RITOS INICIAIS

 

Salmo 90, 15-16

ANTÍFONA DE ENTRADA: Quando me invocar, hei-de atendê-lo; hei-de libertá-lo e dar-lhe glória. Favorecê-lo-ei com longa vida e lhe mostrarei a minha salvação.

 

Não se diz o Glória.

 

Introdução ao espírito da Celebração

 

Caríssimos, sede bem-vindos a esta celebração do 1º Domingo da Quaresma.

Hoje, a Palavra de Deus convida-nos a vencer todas as dificuldades que nos afastam do caminho do bem.

São as experiências mais profundas do ser humano; são as experiências cruciais na vida de uma pessoa ou de um povo; são as experiências que decidem a vida e lhe dão sentido; são as experiências históricas e profundamente religiosas as que neste dia solicitam a nossa reflexão.

Unidos a toda a Igreja e vivendo este tempo santo de conversão, preparámo-nos para a festa da Páscoa do Senhor e da nossa Páscoa. Confiantes na misericórdia do Pai, que quer para nós, seus filhos, uma vida nova em Cristo, peçamos a conversão do coração, fonte de reconciliação com Deus e com os irmãos.

 

Momento penitencial

 

Confiantes na divina misericórdia do Pai peçamos-Lhe perdão:

Da ganância, da sede do poder, da desunião e do ódio nas nossas famílias e comunidades;

Senhor, misericórdia.

Da violência e da perseguição aos que lutam pela paz,

Cristo misericórdia.

Da falta de amor e de solidariedade com os pobres, das tentações que nos afastam do desejo de maior formação cristã e das celebrações na comunidade.

Senhor, misericórdia.

 

ORAÇÃO COLECTA: Concedei-nos, Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, alcancemos maior compreensão do mistério de Cristo e a nossa vida seja um digno testemunho. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

LITURGIA DA PALAVRA

 

Primeira Leitura

 

Monição: O texto do Deuteronómio, que iremos ouvir, recorda uma cerimónia em que os israelitas, com a entrega das suas primícias da terra ou dos rebanhos, proclamavam a fidelidade de Deus às suas promessas e reconheciam que tudo o que possuíam era dom do Senhor.

 

Deuteronómio 26, 4-10

Moisés falou ao povo, dizendo: 4«O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. 5E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egipto com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. 6Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. 7Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egipto com mão poderosa e braço estendido, 8espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. 9Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. 10E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».

 

A nossa leitura é tirada da parte final do chamado «Código Deuteronómico» (Dt 12 – 26) e contém a oração ritual a recitar no momento da oferta ao Santuário dos primeiros frutos da terra, as primícias. Esta oração contém o que Gerhard von Rad classificou de «Credo histórico», isto é um resumo do núcleo da fé de Israel, que é fundamentalmente uma confissão de fé nas intervenções salvadoras de Yahwéh na história deste povo, centradas na libertação da escravidão do Egipto e na instalação em Canaã, a terra prometida. Podem ver-se outras profissões de fé semelhantes em: Dt 6, 20-24; Jos 24, 1-13; Ne 9, 6-37; Jr 32, 17-25; Salm 136 (135).

5 «Um arameu errante». Trata-se de Jacob, que personifica a era dos patriarcas, assim chamado quer pelo facto de a migração de Abraão estar ligada com as movimentações de tribos de arameus na zona do Médio Oriente, mas também em razão de ter muitas relações de parentesco com a Mesopotâmia, onde vivia o seu tio Labão, o arameu (Gn 28,1-5), e onde passou longos anos em Aran com as suas mulheres (cf. Gn 29 – 30). Jacob, bem como Isaac e Abraão, levou uma vida semi-nómada, acabando por se estabelecer no Egipto «com uma família pouco numerosa», isto é, um grupo de 70 pessoas (Gn 46, 26-27; cf. Ex 1, 1-5).

9-10 «Deu-nos esta terra… E agora…» O gesto de oferecer as primícias tem esse sentido de gratidão de quem quer corresponder a tanto amor de Deus com a oferta simbólica, os primeiros frutos da terra. Por outro lado, era uma confissão de fé em Yahwéh, o único que concede a fertilidade, e ao mesmo tempo era uma forma de abjurar os sedutores cultos idolátricos da fertilidade – tão característicos de Canaã – da deusa Astarté. A oração também põe em evidência o forte contraste entre o pobre arameu errante, sem leira nem beira, e o agricultor a desfrutar livremente duma terra ideal – onde corre leite e mel – dada por Deus.

 

Salmo Responsorial

Sl 90 (91), 1-2.10-15 (R. cf. 15b)

 

Monição: O salmo responsorial ressalta a confiança no Senhor no meio de uma experiência de medo e desespero.

 

Refrão:        ESTAI COMIGO, SENHOR, NO MEIO DA ADVERSIDADE.

 

Tu que habitas soba a protecção do Altíssimo

e moras à sombra do Omnipotente,

diz ao Senhor: «Sois o meu refúgio e a minha cidadela:

meu Deus, em Vós confio».

 

Nenhum mal te acontecerá

nem a desgraça se aproximará da tua tenda,

porque Ele mandará os seus Anjos

que te guardem em todos os teus caminhos.

 

Na palma das mãos te levarão,

para que não tropeces em alguma pedra.

Poderás andar sobre víboras e serpentes,

calcar aos pés o leão e o dragão.

 

Porque em Mim confiou, hei-de salvá-lo;

hei-de protegê-lo, pois conheceu o meu nome.

Quando me invocar, hei-de atendê-lo,

estarei com ele na tribulação,

hei-de libertá-lo e dar-lhe glória.

 

Segunda Leitura

 

Monição: A Palavra de Deus é acessível a todos sem distinção e está pronta para ser acolhida no coração de cada um. A esse acolhimento deve corresponder uma atitude exterior da fé testemunhada na vida quotidiana.

 

Romanos 10, 8-13

Irmãos: 8Que diz a Escritura? «A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração». Esta é a palavra da fé que nós pregamos. 9Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e se acreditares no teu coração que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. 10Pois com o coração se acredita para obter a justiça e com a boca se professa a fé para alcançar a salvação. 11Na verdade, a Escritura diz: «Todo aquele que acreditar no Senhor não será confundido».12Não há diferença entre judeu e grego: todos têm o mesmo Senhor, rico para com todos os que O invocam. 13Portanto, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

 

A citação do Deuteronómio com que começa o trecho desta leitura, refere-se à proximidade da revelação da salvação de Deus (cf. Dt 30, 12-14), ao dizer que não é preciso cruzar os mares nem subir às alturas para a encontrar. Para Israel ela estava encerrada na Thoráh; para os cristãos ela está patente na pregação apostólica da Igreja, e só nos resta aderir a ela interiormente e professá-la externamente. Mas S. Paulo vai mais longe, pois pretende mostrar que a salvação divina é uma realidade acessível a todos, sem distinção de raça ou nação, apenas se exige «crer» (e cita Is 28, 16) «e invocar o nome do Senhor» (cita Joel 3, 5), o Senhor, que é Jesus.

9 «Se confessares… que Jesus é o Senhor», isto é, que Jesus é Deus. Senhor – Kyrios – é a tradução dos LXX para o nome divino de Yahwéh; daí que aplicar este nome a Jesus é fazer uma profissão de fé na sua divindade; este frequente procedimento do N. T. é chamado um deraxe cristológico (uma actualização do A. T. para exprimir quem é Jesus, o mistério da sua pessoa). Note-se como, para ser salvo, se exige uma fé que não se reduz a uma mera confiança – fé fiducial – na obra salvadora de Jesus, pois implica crer naquilo que Ele é objectivamente: Ele salva pelo facto de que é Deus que vem, feito homem, para nos salvar. Doutra forma, a fé seria vazia, por carecer de um fundamento real sólido; que sentido teria então aderir a Cristo sem ter a certeza daquilo que Ele é na realidade? Seria cair num fideísmo idealista e subjectivista, numa fé que não iria para além dum vago e instável sentimento religioso. S. Paulo fala de «crer com o coração» (v. 10), usando a palavra «coração» no sentido semítico, próprio da citação bíblica anterior (v. 8): é a interioridade do ser humano, mais que a mera afectividade, engloba a sua mente (a inteligência e a vontade).

 

Aclamação ao Evangelho        

Mt 4, 4b

 

Monição: Devemos dar glória a Jesus Cristo, pois Ele ensinou-nos a vencer todas as tentações.

 

 Nem só de pão vive o homem,  mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

 

 

Evangelho

 

São Lucas 4, 1-13

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O diabo disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o demónio levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

 

Uma consideração superficial desta narrativa poderia levar o leitor a cair numa de duas tentações de pólos opostos: ou a de ficar na literalidade do relato, que parece descrever umas tentações de gula, de ambição do poder, de vaidade e presunção, ou então a de não querer ver nada para além da teologia do evangelista. Quem olhar para o relato imbuído do preconceito de que não existe o diabo, nem a tentação diabólica, não terá mais remédio do que refugiar-se na fácil solução da negação do seu valor histórico, apelando para a teologia do evangelista, para o simbolismo e significado teológico destas tentações. Por outro lado, quem se aferrar a uma mentalidade fundamentalista para salvar a todo o custo o sentido histórico literal de cada pormenor da narrativa, partindo de que esta é uma crónica jornalística, adoptará uma posição redutora da riqueza teológica do texto e virá a cair em interpretações pueris e até incoerentes, como, por ex., a de imaginar Jesus a ser transportado pelo diabo para um ponto donde pudesse ver todos os reinos da terra (v. 4), como para o pináculo do Templo, onde «o colocou», segundo reza o texto (v. 9).

É indiscutível que Jesus foi sujeito à tentação (cf. Hbr 4, 15). Na Escritura a palavra «tentação» tem dois sentidos, tanto em grego, como em hebraico – peirasmós/massá –, a saber, o de «sedução» para praticar o mal, e o de «provação» que põe à prova a virtude e a fidelidade da criatura a Deus. Aqui, Jesus aparece claramente a ser tentado pelo demónio; muitas vezes, especialmente na hora da sua Paixão, é sujeito à prova (cf. Lc 22, 28. 40-46; 23, 35.37.49, etc.). Não obsta à realidade da tentação – a que Jesus não foi poupado – o significado simbólico dos elementos da narrativa, como o número «40» (tempo prolongado: cf. 1 Re 19, 8; Ex 16, 35; 24, 18; 34, 28…) e o«deserto» (lugar de solidão, abandono e perigo e também de encontro com Deus). Alguém escreveu que este relato recapitula toda a oposição, exterior e interior, que Jesus teve de enfrentar para cumprir a sua missão de acordo com a vontade do Pai.

Neste caso concreto, convém advertir que as tentações de Jesus aqui descritas não são de modo algum uma tentação ocasional, nem sequer um ataque mais violento; foram um duelo mortal e decisivo entre dois inimigos irredutíveis. Assim, estas tentações não vão dirigidas a fazer cair Jesus em meras faltas pessoais (gula, avareza, vaidade); mas são mesmo um ataque frontal, com o fito de fazer gorar toda a obra de Jesus. S. Lucas apresenta-nos o diabo a querer tirar a limpo até que ponto Jesus era o «Filho de Deus» (vv. 3 e 10), segundo lhe constaria da teofania do Jordão (cf. Lc 3, 23). Por outro lado, o maligno aparece a tentar Jesus precisamente no núcleo da sua missão messiânica, para tentar desviá-lo do plano divino para os seus planos diabólicos, de modo a que esta missão acabasse por vir a ser desvirtuada. Tentemos agora ver o alcance destas tentações:

3-4 Na primeira tentação, Jesus aparece tentado a enveredar pelo caminho da satisfação das esperanças materialistas do povo, que esperava um messias que lhe trouxesse bem-estar, riqueza, prosperidade, fertilidade, pão e prazer.

5-6 Na segunda tentação, Jesus é tentado a mover-se na linha das esperanças populares num messias político, vitorioso, dominador dos opressores romanos e senhor do mundo inteiro; trata-se da tentação que Jesus sentiu de se desviar do plano do Pai, a instauração do Reino de Deus, para se dedicar à instauração dum reino temporal, um plano aparentemente mais eficaz e bem mais sedutor.

9-12 Na terceira tentação, com aquele «atira-te daqui abaixo», é feito a Jesus um apelo diabólico a ir atrás da expectativa judaica, que pensava que o messias desceria espectacularmente do céu, à vista de todo o povo. Mas Jesus renuncia decididamente à fácil tentação de ser um messias milagreiro e espectacular, e diz não à proposta de uma actuação com base no triunfo pessoal, no mero êxito humano.

Não devemos estranhar que S. Lucas inverta a ordem de S. Mateus para as duas últimas tentações, o que em nada diminui o valor do relato. A fonte pode ser a mesma, mas parece que Lucas coloca a última tentação em Jerusalém devido ao alto valor simbólico que quer dar à Cidade Santa e ao Templo no seu Evangelho. Ninguém foi testemunha das tentações de Jesus, pois se trata de coisas que se passaram apenas no seu espírito; mas também é compreensível que Jesus abrisse o seu coração aos discípulos, quando lhes falava da natureza do Reino de Deus e lhes explicava em particular as parábolas (cf. Mc 4, 34: seorsum autem discipulis suis disserebat omnia). O que é certo é que, para além das hipóteses que possam formular os críticos, ninguém poderá provar que estamos em face de meras criações teológico-narrativas dos evangelistas.

O alcance teológico desta narrativa nos três Sinópticos (em Marcos há apenas uma brevíssima alusão: 1, 12-13) é grande. Com efeito, as grandes personagens bíblicas foram «tentadas» e também o povo de Israel, no seu conjunto, especialmente durante a sua peregrinação pelo deserto, a caminho da terra prometida. Ora, em Jesus cumpre-se tudo o que estava em toda a Escritura (cf. Lc 24, 44); por outro lado, a vida de Jesus torna-se também um modelo para os cristãos e para toda a Igreja, que virá a ser tentada pelos poderes diabólicos, que nunca deixarão de pôr à prova a sua fidelidade e de os seduzir para o mal; os caminhos da Igreja não podem ser nunca os da glória terrena e do êxito fácil, mas os da humildade e do sacrifício, os árduos e escondidos caminhos da santidade.

13 «O diabo… retirou-se… até certo tempo». É uma observação exclusiva de Lucas, e foi no momento da Paixão de Jesus (sem podermos excluir outros) quando em força avançou o diabo, o poder das trevas (cf. Lc 22, 53. E também foi então a grande derrota do demónio e a vitória definitiva do Senhor, que nos mereceu a graça de também podermos sair vitoriosos das nossas tentações. S. João Crisóstomo comenta: «uma vez que o Senhor tudo fazia e sofria para o nosso ensinamento, também quis ser conduzido ao deserto e ali travar combate contra o diabo, a fim de que os baptizados, se, depois do Baptismo vierem a sofrer as piores tentações, não se perturbem com isso, como se se tratasse duma coisa que não era de esperar. Não, não há que se perturbar com isso, mas sim permanecer firmes e suportá-lo generosamente como a coisa mais natural do mundo» (Homilia sobre S. Mateus, 13).

 

Sugestões para a homilia

 

  • As tentações de Jesus
  • As nossas tentações
  • As ajudas de Deus

As tentações de Jesus

Todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma, somos levados a reflectir nas tentações de Jesus. Ora, é conveniente que nos consciencializemos que Jesus foi posto à prova não com três, mas com toda a espécie de tentação, como se pode depreender do texto evangélico. Não são três episódios isolados da vida de Jesus que Lucas nos apresenta, mas três «parábolas» em que, através de imagens e citações bíblicas, o autor afirma que Jesus foi tentado, em todos os momentos da sua vida terrena, em tudo como nós, com a única diferença: nunca foi vencido pelo pecado.

Ele teve dúvidas como nós, encontrou dificuldades para realizar a sua missão, só progressivamente foi descobrindo o desígnio do Pai.

Então, analisemos as três tentações:

A primeira: «Manda a esta pedra que se transforme em pão».

Jesus iniciou a sua vida pública sem se manter à distância dos homens do seu tempo. Assim: baptizou-Se como os pecadores, confundiu-Se com eles, escolheu fazer o mesmo caminho que nos leva à salvação. Ele foi tentado durante toda a sua vida a servir-Se do poder divino para fugir às dificuldades que os homens comuns encontram: fome, doença, cansaço, estudar para aprender, susceptibilidade de ser enganado, curvado a desgraças, perseguido por injustiças… Mas não, sofreu tudo isso como qualquer homem.

Ele poderia dispensar-Se de tais dificuldades. Por isso o demónio O convida a utilizar o seu poder divino para o fazer. Propõe-Lhe que não exagere na sua identificação com os homens e sugere que use milagres em seu próprio favor, inclusivamente quando foi incitado a descer da cruz. Perante os homens seria um vencedor, mas um vencido perante Deus. Se Jesus o tivesse atendido, não teria sido realmente homem, teria unicamente fugido. Jesus usou, sim, o próprio poder para fazer milagres, nunca para Si, mas sempre para os outros.

A segunda tentação: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos…».

Os homens consideram pessoa de sucesso aquele que predomina sobre os outros, o que se faz respeitar mesmo à força, quem levanta a voz e faz tremer quem o ouve. Ora, durante a sua vida Jesus foi tentado, como nós, a moldar-Se a esta maneira diabólica de pensar. A proposta de Jesus é contrária a esta, Ele diz que grande é aquele que serve, o que se ajoelha diante do irmão mais pobre para lhe lavar os pés.

A terceira tentação: «Atira-Te daqui abaixo…».

São astúcias do reino do mal um rosto atraente, assumir um ar devoto, servir-se da própria palavra de Deus distorcida para seduzir as pessoas. O maior objectivo do maligno é corroer pela base o relacionamento com Deus. Consegue-o alcançar quando incita no pensamento do homem a dúvida se o Senhor manterá ou não as suas promessas, a sua protecção, e depois que abandone quem depositou n’Ele a sua confiança. Então, nasce a necessidade de ter provas. Assim aconteceu com os judeus no deserto, aquando da fuga do Egipto. Eles provocaram a Deus pedindo um sinal de que o Senhor estava no meio deles.

Jesus não cedeu a esta tentação. Nos momentos mais difíceis e dramáticos, mesmo no alto da cruz, sempre se recusou a pedir uma prova do amor do Pai.

As nossas tentações

A primeira tentação acontece connosco como um convite a fecharmo-nos egoisticamente sobre nós próprios e, para satisfazermos os próprios caprichos, não queremos ajudar os irmãos; quando nos convencemos de que cada um se deve desembaraçar como puder, sempre que pensamos no próprio benefício olvidando os demais; como diabólica é a utilização egoísta dos bens deste mundo, o acumular apenas para si, o viver à custa dos outros, o dar-se a todas as formas de prazer e divertimento, o esbanjar o dinheiro em coisas inúteis, enquanto a muitos falta o essencial.

As realidades deste mundo não devem ser desaproveitadas nem aniquiladas, eliminadas ou recusadas, mas também não podem ser idolatradas.

Caímos facilmente na segunda tentação quando fazemos opções contrárias às de Cristo: sempre que pretendemos dominar em vez de servir, somos inflexíveis e não solidários, só mandamos e não servimos. Isto passa-se em todas as experiências da nossa vida: quem é culto, quem atingiu uma posição de importância ou é tentado a achincalhar quem é menos favorecido ou pode ajudar a prosperar quem teve menos sorte; quem detém o poder, ou é rico, pode ser tentado a usar estilos hostis em relação aos que dele dependem ou então pode pôr-se ao seu serviço; o marido pode ser tentado a proceder como um dono em relação à esposa ou então procurará possibilitar ao máximo a felicidade dela; o jovem abusador da namorada, tornando-a simples instrumento de prazer ou então pode respeitá-la e ajudá-la a expressar o melhor de si mesma; os que se aliam com quem acumulam dinheiro sem escrúpulos ou se apoiam em quem detém o poder político. Por vezes cedemos a esta tentação sem nos apercebermos.

A terceira tentação apresenta-se-nos quando nos sentimos amados por Deus se as coisas nos correm bem. Se, porventura, nos advém uma doença, uma desgraça, somos capazes de duvidar e perguntarmo-nos se Deus nos ama ou não. Se Ele se interessa por nós ou se nos esqueceu. E então, provavelmente, queremos exigir de Deus um milagre para resolver as dificuldades. Se tal não acontece somos capazes de nos revoltar, pedimos «provas» e a nossa fé arrisca-se a desabar. Muitos afastam-se da Igreja e aderem a seitas que prometem curas milagrosas, para tentarem conseguir aquilo que não obtiveram do Deus dos cristãos.

A nossa confiança em Deus deve ser adoptada com a vida e formulada com palavras, como fizeram os israelitas, tal como ouvimos na primeira leitura. Deus ama os homens e sempre os ajuda conduzindo-os pelo caminho da vida.

As ajudas de Deus

Com a oferta das primícias, os israelitas reconheciam que a vida deles dependia completamente da generosidade de Deus para com eles. Elas eram acompanhadas da profissão de fé de cada ofertante. Tais oferendas eram depois distribuídas pelos mais pobres: os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas.

O texto do Deuteronómio recorda-nos que não basta a profissão de fé, não são suficientes os ritos, os cânticos e as bonitas palavras; é preciso, como resultado das nossas orações, a presença e a satisfação dos pobres quando se sentem saciados.

A segunda leitura também insiste na obrigação de fazer a profissão de fé. O cristão, diz Paulo, deve proclamar de duas maneiras a fé em Deus, que veio ao encontro do homem em seu Filho Jesus Cristo: «com o coração», isto é, com a vida inteiramente nova; e com «a boca» porque o credo dito conjuntamente com os irmãos faculta a união da própria voz à dos demais. Quem expressar a sua fé mediante sinais, gestos e palavras, sente-se inflamado para seguir a Cristo, mas também para demolir todos os muros que se levantam devido à origem, ao clã, à opulência, à condição social ou ao cunho de cada um.

Assim nos consigamos sentir e realmente mostrar irmãos e iguais em dignidade.

 

Fala o Santo Padre

 

«Na Quaresma, a Igreja ajuda-nos a percorrer este caminho interior e convida-nos à conversão.»

Prezados amigos, estamos no tempo da Quaresma, dos quarenta dias antes da Páscoa. Neste tempo de Quaresma a Igreja ajuda-nos a percorrer este caminho interior e convida-nos à conversão que, antes de ser um esforço sempre importante para mudar os nossos comportamentos, é uma oportunidade para decidir levantar-nos e recomeçar, ou seja, abandonando o pecado e escolhendo voltar para Deus. Percorramos, este é o imperativo da Quaresma, juntos este caminho de libertação interior. Cada vez que, como hoje, participamos na Eucaristia, fonte e escola do amor, tornamo-nos capazes de viver este amor, de anunciá-lo e de testemunhá-lo com a nossa vida. Porém, é preciso que decidamos caminhar rumo a Jesus, como fez o filho pródigo, voltando interior e exteriormente ao pai. Ao mesmo tempo, devemos abandonar a atitude egoísta do filho mais velho, seguro de si, que condena facilmente os outros, fecha o coração à compreensão, ao acolhimento e ao perdão dos irmãos, e esquece que também ele tem necessidade do perdão. Obtenham-nos este dom Maria Virgem e São José, meu padroeiro, cuja festa será amanhã, e que agora invoco de modo particular sobre cada um de vós e sobre as pessoas que vos são queridas.

 

Papa Bento XVI, Domingo, 18 de Março de 2007

 LITURGIA EUCARÍSTICA

 

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS: Fazei que a nossa vida, Senhor, corresponda à oferta das nossas mãos, com a qual damos início à celebração do tempo santo da Quaresma. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Prefácio

 

As tentações do Senhor

 

V. O Senhor esteja convosco.

R. Ele está no meio de nós.

 

V. Corações ao alto.

R. O nosso coração está em Deus.

 

V. Dêmos graças ao Senhor nosso Deus.

R. É nosso dever, é nossa salvação.

 

Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente, é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação dar-Vos graças, sempre e em toda a parte, por Cristo nosso Senhor.

Jejuando durante quarenta dias, Ele santificou a observância quaresmal e, triunfando das insídias da antiga serpente, ensinou-nos a vencer as tentações do pecado, para que, celebrando dignamente o mistério pascal, passemos um dia à Páscoa eterna.

Por isso, com os Anjos e os Santos, proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:

 

Santo, Santo, Santo.

 

Monição da Comunhão

 

Que a comunhão do Corpo e Sangue do Senhor Jesus nos impulsione a viver este tempo santo unidos a toda a Igreja. Que a nossa vida seja uma permanente conversão e nos prepare proveitosamente para a festa da Páscoa do Senhor, como passagem interior para uma vida nova.

Mt 4, 4

ANTÍFONA DA COMUNHÃO: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

 

ou

Salmo 90, 4

O Senhor te cobrirá com as suas penas, debaixo das suas asas encontrarás abrigo.

 

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO: Saciados com o pão do Céu, que alimenta a fé, confirma a esperança e fortalece a caridade, nós Vos pedimos, Senhor: ensinai-nos a ter fome de Cristo, o verdadeiro pão da vida, e a alimentar-nos de toda a palavra que da vossa boca nos vem. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

RITOS FINAIS

 

Monição final

 

Que o Senhor nos auxilie a acolher a sua Palavra ao longo da vida e nos ensine a não cedermos às diversas tentações a que estamos sujeitos todos os dias. Que continuemos fiéis a preparar, com toda a confiança, a Páscoa da salvação trazida por Cristo, louvando sem cessar o Senhor nosso Deus, por todos os dons com que continuamente nos cumula.

 

 

 

Celebração e Homilia:         ANTÓNIO E. PORTELA

Nota Exegética:                    GERALDO MORUJÃO

Homilias Feriais:                  NUNO ROMÃO

Sugestão Musical:                DUARTE NUNO ROCHA