A surpresa: fruto da ação do Espírito

E se alguém lhe dissesse que você está errado há muitos séculos? No mínimo seria um exagero. Foi exatamente isso que um professor de moral costumava dizer aos seus alunos: “estamos equivocados há muitos séculos porque pensamos que a moral é fazer algumas coisas boas”. Eu imagino o olhar expectante dos alunos rumo ao professor experimentado, mas que talvez deixassem notar através das próprias feições alguma censura ao velho professor. Nesse momento, o catedrático continuava: “Não! A moral cristã não é de obrigação, mas uma moral de surpresa, moral de salvação”.

Moral de surpresa?! Eu estou de acordo. Efetivamente, Deus nos surpreende constantemente. A graça, a salvação, a ação do Espírito Santo nas pessoas é uma surpresa maravilhosa. Mas, será que dessa maneira não estaríamos suprimindo a colaboração humana na própria salvação? É muito conhecida aquela frase de S. Agostinho: “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. E é verdade! No entanto, não deixa de causar surpresa que nós possamos fazer obras que mereçam a salvação eterna. Essa afirmação já deixou a mais de uma pessoa deslumbrada, até mesmo escandalizada. Martinho Lutero aceitava que toda a obra da salvação é de Deus, mas se esquecia de que Deus, pela sua infinita bondade e generosidade, capacita o próprio ser humano para poder realizar ações meritórias.

Vejamos esse assunto com mais calma. Santo Irineu disse que Deus, no principio, plantou a vinha do gênero humano; amou muito a humanidade e se propôs estender sobre ela o seu Espírito e conferir-lhe a adoção filial. E esse plano de Deus cumpriu-se! Desta maneira, o Pai olha as obras daqueles que são os seus filhos por graça, aceitando-as, prévio auxilio de seu próprio poder, de Deus.

Uma ideia comum que aparece nos Santos Padres é a seguinte: assim como existe um único Deus, existe também uma única humanidade e uma única fraternidade humana. Assim como Deus é três Pessoas distintas, de maneira semelhante há variedade no gênero humano: as muitas pessoas humanas. Essa variedade não se opõe à unidade da humanidade. No entanto, esse projeto de unidade foi despedaçado pelo pecado logo nos inícios. Logicamente, assim como não se perdeu totalmente imagem de Deus com o pecado original, tampouco a unidade fundada nessa imagem. Não obstante, as relações do homem com Deus e do homem com os demais se viram mudadas a pior como fruto podre da desagregação que o homem experimentou dentro de si mesmo. O homem, segundo os Padres da Igreja, foi disperso em vários pedacinhos. A salvação de Cristo, nesse contexto, seria uma restauração, um recolher o homem disperso. Cristo é o homem singular, mas também é o homem universal, ou seja, leva em si toda a humanidade.

O ser humano, quando se encontrava disperso, e quando se encontra em pecado mortal, logicamente, não pode realizar obras meritórias. Mas quando se encontra em graça, restaurado pelo amor de Deus, as suas obras luzem diante do Senhor que as vê com agrado.

A solenidade de Pentecostes é a festa da unidade porque a obra da reunificação foi projetada pelo Pai, realizada em Cristo e atualizada pelo poder do Espírito Santo. Assim como o Espírito Santo, na intimidade da Trindade, é o “lugar” de encontro do Pai e do Filho, o Espírito Santo é quem nos une a Cristo. A salvação consiste, segundo S. Agostinho, em ser unidos ao Corpo de Cristo (cfr. In Ioann tract. 52, n.6; PL 35,1771) pela ação do Espírito Santo através da Palavra e dos Sacramentos.

Sendo a salvação uma ação do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é também uma realidade que não se dá se nós não a queremos. E para colaborar eficazmente na nossa própria salvação, e na dos outros, o melhor que podemos fazer é ser dóceis à ação do Espírito Santo nas nossas almas. Se perguntarmos qual é a atitude do cristão para com o Espírito Santo, a resposta deveria resumir-se nessa palavrinha: “docilidade”. Deixar Deus agir e surpreender-nos, deixar que ele organize a nossa vida, dê os critérios da nossa maneira de pensar e de querer. Não nos arrependeremos! O cristão tem somente duas opções: ou ser um homem espiritual ou ser um homem carnal, ou ser uma pessoa penetrada pela ação do Espírito Santo que tudo unifica ou ser uma pessoa dispersa pela carne e pelos diversos apetites desse mundo, ou ser filho de Deus na casa do Pai alimentando-se com os manjares da mesa da Palavra e do Corpo e Sangue do Senhor ou ser filho pródigo e contentar-se com o alimento dos porcos. Nós escolhemos! Mas é Deus quem nos salva!

Pe. Françoá Costa

 

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O Espírito Santo

 

Veni, Sancte Spiritus! – “Vinde, ó Santo Espírito Santo, e envia um raio celeste da tua luz”: trata-se de uma estrofe da sequência de Pentecostes, composta por John Dunstable (1380-1453) e que foi provavelmente entoada na coroação do rei inglês Henrique VI em Paris em 1431. Toda a Igreja clama: Vem, Espírito Santo! “Ó Deus (…) derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho” (oração coleta da Missa do dia de Pentecostes).

O Espírito Santo foi chamado alguma vez de “O Grande Desconhecido” (Caminho, 57). Isso me faz lembrar daquela passagem dos Atos dos Apóstolos na qual Paulo ao chegar a Éfeso e conversar com alguns discípulos lhes perguntou: “Recebestes o Espírito Santo, quando abraçastes a fé” Eles responderam da seguinte maneira: “Mas nem sequer ouvimos dizer que existe um Espírito Santo” (At 19,2). Dá a impressão muitas vezes que alguns cristãos nem sabem que existe um Espírito Santo. Quem é o Espírito Santo É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, “é o Senhor e Doador de Vida, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho recebe uma mesma adoração e glória e que falou pelos profetas” – como dizemos no Credo. O Espírito Santo é Deus como é Deus o Pai e o Filho. Ele é o Consolador enviado por Cristo para comunicar-nos a vida divina. É ele quem nos introduz no Mistério de Cristo, é ele quem nos dá a graça e as virtudes da fé, da esperança e da caridade, os dons e os frutos. Quem é o Espírito Santo É aquele que mora na sua alma em graça, o doce hóspede da alma, foi ele que fez de você o templo de Deus, filho de Deus, membro da Igreja, quem deu a você a salvação, a justificação, a vida eterna. “Desde o nascimento da Igreja, é ele quem dá a todos os povos, o conhecimento do verdadeiro Deus; e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas” (prefácio de Pentecostes).

Não podemos ignorar o Espírito Santo e seu poder. Quando o ele vem habitar em nós, vem com o Pai e com o Filho. Santa Teresa conta que, ao considerar certa vez a presença das Três divinas Pessoas na sua alma, “estava espantada de ver tanta majestade em coisa tão baixa como é a minha alma”, e então o Senhor disse-lhe: “Não é baixa, minha filha, pois está feita à minha imagem”.

Nós fomos feitos à imagem e semelhança de Deus. Ele quis que participássemos da sua natureza divina. É pelo Espírito Santo que nós recebemos essa participação. “Como não dar graças a Deus pelos prodígios que o Espírito não cessou de realizar nestes dois milênios de vida cristã? O evento de graça do Pentecostes tem, com efeito, continuado a produzir os seus maravilhosos frutos, suscitando em toda a parte ardor apostólico, desejo de contemplação, empenho em amar e servir com total dedicação a Deus e aos irmãos. Ainda hoje o Espírito alimenta na Igreja gestos pequenos e grandes de perdão e de profecia” (João Paulo II, Homilia do Domingo de Pentecostes de 1998).

Pentecostes era uma festa celebrada pelos judeus cinquenta dias depois da Páscoa. Inicialmente, era uma festa na qual se dava graças a Deus pela colheita da cevada e do trigo, uma festa agrícola. Já no século I, porém, tornou-se a festa que celebrava a aliança (o dom da lei e a constituição do Povo de Deus). Cinquenta dias depois da Páscoa, os discípulos de Cristo recebem o Espírito Santo, a lei na nova aliança no sangue de Jesus. O Espírito Santo constituiu assim a nova comunidade do Povo de Deus.

Nessa comunidade de fé e de salvação, a Igreja, todos devem estar unidos em Cristo e na força do Espírito Santo. As línguas de Pentecostes significam essa unidade do Povo de Deus. Pentecostes é, então, o reverso de Babel (cf. Gn 11,1-9); em Babel houve dispersão, em Pentecostes, a unidade. O Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho, é também amor entre nós. Lembremo-nos que é sempre o amor que une os corações. O amor, por ser conhecido propriamente somente pelos que se amam, é sempre muito discreto. Daí a discrição eficaz do Espírito Santo: sua missão é levar a Palavra de Jesus a todos; auxiliar a Igreja para que anuncie destemidamente a Palavra da salvação, Jesus Cristo; introduzir os seres humanos nas profundezas da graça através dos sacramentos. Isso condiz com o Espírito Santo que é amor, já que o autêntico amor sempre pensa mais no outro que em si mesmo.

Os membros da Igreja devem estar unidos. Hoje, ao terminar a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, façamos o propósito de continuar rezando por essa intenção de Cristo: “que todos sejam um” (Jo 17,21). Todos nós, discípulos de Cristo, precisamos – é importante para nós e para a evangelização – viver bem unidos: uma só fé, os mesmos sacramentos, um só governo: o do Papa e o dos Bispos em comunhão com ele. A divisão é vergonhosa para nós. “Celebrai, pois, este dia como membros do único corpo de Cristo. E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorporados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro. (…) Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre seus filhos” (Dos Sermões de um Autor africano anônimo do séc.VI). Bento XVI destacava, ao terminar a Semana pela unidade do ano 2006, que não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. Como é importante que nos convertamos e que estejamos unidos para ajudar os demais na conversão e na unidade.

O Espírito Santo é simbolizado tanto pelo fogo – “o fogo simboliza a energia transformadora do Espírito Santo” (Cat. 696) – como pela água, que significa “o nascimento e a fecundidade da vida dada no Espírito Santo” (Id.). Nós experimentamos a água e o fogo, ao mesmo tempo. Nascemos da água e do Espírito no momento do nosso Batismo (cf. Jo 3,5), a partir daí o Espírito Santo começa umas ações muito especiais em nós que vai transformando-nos mais e mais. São Basílio também nos fala da importância de estar com o Espírito Santo, de que o Espírito Santo esteja em nós: “Por estarmos em comunhão com ele, o Espírito Santo, torna-nos espirituais, recoloca-nos no Paraíso, reconduz-nos ao Reino dos céus e à adoção filial, dá-nos a confiança de chamarmos Deus de Pai e de participarmos na graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz e de termos parte na vida eterna” (“Sobre o Espírito Santo”, 15,36, in Cat. 736). Peçamos nós também, em união com toda a Igreja e com Maria, Mãe da Igreja: Vinde Espírito Santo!

 

Pe. Françoá Costa