às nossas ações concretas. A primazia da prudência entre as virtudes cardeais é porque – como disse Josef Pieper – a realização do bem exige um conhecimento da verdade.

Recta ratio agibilium – a definição é de Aristóteles –, a prudência é a reta razão do agir, isto é, o conhecimento certo sobre a realidade que estamos dispostos a pôr em prática. Como se pode ver, essa virtude nos afasta de uma espécie de “moral do dever”, que não é a moral cristã. A questão não o que “eu devo” fazer em cada momento, isso é secundário, mas “fazer aquilo que está de acordo com o meu ser humano e cristão, ou seja, fazer aquilo que está de acordo com a verdade conhecida”. Isso exige – como dizia Santo Tomás de Aquino, aprender da própria experiência (memoria do passado); pedir conselho; pensar com calma (reflexão); decidir-se (a indecisão, além de gerar perda de tempo, nos leva a cometer muitas imprudências. Tendo os elementos necessários, se decide, sem ficar dando voltas e mais voltas ao tema); perceber as circunstâncias nas quais nos encontramos (circunspecção) para ver se é conveniente ou não atuar dessa maneira ou de outra; cautela (segundo o Aurélio, é o cuidado por evitar um mal, mas é algo mais: significa conjugar a bondade com a prudência); disposição e prontidão para resolver aqui e agora as situações urgentes (sagacidade); capacidade de tomar providências (prever um pouco o que poderia acontecer e agir em consequência, por exemplo, se eu sei que tenho uma prova no final do mês posso começar a tomar providência estudando).

Como é importante conjugar a prudência com a bondade e a simplicidade. Sem elas, a prudência se transformaria em astucia e já não seria uma disposição boa. Por outro lado, bondade sem prudência é “ser bonzinho” no sentido de “tolo” e simplicidade sem prudência é “ser simples” no sentido pejorativo da palavra. Um cristão tem que fazer de tudo para não ser tolo nem simplório.

Nossa Senhora é chamada na Ladainha de Virgo prudentissima, Virgem prudentíssima. Entre os vários aspectos que se poderiam destacar na prudência de Nossa Senhora, chama a nossa atenção o fato de que o adjetivo “prudentíssima” qualifica o substantivo “Virgem”. Com certeza, “prudentíssima” poderia qualificar substantivos como “Mãe”, “Rainha”, etc. Eu acho que não seria um exagero pregar sobre a virtude da santa pureza, pensando nos adjetivos que a Virgem Maria recebe na Ladainha, e um das qualidades da pureza de Nossa Senhora é a prudência. Será que isso não nos está dizendo algo importante para nós que vivemos num mundo tão hedonista e tão erotizado? Prudência na vivência de todas as virtudes, uma das quais, a pureza.

Pe. Françoá Costa