Dehonianos
(Província portuguesa dos sacerdotes do Coração de Jesus)

Nota inicial:

Não sendo possível apresentar, para este domingo, os comentários segundo o esquema habitual, limitamo-nos a breves comentários de cada uma das leituras e a um conjunto de interpelações finais sobre como ser profeta hoje, tema que percorre a liturgia deste domingo.

Daí que, como mera sugestão, a meditação e homilia deste domingo comum possam apelar também para alguns dinamismos que podemos renovar a partir do testemunho de vida do Santo Cura d’Ars e dalgumas interpelações que o Papa Bento XVI nos lançou no início deste Ano Sacerdotal. Nunca será demais retomar igualmente essenciais palavras do Papa aquando da sua recente passagem em Portugal, que apontam para a essência da nossa vida cristã, sempre centrada na Palavra, escutada e meditada, e na Eucaristia, celebrada e adorada!

TEMA

A dimensão profética percorre a liturgia da Palavra deste domingo, em Elias, o profeta da esperança e da vida, em Paulo, o profeta do Evangelho recebido de Deus, e, particularmente, em Jesus, o grande profeta que visita o seu povo em atitude de total oblação.

A primeira leitura apresenta-nos a figura da mulher de Sarepta, que significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procura de um culpado, e a figura do profeta Elias, que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte, ressuscitando o filho da viúva.

No Evangelho, temos a revelação de Deus expressa na atitude de piedade e compaixão de Jesus no milagre da ressurreição do filho da viúva. Deus visita o seu povo em Jesus, “um grande profeta”, realizando o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida e dando-lhe pleno sentido.

Na segunda leitura, acolhemos a absoluta gratuidade da conversão de Paulo, para quem o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que ele recebeu directamente de Deus.

LEITURA I – 1 Reis 17, 17-24

Naqueles dias, caiu doente o filho da viúva de Sarepta e a enfermidade foi tão grave que ele morreu. Então a mãe disse a Elias:

«Que tens tu a ver comigo, homem de Deus? Vieste a minha casa lembrar-me os meus pecados e causar a morte do meu filho?» Elias respondeu-lhe:
«Dá-me o teu filho».
Tomando-o dos braços da mãe, levou-o ao quarto de cima, onde dormia, e deitou-o no seu próprio leito. Depois, invocou o Senhor, dizendo:
«Senhor, meu Deus, quereis ser também rigoroso para com esta viúva, que me hospeda em sua casa, a ponto de fazerdes morrer o seu filho?»
Elias estendeu-se três vezes sobre o menino e clamou de novo ao Senhor:
«Senhor, meu Deus, fazei que a alma deste menino volte a entrar nele».
O senhor escutou a voz de Elias:
a alma do menino voltou a entrar nele e o menino recuperou a vida.
Elias tomou o menino, desceu do quarto para dentro da casa e entregou-o à mãe, dizendo:
«Aqui tens o teu filho vivo».
Então a mulher exclamou:
«Agora vejo que és um homem de Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do Senhor».

COMENTÁRIO

O episódio de hoje, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta, é um dos milagres atribuídos a Elias e enquadra-se na polémica contra a religião cananeia do deus Baal.

Este era considerado o senhor e o esposo da terra e simbolizava a fertilidade dos campos, dos animais, das famílias. Enfim, era o deus da fecundidade e da vida.

Portanto, em Canaan, celebrava-se todos os anos a festa da morte e da ressurreição da natureza na figura de Baal.

O milagre de Elias, como outros a eles atribuídos, significa fundamentalmente que Yahveh é a única fonte da vida e da fertilidade. A vida vem de Deus. Toda a vida e acção de Elias apontam nesse sentido; o próprio nome Elias significa “Yahveh é o meu Deus”. Portanto, todos os elementos da mensagem devem ser vistos à luz desta centralidade. Todo o relato, que pode denotar referências mágicas na relação entre pecado e doença, baseia-se na oração de Elias, que deixa clara a sua fé num Deus pessoal, senhor e fonte de vida.

A viúva de Sarepta, uma mulher estrangeira, confessa a fé em Elias como “homem de Deus”, “porta-voz de Deus”: “Agora vejo que és um homem de Deus e que se encontra verdadeiramente nos teus lábios a palavra do Senhor”. Naamã confessará uma fé semelhante, depois de ser curado e se ter lavado no Jordão por indicação de Eliseu (cf. 2 Re 5,15). Jesus fará referência à viúva de Sarepta e ao sírio Naamã como representante dos gentios que entram n Igreja, após receber o Evangelho (cf. Lc 4,25 27).

A figura da mulher significa a perda da esperança e o sentimento de derrota e de procurar um culpado. O profeta Elias é a figura que acredita no Deus da vida, que não abandona o homem ao poder da morte.

Como pensamos e agimos hoje, nós que somos cristãos? Não ficamos muitas vezes no paganismo, na falta de esperança, no derrotismo das desgraças que nos atingem? Quando é que, verdadeiramente, agimos como se Deus fosse verdadeiramente o único Deus da vida e da bondade? Quanto caminho a fazer para sermos profetas à maneira de Elias…

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 29 (30)

Refrão 1: Eu Vos louvarei, Senhor, porque me salvastes.

Eu Vos glorifico, Senhor, porque me salvastes e não deixastes que de mim se regozijassem os inimigos.
Tirastes a minha alma da mansão dos mortos, vivificastes-me para não descer ao túmulo.
Cantai salmos ao Senhor, vós os seus fiéis, e dai graças ao seu nome santo.
A sua ira dura apenas um momento e a sua benevolência a vida inteira.
Ao cair da noite vêm as lágrimas e ao amanhecer volta a alegria.
Ouvi, Senhor, e tende compaixão de mim, Senhor, sede vós o meu auxílio.
Vós convertestes em júbilo o meu pranto:
Senhor meu Deus, eu Vos louvarei eternamente.

LEITURA II – Gal 1, 11-19

Quero que saibais, irmãos:

O Evangelho anunciado por mim não é de inspiração humana, porque não o recebi ou aprendi de nenhum homem, mas por uma revelação de Jesus Cristo.

Certamente ouvistes falar do meu proceder outrora no judaísmo e como perseguia terrivelmente a Igreja de Deus e procurava destruí-la.

Fazia mais progressos no judaísmo do que muitos dos meus compatriotas da mesma idade, por ser extremamente zeloso das tradições dos meus pais.

Mas quando Aquele que me destinou desde o seio materno e me chamou pela sua graça, Se dignou revelar em mim o seu Filho para que eu O anunciasse aos gentios, decididamente não consultei a carne e o sangue, nem subi a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim;

mas retirei-me para a Arábia e depois voltei novamente a Damasco.

Três anos mais tarde, subi a Jerusalém para ir conhecer Pedro e fiquei junto dele quinze dias.

Não vi mais nenhum dos Apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor.

COMENTÁRIO

O texto de hoje enquadra-se na acentuação muito forte da absoluta gratuidade da conversão de Paulo. A essa luz Paulo prega um Evangelho que não é de origem humana. Poder-se-ia pensar que este Evangelho tem um conteúdo da catequese sobre os factos e os ditos de Jesus. Ora, Paulo, quando perseguia ferozmente os cristãos, conhecia bem o conteúdo da sua doutrina. Para Paulo, o Evangelho é uma força vital e criadora, que produz o que anuncia; a sua força é Deus. É uma força vital, uma dinâmica profética que Paulo recebeu directamente de Deus.

Para Paulo, a sua conversão é obra exclusiva de Deus. Temos aqui um equilíbrio dinâmico entre a gratuidade da fé e a adesão à tradição e magistério eclesiástico.

Somos convidados a estarmos sempre abertos à revelação de Deus, à autêntica conversão, ao acolhimento do Evangelho vivo de Deus.

ALELUIA – Lc 7,16

Aleluia. Aleluia.

Apareceu no meio de nós um grande profeta:

Deus visitou o seu povo.

EVANGELHO – Lc 7,11-17

Naquele tempo, dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim; iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão.
Quando chegou à porta da cidade, levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva.
Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se dela e disse-lhe:
«Não chores».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão; e os que o transportavam pararam.
Disse Jesus:
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se e começou a falar; e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor e davam glória a Deus, dizendo:
«Apareceu no meio de nós um grande profeta; Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.

COMENTÁRIO

Temos aqui o episódio da ressurreição do filho de uma viúva, em paralelismo com o da primeira leitura. O milagre relatado neste texto, assim como o dos versículos anteriores, respondem à pergunta de João de Baptista a Jesus: “és Tu que hás-de vir ou devemos esperar outro?” Jesus oferece a salvação (cf. Lc 7,1-10) e mostra o verdadeiro triunfo da vida (cf. Lc 7,11-17). Não é o relato em si que é o mais importante, mas o sentido que nos transmite.

Antes de mais, temos aqui uma revelação de Deus. Diante da atitude de piedade e compaixão de Jesus, neste milagre de ressurreição, vemos a exclamação do povo:

“Deus visitou o seu povo”. Jesus é “um grande profeta”, não apenas porque transmite a Palavra de Deus e anuncia o reino com palavras, mas sobretudo porque veio realizar o reino pela ressurreição, oferecendo a sua vida.

Em seguida, vemos aqui o sentido da vida. Jesus veio criar, oferecer ao homem a alegria de uma vida aberta com todo o sentido.

Percebemos ainda todo o carácter de sinal presente no milagre. A ressurreição do filho da viúva testemunha Jesus que há-de vir, cuja vida triunfa plenamente sobre a morte.

Significa que para nós, hoje como então, Deus Se encontra onde há o sentido da piedade, do amor vivificante. Significa ainda que, seguindo Jesus, só podemos também suscitar vida, ter piedade dos que sofrem, oferecer a nossa ajuda, ter uma atitude de oblação.

Das duas, uma: ou fazemos da nossa vida um cortejo de morte, dos sem esperança, que acompanham o cadáver, em atitude de choro, de luto, de desespero; ou fazemos do nosso peregrinar um caminho de esperança, de ressurreição, de transformação do choro e da morte em sentido de vida. Podemos escolher, é certo. Mas se somos seguidores de Cristo e nos deixamos visitar por esta grande profeta, não temos alternativa!

Anexo:

SANTO CURA D’ARS: UM MAGNÍFICO TESTEMUNHO

Que reter hoje do Santo Cura d’Ars? Que dinamismos da sua vida e acção para as nossas vidas e comunidades? Que frutos levamos deste Ano Sacerdotal?

Um homem de BONDADE.

Quando se evoca o Santo Cura d’Ars, qual a primeira impressão que vem ao nosso espírito? Os habitantes de Ars, interrogados depois da sua morte, respondem quase todos unanimemente: “a bondade”. Um homem bom, profundamente humano, sempre atento a todos. Um padre que leva até Deus sem rodeios! “Quando estamos a seu lado, temos vontade de ser melhores!”, sublinha um camponês de Ars. Um pobre, um humilde que se abandonou todo nas mãos de Deus, e totalmente dado aos seus irmãos.

Um homem de ORAÇÃO.

É o que mais chamava a atenção dos seus contemporâneos. Longos momentos diante do sacrário, uma verdadeira intimidade com Deus, um abandono total à sua vontade, um rosto transfigurado… tantos elementos que deixavam perceber, naqueles que o encontravam, a profundidade da sua vida de oração. Isso foi a sua grande alegria e o lugar de uma verdadeira amizade com Deus.

No coração da sua vida, a EUCARISTIA.

“Ele está ali”, exclamava o santo Cura olhando o sacrário. Homem da Eucaristia, celebrada e adorada. “Não há nada maior que a Eucaristia”, exclamava. O que o mais o tocava, talvez, era constatar que o seu Deus estava ali, para nós, presente no sacrário: “Ele espera-nos!”

Um extraordinário testemunho da MISERICÓRDIA.

A partir de 1830, milhares de pessoas virão a Ars para se confessar com ele. Ficava no seu confessionário 17 horas por dia para reconciliar os homens com Deus e entre eles. O Cura d’Ars é um verdadeiro “mártir do confessionário”. Tomado pelo amor de Deus, maravilhado diante da vocação do homem, media a loucura de se querer estar separado de Deus. Ele queria que cada um fosse livre de poder saborear a alegria de conhecer Deus e O amar, de saber que Ele nos ama…

No coração da sua paróquia, um HOMEM SOCIAL.

“Não sabemos quanto o Santo Cura fez como obra social”, relata um dos seus biógrafos. Vendo o Senhor presente em cada um dos seus irmãos, não cessa de os socorrer, ajudar, apaziguar os sofrimentos, permitir a cada um de ser livre e feliz.

Orfanato, escola, atenções aos mais pobres e aos doentes… nada lhe escapa.

Acompanha as famílias e procura protegê-las de tudo o que as pode destruir.

PATRONO de todos os PADRES do mundo.

Em 1929, o Papa Pio XI declara-o “patrono de todos os curas do universo”. Bento XVI nomeia-o “patrono dos padres do universo” em 2009. João Paulo II não disse outra coisa ao recordar em três vezes que “o Cura d’Ars permanece para todos os países um modelo fora do comum, ao mesmo tempo do cumprimento do ministério e da santidade do ministro”. Um pastor admirável, testemunha da ternura do Pai para cada um.

Um apelo universal à SANTIDADE.

“Mostrar-te-ei o caminho do Céu”, respondera ao pastorinho que lhe mostrava a estrada para Ars, isto é: “Vou ajudar-te a tornares-te um santo”. Ulteriormente, convida cada um a deixar-se santificar por Deus, a tomar os meios desta união com Deus, aqui na terra e para a eternidade. A seu exemplo, não hesitemos amar a Deus e os nossos irmãos com todo o coração!

Grupo Dinamizador

Pe. Joaquim Garrido – Pe. Manuel Barbosa – Pe. Ornelas Carvalho