Pecado e salvação


Você ainda se lembra daquela tragédia acontecida no Haiti no dia 12 de janeiro de 2010? Suponho que ela já esteja bem no fundo do baú da história, provavelmente bem esquecida por alguns magnatas da sociedade que bem poderiam continuar ajudando a esse pobre país, não só dando-lhes coisas, mas capacitando-lhes para que eles mesmos construam uma nova etapa de sua história. O Evangelho de hoje ajudou-me a lembrar desse fato terrível e a parafraseá-lo da seguinte maneira: Pensais vós que os haitianos foram maiores pecadores que todos vós por causa dessa tragédia? Eu vos digo que não. Jesus Cristo não quis associar os desastres, as tragédias, as crises econômicas e a morte dos inocentes ao pecado, porém, ao não associá-lo não nega que todos somos pecadores, nem exclui que o pecado sempre leva às tragédias, e a maior delas é estar longe de Deus!

Falar do pecado hoje em dia não está de moda. Em muitos ambientes perdeu-se quase totalmente o sentido do pecado. Os valores outrora desejados já não o são: a honra, a fidelidade, a lealdade à palavra dada, a castidade, o pudor, a sobriedade. Frequentemente o cristão parece ser alguém digno de compaixão: na sociedade atual, desenvolvida, cheia de meios técnicos, com respostas para quase todos os interrogantes, com a ampla possibilidade de desfrutar da vida e dos prazeres, existem ainda alguns que vivem o desprendimento dos bens materiais, a temperança, a honestidade, comprometem a liberdade “para sempre” no casamento ou no sacerdócio! E parece que a crise se aproxima: diante da sorte e aparente felicidade dos que não amam a Deus, realmente vale a pena seguir lutando pela santidade?

Por outro lado, não são esses valores humano-cristãos que explicam o que é o cristianismo no seu sentido mais profundo. A Igreja não foi fundada para oferecer uma ética, uma solução política ou aos problemas sociais. Ela recebeu a salvação de Jesus Cristo e tem como missão fazer com que todas as pessoas participem, em Cristo, dos bens da casa do Pai: que todos se salvem e cheguem aos céus! O cristianismo retira a auto-suficiência, filha do pecado original, que todo ser humano leva dentro de si. Quando uma pessoa se encontra com Deus e com a beleza de sua graça percebe que é uma criatura e que está afeada pelo pecado. As primeiras atitudes do ser humano diante da divindade são: adoração ao reconhecer-se criatura, silêncio diante da realidade inexpressável e contemplada, humilhação de saber-se um pecador feio. Em seguida, o bom Deus infunde confiança e amor em nós ao dizer-nos aquele suave e firme não temais! Chegou a salvação! Eu sou a tua salvação!

O pecado é feio, muito feio! Trata-se de uma realidade sem entidade ao ser a carência da graça, da beleza e da ordem de Deus. O Cura d’Ars dizia que o pecado é “o verdugo de Deus e o assassino da alma” porque é uma ofensa a Deus que mata a vida da alma: um verdadeiro desastre! Santa Teresa de Jesus, que recebeu a graça de ver como é o estado de uma alma em pecado mortal, ficou tão horrorizada que passaria toda a vida em trabalhos e dificuldades para afastar todo e qualquer pecado mortal. E o que é um pecado mortal? É um pensamento, palavra, omissão ou ação que por sua gravidade e ao ser realizado com plena advertência e pleno consentimento ofende gravemente a Deus e retira a vida da graça deixando o pecador espiritualmente morto. Todo pecador é um morto vivo, está em estado de putrefação. Daí o fedor, a feiura e o estado lastimável da alma em pecado mortal. Parece-lhe um exagero essa maneira de pensar? Na verdade, eu lamento não poder descrever com um realismo ainda maior a desgraça (falta de graça) do pecado mortal!

E os pecados veniais? São aquelas feridas que não nos matam, mas diminuem a nossa saúde de tal maneira que facilitamos a entrada de um vírus mortal a qualquer momento. Hoje em dia está de moda a saúde preventiva: antes que chegue a doença, é preciso cuidar-se fazendo check-up, esportes, indo ao médico periodicamente etc. Seria bom aplicar essa técnica à nossa saúde espiritual. Sempre foi um lugar comum na teologia ascética e mística falar do aborrecimento que devemos ter por qualquer pecado venial deliberado, isto é, não querer realizar nenhum pecado, por venial que seja a sabendas. É impossível não cometer faltas e pecados nesta vida, como disse o Concilio de Trento (sessão VI, cânon 23, ano 1547), a não ser por um especial privilégio da graça de Deus. Sendo assim, é importante que pelo menos não os cometamos deliberadamente. De fato, há pessoas que dizem: “já que isso não é pecado mortal, eu vou fazer”. Quanta falta de amor de Deus há nessa afirmação!? É como se dissesse: “como xingar não mata a minha mãe, eu vou xingá-la”. Que absurdo! É preciso considerar que Deus nos salva e nos chama a ser santos, ele nos ama apaixonadamente. Também deseja ser correspondido por nós. Peçamos ao Senhor que aumente o nosso amor, pois quem ama não quer ofender a pessoa amada.


Pe. Françoá Costa